Braga Neto e Bolsonaro ameaçam usar o Exército e elevam insegurança diante do frágil sistema democrático brasileiro (Foto: Arquivo)

No artigo especial para O Jacaré, o economista Albertino Ribeiro fala sobre as ameaças feitas pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e integrantes do Governo de usar o Exército para “cumprir a vontade popular”. No ensaio, ele propõe um paralelo com a Revolução dos Cravos, em que os militares portugueses lideraram insurreição e acabaram com ditadura de 48 anos em Portugal.

“É impressionante a falta de escrúpulos dessa gente, pois em plena pandemia não demonstram qualquer alteridade ou empatia; não se colocam no lugar dos milhares de brasileiros que perderam familiares e amigos. Entretanto, insistem em fazer ameaças que trazem sobre a sociedade um espectro de medo e angústia”, lamenta.

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“Que os cravos da revolução de 25 de abril de 1974 sirvam de inspiração à turma verde oliva tupiniquim, pois, até o momento, a flor que mais combina com o exército do capitão ‘caverna’ é a flor de narciso, símbolo da vaidade e do egoísmo”, conclui.

Confira o artigo na íntegra:

“A revolução dos cravos e o exército do capitão narciso

(*) Albertino Ribeiro

Porque o meu exército não vai obrigar ninguém a ficar em casa” – Jair Bolsonaro.

Na última segunda-feira (19), o Governo federal fez questão de comemorar o Dia do Exército, uma data que sempre foi comemorada internamente pela instituição que o capitão rejeitado insiste em cooptar para si (parece que está conseguindo). Nesse mesmo dia, Luiz Eduardo Ramos –  o general que ocupa a Casa Civil –  publicou uma mensagem no twitter com ares de ameaça.

 “Servimos juntos a uma instituição que hoje possui como comandante supremo Jair Bolsonaro que sempre poderá contar com o seu exército”.

E não para por aí; no dia seguinte, o ministro da Defesa, general Walter Braga Neto, completou a sequência de ameaças em seu discurso de posse ao dizer que o Exército estaria pronto para garantir a decisão das urnas.

“É preciso respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pelos brasileiros. A sociedade atenta a essas ações, tenha a certeza que suas Forças Armadas estão prontas a servir aos interesses nacionais”

É impressionante a falta de escrúpulos dessa gente, pois em plena pandemia não demonstram qualquer alteridade ou empatia; não se colocam no lugar dos milhares de brasileiros que perderam familiares e amigos. Entretanto, insistem em fazer ameaças que trazem sobre a sociedade um espectro de medo e angústia.

O bom exemplo do capitão dos cravos.

Ontem, 25 de abril, o povo português comemora 47 anos da Revolução dos Cravos, levante que libertou o país de uma ditadura de 48 anos. O líder foi o militar José Salgueiro Maia, um capitão do exército (vejam só!). Contudo, diferente do nosso “captain, my captain”, o herói responsável pelo levante tem um lugar de honra no exército d’além-mar.

A revolução de abril ocorrida em 1974 foi batizada de Revolução dos Cravos porque a população, após a deposição do governo fascista, saiu às ruas e distribuiu cravos vermelhos aos soldados do exército. Estes colocaram a simbólica flor no cano de suas armas, um ato que entraria para a história.

Não foi nada combinado, mas é possível que tenha ocorrido ali uma espécie de sincronicidade, termo criado pelo psicólogo suíço Carl Jung para explicar conexões que não seriam mera coincidência. Sim, caro leitor, ao juntar de forma espontânea símbolos tão diferentes – armas e flores – uma mensagem estava sendo proclamada: a criação de um governo harmônico para o povo lusitano (terra da luz), combinando muito bem com o significado do cravo, sinônimo de boa sorte e bem-aventurança.

Ao derrubarem o ditador Marcello Caetano, sucessor do fascista Antônio Oliveira Salazar, os militares trabalharam na realização das eleições diretas que ocorreram um ano depois da revolução. Assim sendo, agiram de maneira humilde e patriótica, compreendendo o seu verdadeiro papel no cenário democrático e republicano do seu país. Enquanto isso, o líder português deposto fugia para o Brasil e foi recebido de braços abertos pela ditadura militar brasileira.

Quanto aos militares da nossa terra, a intenção dos revoltosos quando promoveram o golpe de 1964 – embora o contexto não seja passível de comparação – seria também convocar novas eleições, retornando em seguida à caserna.

Entretanto, não foram fortes o bastante e acabaram seduzidos pelo desejo de poder. Dessa forma, o general Castelo Branco e a cúpula golpista decidiram governar o país por 21 longos anos de chumbo. Segundo eles, o Brasil vivia sob uma ameaça comunista. Alguma semelhança com o presente?

(*) Albertino Ribeiro é economista, ensaísta e analista de informações socioeconômicas do IBGE

Parece uma questão de DNA; grande parte do exército brasileiro nunca se contentou em desempenhar um papel secundário na política e, como acontece ainda hoje, sempre odiaram “os casacas” (apelido antigo atribuído aos políticos). O golpe de 15 novembro de 1889 foi o primeiro sintoma claro da megalomania da caserna brasileira e encontra-se, mais do que nunca, presente no atual governo.

Que os cravos da revolução de 25 de abril de 1974 sirvam de inspiração à turma verde oliva tupiniquim, pois, até o momento, a flor que mais combina com o exército do capitão “caverna” é a flor de narciso, símbolo da vaidade e do egoísmo.