No artigo sobre a maior chacina na história do Rio de Janeiro, que matou 28 pessoas, o ensaísta e economista Albertino Ribeiro destaca o preconceito com os negros, que formam a maioria absoluta dos moradores da favela de Jacarezinho. A tragédia reflete o racismo estrutural no Brasil e a violência policial comum contra os negros, pobres e marginalizados.

“Uma sociedade racista como a brasileira não enxerga o negro – principalmente o negro favelado – como alguém que tem valor. Ao negar-lhes esse reconhecimento, esses brasileiros ficam vulneráveis ao julgamento precipitado como o do vice-presidente Hamilton Mourão que, mesmo antes de qualquer perícia ou investigação, sentenciou: ‘eram todos bandidos’”, afirma.

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“Essa lógica perversa não é novidade. Na Alemanha nazista, o governo fazia propagandas que comparavam judeus e comunistas a ratos, pois sabiam que isso ajudava a criar no imaginário daquela sociedade a ideia de que os inimigos do regime mereciam ser agredidos e até mortos”, explica.

Confira o artigo:

“Jacarezinho: Elza Soares e Clara dos Anjos denunciam o Brasil escravocrata

(*) Albertino Ribeiro

“A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Esses versos cantados pela bela voz de Elza Soares dá o tom e desnuda a realidade de um Estado brasileiro que se acha acima de tudo e de todos, inclusive, da lei.

Na semana passada, a polícia carioca realizou operação ilegal na favela do Jacarezinho. A favela, segundo estimativas da Prefeitura do Rio, possui 37 mil moradores; bem maior que a cidade de Chapadão do Sul (MS) que possui 25.865 habitantes segundo o IBGE. No entanto, ao contrário de Chapadão – que é uma cidade de brancos – a favela do Jacarezinho é considerada a mais negra do Rio de Janeiro.

“Fácil de entender, pois no período escravagista, a região foi refúgio para muitos escravos fugitivos; um verdadeiro quilombo dentro da cidade do Rio de Janeiro. Depois de assinada a Lei Áurea, o lugar continuou a receber muitos negros, mas o motivo da migração passou a ser outro; a favela tornou-se destino porque os negros foram abandonados à própria sorte.

Segundo antigos moradores que conhecem a história do lugar, os negros que foram para o Jacarezinho tinham a cautela de construir suas casas nos lugares mais altos da favela. Dessa forma, ficavam mais protegidos da polícia do Rio de Janeiro que desde a sua origem – criada para proteger a família real –  teve o negro como seu principal alvo. “Neguinho do morro”! Lembra disso?

Parece que existe uma memória racista enraizada na corporação fluminense que sempre foi potencializada pelas injustiças sociais do nosso país. Após a abolição de 13 de maio de 1888, os negros não receberam qualquer indenização do Estado escravocrata e dificilmente conseguiam trabalho por causa do preconceito. Nesse mesmo período, foram criadas leis que permitiam a polícia prender pessoas que não tivessem trabalho. Destarte, eram justamente os negros que se encaixavam no perfil procurado pelos policiais.

A chacina

Com objetivo de desmontar um esquema criminoso que aliciava menores de idade para o tráfico, a Polícia Civil entrou na comunidade sem qualquer prudência ou senso de proteção a vida dos civis. Segundo amigos e familiares dos mortos, houve uma execução e muitos dos que foram mortos eram trabalhadores.

Dentre os trabalhadores estava o moto-taxista Marlon Santana. Segundo parentes, Marlon mandou mensagem de voz para mãe pedindo para que orasse por ele; depois não ligou mais.  “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, senhor Deus! Se é loucura ou verdade tanto horror perante os céus” (Castro Alves).

De fato, dentre os moradores mortos havia pessoas com passagem pela polícia, mas isso não justifica tamanha carnificina! A maioria estava desarmada e rendida. Ademais, não cabe a polícia decidir quem deve viver ou morrer.

Antes de prosseguir, é importante lamentar a morte do policial civil André Frias. Ao sair do carro para retirar uma barricada colocada pelos criminosos, o agente foi atingido e infelizmente morreu no local. Certamente, sua morte fez explodir o ódio latente dos seus companheiros como fagulha num pavio de pólvora. Vítima dos criminosos, Frias também foi vítima da desinteligência da cúpula de segurança pública do estado que tem como padrão autorizar operações desastradas e malsucedidas.

Uma sociedade racista como a brasileira não enxerga o negro – principalmente o negro favelado – como alguém que tem valor. Ao negar-lhes esse reconhecimento, esses brasileiros ficam vulneráveis ao julgamento precipitado como o do vice-presidente Hamilton Mourão que, mesmo antes de qualquer perícia ou investigação, sentenciou: “eram todos bandidos”.

Essa lógica perversa não é novidade. Na Alemanha nazista, o governo fazia propagandas que comparavam judeus e comunistas a ratos, pois sabiam que isso ajudava a criar no imaginário daquela sociedade a ideia de que os inimigos do regime mereciam ser agredidos e até mortos.

(*) Albertino Ribeiro é economista, ensaísta e analista de informações socioeconômicas do IBGE

Quanto vale a carne negra no Brasil da necropolítica?

O eterno Lima Barreto – escritor negro que completa 130 anos agora em maio – criou a personagem Clara dos Anjos. Clara, que também era negra, poderia fazer um dueto com Elza Soares, acrescentando ao último verso da música as últimas palavras de Clara:

“Mãe! Mãe!

– Que é minha filha?

– Não somos nada nessa vida!”