No artigo ““A obscenidade da luz no existencialismo”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro faz reflexão sobre o impacto na vida da pessoa ter consciência da sua realidade. “Existir é bom, mas saber quem é e o que faz nesta terra de passagem é melhor. Não se pode fugir de si mesmo e inventar veredas e atalhos que não mostram respostas”, pontua, ao abordar a situação do brasileiro, que se confronta com o aumento dos preços dos alimentos, do gás, dos combustíveis, da energia, menos do salário.

“Nietzsche acha que os gregos resolveram a questão da autoridade com a arte da tragédia. Para a atualidade, Nietzsche mostra que os homens preferem se proteger, evitam o confronto de ideias para evitar a revelação da pobreza da condição em que vive. Dá impressão que ele escreveu e interpretou a realidade social e política brasileira. O eleitor brasileiro passa pela crise existencial, evitou ver a realidade e se deu conta do pior. A angústia acompanha a dona de casa no supermercado, ela ignora se amanhã, com a política macabra, haverá luz, gás, o que comer e vestir”, analisa.

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“A tragédia edipiana começa quando a realidade vem à tona. Poderíamos fazer um adendo e dizer que o brasileiro consciente sente a luz, vê a mentira em cada frase do jegue revestido de presidente, quando se dá conta do fardo que carrega por ter acreditado no mito inexistente. A verdade se escondeu da mentira ou a mentira tomou o lugar da verdade numa moral enganosa”, afirma Pinheiro.

Confira o artigo na íntegra:

“A obscenidade da luz no existencialismo

Mário Pinheiro, de Paris

Taiguara, em uma de suas canções, diz que quem não sabe a sombra, não sabe a luz. Conhece-te a ti mesmo, disse Sócrates. O convite ao conhecimento de si mesmo é a exclamação para a sabedoria. Pois o sábio conquista o bem pelo esforço da consciência, e quando se conhece os próprios limites, os medos e sua capacidade em avançar, torna-se mais fácil saber até onde se vai.

A criança, depois que começa a andar e falar, repete o que ouve, faz o que não deve e revira gavetas, cai, machuca-se, lambuza-se … que gracinha, dizem os pais, depois entra na fase do “por quê disso e daquilo”. Ela deseja conhecer os próprios limites, descobre-se, leva os pais à loucura, isso é permitido, isso não. No mundo grego não era diferente. Sócrates convida o indivíduo a aprofundar a condição humana.

Dentro desta perspectiva entram fatores recuperados pelo mundo cristão, ou seja, inveja, rancor, determinação, fraqueza, egoísmo, autenticidade, incredulidade em si mesmo, violência, mentira, verdade e a moral. Sócrates diz que uma vida sem exame de consciência não vale a pena ser vivida.

Não há quem não tenha se perguntado de onde vem, aonde vai, os opostos e contradições, a incompreensão da ganância que torna o homem infeliz, vazio e doente no meio da abundância. Tais temas podem ser ditos no divã do psicanalista. Existir é bom, mas saber quem é e o que faz nesta terra de passagem é melhor. Não se pode fugir de si mesmo e inventar veredas e atalhos que não mostram respostas.

A pessoa que mais se desfez de si, despojou-se dos bens, mandou às favas a herança paterna, acabou por iluminar a escuridão que carcomia sua existência. Por ele até os ateus e agnósticos se dobram pela coragem que teve em desvendar o absurdo.

O fato de existir e não saber o motivo da existência concerne pessoas que não gostam da reflexão. Refletir é procurar o discernimento, é entender que se é limitado. Desta forma, o nascimento da tragédia, de Nietzsche, endereçada ao músico Richard Wagner mistura descontentamento e arte grega. O filósofo alemão abre a polêmica e escreve para além do bem e do mal e a genealogia da moral onde a reflexão ganha sentido e aprofunda a existência.

Nietzsche acha que os gregos resolveram a questão da autoridade com a arte da tragédia. Para a atualidade, Nietzsche mostra que os homens preferem se proteger, evitam o confronto de ideias para evitar a revelação da pobreza da condição em que vive. Dá impressão que ele escreveu e interpretou a realidade social e política brasileira. O eleitor brasileiro passa pela crise existencial, evitou ver a realidade e se deu conta do pior. A angústia acompanha a dona de casa no supermercado, ela ignora se amanhã, com a política macabra, haverá luz, gás, o que comer e vestir.   

O existencialismo de Camus passa pelo absurdo, pela revolta e o desejo de igualdade. Homero relata que Sísifo teve uma queda vertiginosa do posto que ocupava, era sábio, o mais prudente dos mortais. Seu erro teria sido grave aos olhos dos deuses por desejar igualdade e liberdade a todos. Sísifo havia fugido do inferno para democratizar o que sabia, provar da água e do sol, da morte. Para Camus, Sísifo tinha paixão pela vida, mesmo condenado, ele simboliza a coragem por ter enfrentado o ódio de quem governa.

Não podemos nem sonhar que no olimpo grego já havia gabinete do ódio. Sísifo é o herói do absurdo. O mito de Sísifo é trágico em si, ele conhece a si mesmo pela agressividade do outro, e ele encosta a face na pedra, empurra com toda força, avança morro acima, mas a rocha é redonda, e, no momento em que o supliciado precisa de descanso e água, ela desce na forma absurda em que subiu. Mas Sísifo não é infeliz pelo suplício, ele assume o fardo e sabe que sem a sombra não existe a beleza do sol.

Édipo, quando descobre a verdade sobre o pai e a besteira que fez com a mãe, rejeita a luz, prefere a escuridão, fura os olhos. A tragédia edipiana começa quando a realidade vem à tona. Poderíamos fazer um adendo e dizer que o brasileiro consciente sente a luz, vê a mentira em cada frase do jegue revestido de presidente, quando se dá conta do fardo que carrega por ter acreditado no mito inexistente. A verdade se escondeu da mentira ou a mentira tomou o lugar da verdade numa moral enganosa.

Nietzsche diz que somos mentirosos e que nos acostumamos a mentir. Para conhecer a importância do sol é preciso vencer a noite e viver um inverno tenebroso. Sísifo contempla a rocha e o caminho que deve percorrer, o eleitor que votou na coisa contempla a alta dos preços, o prato vazio, a prateleira nua, a geladeira sem nada, a esperança miúda, dias sem objetivos claros por falta do conhecimento de si próprio. O que é real, autêntico à luz de seus olhos, ele os ignora pelo sentimento chamado ódio.

O ponto de partida do existencialismo recai sobre o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard. Ele se opõe a Hegel por recusar a lei universal e a moral porque elas impedem o indivíduo de conhecer a realidade, as sensações subjetivas. Hegel, junto com Schiling, escreveu sobre o direito e a ética como se fosse o novo catecismo. Nietzsche também se opôs a Hegel.

A visão passiva numa realidade dura, plena de mentiras, acaba por acordar, às vezes, o cidadão que vê tudo sentado no sofá.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.