No artigo “O Minotauro e o Asno”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro reconta detalhes das guerras da mitologia grega e o compara com o jumento. “Este casal havia tido vários filhos até que o deus dos mares, irritado com as inúmeras traições de Minos, inspirou a mulher numa monstruosa paixão pelo touro. Meio touro, meio homem, ele teria nascido da relação de Pasífae com um touro branco. É o gênero do machismo atado numa relação, onde somente o homem pode trair”, diz.

“Mas Minos ficou desolado, muito triste quando seu filho, Androgeu, foi morto pelos atenienses. Ele queria vingança. Mas seu ódio contra Atenas não se eterniza. Minos implora a Zeus que atenda seus pedidos e o deus do Olimpo envia a peste. Para se livrar da peste que dissemina a população, Minos faz um acordo com Atenas, a cidade aceita enviar sete virgens e sete jovens por ano ao Minotauro”, detalha.

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“Aberrações existiam na antiguidade e algumas persistem hoje até com torcida favorável a morte. O Asno, diferentemente do Minotauro, se alimenta de sutilidades, frivolidades, leite condensado, ri como anta quando seu objetivo não se torna concreto”, pontua Pinheiro, ao fazer analogia com os dias atuais.

“Do Asno vem asneiras, a vontade esculpida no desgosto, ou gosto, de odiar quem pensa diferente. A hora dele se aproxima com precaução”, prevê.

Leia o artigo na íntegra:

“O Minotauro e o Asno

Mário Pinheiro

O Minotauro, na mitologia grega, está associado a Minos, que era filho de Zeus e rei de Creta, cuja esposa se chamava Pasífae. Creta aparece como centro de todas as legendas, pela produção de trigo, pelo culto à deusa da colheita, segundo Homero, pelos “bons” costumes da família.

Pasífae era uma mulher muito ciumenta. Descontente com as incontáveis traições do marido, ela lança um feitiço sobre todas as mulheres que deitassem com ele, depois implora ajuda ao deus dos mares, Poseidon. Este casal havia tido vários filhos até que o deus dos mares, irritado com as inúmeras traições de Minos, inspirou a mulher numa monstruosa paixão pelo touro. Meio touro, meio homem, ele teria nascido da relação de Pasífae com um touro branco.

É o gênero do machismo atado numa relação, onde somente o homem pode trair. Na antiguidade a melhor maneira de se vingar, e, tentar se livrar dos chifres, era atender o pedido dos deuses, ou apelar ao veneno. Mas Zeus, que fora casado três vezes, não atende Pasífae, porque ele também traia a esposa e teve muitas amantes. E Hera, além de esposa de Zeus, era sua irmã.

Helena, esposa de Menelau, também rompe com o marido, não porque ele a traísse, mas por deixá-la muito tempo sozinha. Segundo Homero, numa visita de Páris e Hector a Esparta, na Grécia, cujo objetivo era selar a paz e abrir caminhos para diplomacia comercial, Helena foge com Páris, ou Páris comete o rapto da rainha. Este quiproquó é a origem da guerra de Troia.

O machismo está estampado como a questão de honra do homem. E o machismo vai ao encontro de Ulisses, o mentor do cavalo de Troia. Ausente durante 20 anos, segundo a Odisséia, ele era tido por morto. Mas o guerreiro destemido teve mulheres por todo canto onde andou. Quando voltou, Penélope já não sabia como fazer para espantar os vários pretendentes.

A lenda conta que ela se manteve fiel e intacta à espera de seu baixinho troncudo. E a anedota mais cruel contada por Homero é que quando Ulisses partiu, Argos, seu cão ficara triste. Ao retorno do mestre 20 anos depois o cachorro o reconheceu. E Ulisses derrota os pretendentes, mostra que ele é o rei de Itaque, exige respeito, e a falácia da fidelidade perdura. 

Mas Minos ficou desolado, muito triste quando seu filho, Androgeu, foi morto pelos atenienses. Ele queria vingança. Mas seu ódio contra Atenas não se eterniza. Minos implora a Zeus que atenda seus pedidos e o deus do Olimpo envia a peste. Para se livrar da peste que dissemina a população, Minos faz um acordo com Atenas, a cidade aceita enviar sete virgens e sete jovens por ano ao Minotauro. Minos teria de matá-lo, mas teve compaixão pela fera. O monstro foi colocado no labirinto construído pelas mãos do arquiteto Dedale, em resposta à traição de Pasífae.

A partir do episódio que impunha medo, nasceu o herói Teseu, mas ele não estava sozinho. A filha de Minos, Ariane, tinha olhos para Teseu, desejava-o, queria-o como seu amado, deu o novelo de linha para que ele não se perdesse no labirinto. E ela dizia, meu Teseu, não morra, venha vitorioso para minha cama. Os cretenses estavam apavorados e amedrontados pela fama e crueldade da fera. E Teseu entra no labirinto desenrolando o fio para não perder o caminho de volta.

Aberrações existiam na antiguidade e algumas persistem hoje até com torcida favorável a morte. O Asno, diferentemente do Minotauro, se alimenta de sutilidades, frivolidades, leite condensado, ri como anta quando seu objetivo não se torna concreto. E hoje, há aqueles que buscam prazer na beira do barranco, na cabrita ou na mula. Por exemplo, os brasileiros estão sendo governados pelo Asno, que é fruto de uma relação humana.

Quando se faz nascer um monstro, o problema é encontrar a maneira de acabar com ele, e assim vai acontecer com o Asno bípede. Tal qual Zeus, o Asno também se casou três vezes e se diz religioso apegado à moral da família. Outra vez está o machismo num linguajar “asniano” O asno, igualmente, impõe medo, dúvidas e incertezas, maltrata a educação, educadores e dá as costas para a ciência, mas ele vive no labirinto do Planalto e é cria tanto de militares, quanto da classe despossuída de cérebro e razão. Esta classe grita “mito”, “mito”, enquanto outros procuram uma fórmula de parar com suas atrocidades ao desmascará-lo.

Enquanto Teseu avançava pelo labirinto com o novelo, Ariane torcia, tremia, suava e aguardava a vitória de seu querido. O episódio do Asno se passa no Brasil. Ele se alimenta de gordas contas bancárias, de rachadinhas, de munições ultrapassadas, de mentiras, dizia que usava o dinheiro do auxílio-moradia para comer gente. É verdade, num simples ato de caneta azul ele comeu a classe trabalhadora, acabou com o Ministério do Trabalho e enfiou uma Anta, capaz de ver Jesus na goiabeira, em seu governo.

Mas hoje, um pouco desgastado por tantas palavras sem nexo, anda isolado em seu curral porque o gado já desconfia, ele perde forças como se fosse uma onda que se apequena e morre na praia. Ele ainda relincha, mas já não agrada a boiada que por hora ignora o berrante. Contra ele existe uma oposição, mas ainda incapaz de virar a mesa porque a caça está apenas no início. O Minotauro morreu, mas o Asno ainda respira. Não há Teseu para derrotá-lo, é preciso união tanto da direita quanto da esquerda.

Do Asno vem asneiras, a vontade esculpida no desgosto, ou gosto, de odiar quem pensa diferente. A hora dele se aproxima com precaução. Será preciso varrer, limpar e lavar com cândida ultraconcentrada as entradas e saídas dos currais onde o gado pastou, bateu palmas, gritou contra a corrupção e expôs a saliva da raiva que descia de suas bocas. Quando o Asno se for, será possível desiludir os invasores que comem parte da floresta, puni-los, devolver o direito aos índios e respeitar as diferenças. No episódio de Minos, Pasífae e Ulisses, está presente a traição e o machismo. Na história do Asno não é diferente, ele traiu os eleitores, o povo, diminui e humilha quando não tem argumentos, ataca, ameaça, mente, depois chama alguém para escrever carta porque nem isso ele sabe fazer.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.