No artigo “A puta respeitada e o racismo no Brasil”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro aborda o racismo no Brasil. Para ilustrar, ele relembra o caso de racismo vivenciado por Jean-Paul Sartre nos Estados no século passado e que serviu de base para um grande romance.

“As viagens de Sartre aos Estados Unidos foram benéficas para o desenvolvimento de seu pensamento. Em sua primeira viagem, ele se viu diante do racismo e da miséria, um país dividido, negros que não tinham direito de sentar nos bancos dianteiros de ônibus, a discriminação era total. Os guetos estavam por todo lado”, pontua.

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“A população, como um cão babando entre os dentes, queria linchar os suspeitos, mas eles foram condenados à morte, sem nenhuma investigação, quinze dias depois. Esta situação encorajou o filósofo francês a escrever o romance da puta respeitada e imaginar outra situação”, diz.

“Lizzie, prostituta de origem simples, ingênua, de extrema pobreza, sem estudos, mas radicalmente íntegra, torna-se a testemunha chave de um assassinato causado por Thomas, sobrinho de um senador branco em campanha para o governo. A vítima é um homem negro que seguia viagem de trem de Nova York para o sul”, relembra, sobre o romance.

“O azar de quem mata negro por prazer e ódio, às vezes, se dá mal, é o caso de George Floyd numa agonia de oito minutos; do João Alberto Silveira Freitas (Beto) em pleno Carrefour de Porto Alegre. É interessante olhar o racismo dos outros, mas quando faz parte da cena cotidiana diante do nariz, tenta-se disfarçar e dizer que o Brasil é um país pacífico, perfeito para florir a desigualdade de um povo que dorme em berço esplendido”, diz, sobre a situação brasileira.

Confira o artigo na íntegra:

“A puta respeitada e o racismo no Brasil

Mário Pinheiro, de Paris

As viagens de Sartre aos Estados Unidos foram benéficas para o desenvolvimento de seu pensamento. Em sua primeira viagem, ele se viu diante do racismo e da miséria, um país dividido, negros que não tinham direito de sentar nos bancos dianteiros de ônibus, a discriminação era total. Os guetos estavam por todo lado.

Ele se inspirou de um acontecimento dramático de ódio racial contra dois jovens negros que foram acusados de estuprar duas mulheres brancas. O caso ocorreu em 1931, no estado do Alabama, durante a viagem de trem no Tenessee. O fato se deu depois da reclamação de alguns jovens brancos que teriam reclamado de suposta agressão por passageiros negros. Então, uma milícia se apresentou, desceu a pancada, ensanguentou os acusados e o prenderam injustamente, arrastando-os pelo colarinho como se fossem animais.

A população, como um cão babando entre os dentes, queria linchar os suspeitos, mas eles foram condenados à morte, sem nenhuma investigação, quinze dias depois. Esta situação encorajou o filósofo francês a escrever o romance da puta respeitada e imaginar outra situação.

Lizzie, prostituta de origem simples, ingênua, de extrema pobreza, sem estudos, mas radicalmente íntegra, torna-se a testemunha chave de um assassinato causado por Thomas, sobrinho de um senador branco em campanha para o governo. A vítima é um homem negro que seguia viagem de trem de Nova York para o sul.

Ela se torna o objeto da manipulação, de chantagem por seus clientes brancos e os parentes do senador lhe oferecem vantagens para que ela minta quando a polícia formalizar o boletim de ocorrência, que ela minta diante do juiz. Eles querem falso testemunho. Lizzie resiste, mas vencida pela força dos argumentos dos endinheirados, diante da desigualdade social entre eles, ela cede. O puritanismo americano entra em questão, mas se desfaz da obrigação de respeitar o semelhante, o ódio é voraz, assassino, inconsequente e desumano.

O racismo nos Estados Unidos é visível, atira pelas costas, persegue negros como se fossem jornada de caça. O sangue escorre, o corpo desfalece. Muitos morreram pelas mãos da polícia e pela organização racista Kuklusklan que também matou Martin Luther King, e que, em 1968, não contava com o imediatismo das redes sociais.

O azar de quem mata negro por prazer e ódio, às vezes, se dá mal, é o caso de George Floyd numa agonia de oito minutos; do João Alberto Silveira Freitas (Beto) em pleno Carrefour de Porto Alegre. É interessante olhar o racismo dos outros, mas quando faz parte da cena cotidiana diante do nariz, tenta-se disfarçar e dizer que o Brasil é um país pacífico, perfeito para florir a desigualdade de um povo que dorme em berço esplendido.

No Brasil também existe racismo tanto quanto em outros países, mas o problema é que os racistas não se pronunciavam abertamente, escondiam-se nas entrelinhas de anúncios ou na estampa camarada das religiões. Eles saíram do armário com a chegada das características fascistas na presidência que considera os negros como animais ao dizer que eles se pesam em arrobas. No Brasil, de cada três assassinatos que acontecem, dois são negros. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública diz que jovens negros morrem mais do que jovens brancos, que mulheres negras sofrem mais assédio do que as brancas.

Quando Beto Freitas foi morto pelos vigias do supermercado, o vice-presidente Mourão teve a infelicidade cega de afirmar “não existe racismo no Brasil”. Segundo estatísticas do IPEA sobre Violência Racial no Brasil, 79% das vítimas de ações policiais são negros. O sistema de informação sobre mortalidade mostra que houve aumento de 11,5% de negros assassinados nos últimos dez anos por arma de fogo.

Não podemos agir como a puta de respeito, nem ignorar a realidade, mas podemos denunciar cada pessoa que discrimina alguém por causa de sua raça e sua cor.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.