No artigo “A peste o e impeachment”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro, de Paris, na França, tenta decifrar o atual momento da política ao fazer paralelo com a tragédia grega de Édipo, que matou o pai e casou-se com a mãe. “Na trágica passagem de Édipo que descobriu a grande besteira que havia feito com seu pai, depois com a mãe, ele oferece o impeachment a si mesmo, considerando-se maldito, amaldiçoado. Nem foi preciso passar pela razão alheia para expulsá-lo do clã familiar. O fato é citado por Aristóteles na Poética”, pontua.

“Mudamos de palco. No Brasil também tem um símbolo como se fosse uma esfinge, ela possui uma espada, venda nos olhos e uma balança, uma bela rapariga”, sobre a deusa da Justiça. “Mas no Brasil, aqueles que se dizem  representantes da justiça não fazem jus ao símbolo. Thêmis poderia desmoronar como a esfinge de Tebas, mas isso não acontece porque ela não vê o que ocorre neste imenso País tupiniquim e não lança enigma. O enigma é saber como se coloca no poder um tosco”, conclui.

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“Se os representantes do poder judiciário a olhassem nos olhos, talvez virassem estátua da mesma forma como se estivessem encarando a Medusa, por vergonha, desonra. É por isso que os juízes, digam-se “deuses” sem Olimpo, aplicam penas absurdas a quem rouba um shampoo, um chocolate, um penico. Ou ainda quando a polícia coloca porcaria na mochila de algum dependente químico que ousa participar de um protesto. A pena contra um fazendeiro que manda matar índios, ecologistas, religiosas, gente engajada pela causa da mulher lésbica, é ignóbil”, anota.

“Em Thêmis, a espada e a  balança devem equilibrar a justiça, ser imparcial. Mas há juízes que, se pudessem, empunhariam o chicote, mesmo com salário altíssimo, uma capa preta pra voar e a arrogância quando interceptado sem habilitação e em estado de embriaguez, pra estalar no lombo da plebe, dos proletários, de gente simples que entra num tribunal usando chinelo de dedos, não em sinal de protesto, mas por pobreza mesmo. Quem  paga a multa é o agente que ousou dizer que juiz estava errado. Ora, juiz é “deus”, não sabemos do quê, mas ele se considera”, relata.

“O Brasil tem hoje um embuste recheado de folclore no Planalto. Édipo se foi, o Olimpo grego não existe mais. Thêmis, por mais digna que seja, não basta, não grita, não reage. A pandemia brasileira é a desgraça, a peste está fora de controle porque não há governo. O presidente ja devia ter sido deposto”, defende.

A peste e o impeachment

Mário Pinheiro, da França (*)

Na mitologia grega, Sófocles criou a tragédia e a figura interessante da esfinge na entrada da cidade. Ela possuía cabeça de mulher, corpo de leão, rabo de serpente, asas de águia, unhas de leoa e lançava o enigma aos cidadãos que entravam em Tebas. Aos que davam resposta errada, ela os devorava.

Édipo é o personagem, ator principal da predileção de Delfos. Quando Laios e Jocasta se casaram, foi dito pelo oráculo que o filho mataria o pai e se casaria com a mãe. Por medo que isto ocorresse, quando o menino nasceu, seu pai deu o recém-nascido a um empregado para que o matasse.

Distante de Tebas, o garoto teve o calcanhar perfurado e dependurado numa árvore para que morresse de fome e pelos animais selvagens. Mas um pastor ouvira o choro da criança, liberou-o e deu a um casal que o adotou. Quando atingiu a maioridade, em sua viagem para Corinto, Édipo consultou o adivinhador cego, Tirésias, pra descobrir quem eram seus pais, mas por medo da verdade, a mentira tomou posse e assombrava seus dias. E, de fato, Laios morre acidentalmente pelas mãos de seu filho que até o momento desconhecia quem era o defunto.

Enquanto isso, a esfinge devorava os passantes ignorantes que odiavam livro. A peste estava disseminada na entrada da cidade, parecia Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, um bando de fogueteiros vestidos de verde e amarelo saudando a morte, a foice, o sofrimento, gritando “mito”, “mito”.

A família real tinha medo, a rainha viúva e a desordem tomavam conta. Creonte, irmão da rainha Jocasta, pôs a mão e a coroa da irmã em jogo. Aquele que acertasse o enigma lançado pela esfinge se casaria com ela. Na entrada da cidade de Tebas, Édipo ouviu o enigma lançado pela esfinge e em seguida o decifrou. A maldita desabou, destruiu-se. E nisto Jocasta tinha achado seu novo rei e marido, Édipo.

A rainha estava nua e vestiu-se da roupa de sua própria natureza, aquela que saiu de seu ventre. Desta união nascem quatro filhos, dois garotos e duas meninas que vieram de uma fraquejada. O novo rei estaria no início da peste e da catástrofe, ele não foi apresentado, nem escolhido, estava predestinado pelo oráculo de Delfos. E Édipo se torna objeto de estudo da psicanálise de Sigmund Freud.

No caso de Sófocles, da tragédia grega, o inesperado é o que o espírito não pode acolher nem fugir. A sombra da verdade acabara de entrar no palácio pra fazer parte de sua alcova. A escolha do pior tipo de pessoa no meio da tragédia é como se fosse o bálsamo para a dor. A dor pode servir de motor de propulsão para ver a realidade. Na trágica passagem de Édipo que descobriu a grande besteira que havia feito com seu pai, depois com a mãe, ele oferece o impeachment a si mesmo, considerando-se maldito, amaldiçoado. Nem foi preciso passar pela razão alheia para expulsá-lo do clã familiar. O fato é citado por Aristóteles na Poética.

Mudamos de palco. No Brasil também tem um símbolo como se fosse uma esfinge, ela possui uma espada, venda nos olhos e uma balança, uma bela rapariga. A deusa Thêmis, filha de Urano e de Gaia, pertencia ao grupo dos Titãs, mas, para se distanciar da desgraça de seus irmãos, ela que sempre foi honrada e adorada, foi escolhida para ser a mulher de Zeus. Mas quando Hera se torna esposa do deus dos deuses, Thêmis assume o papel de conselheira. Ela mantinha a ordem no Olimpo.

Mas no Brasil, aqueles que se dizem  representantes da justiça não fazem jus ao símbolo. Thêmis poderia desmoronar como a esfinge de Tebas, mas isso não acontece porque ela não vê o que ocorre neste imenso País tupiniquim e não lança enigma. O enigma é saber como se coloca no poder um tosco.

Se os representantes do poder judiciário a olhassem nos olhos, talvez virassem estátua da mesma forma como se estivessem encarando a Medusa, por vergonha, desonra. É por isso que os juízes, digam-se “deuses” sem Olimpo, aplicam penas absurdas a quem rouba um shampoo, um chocolate, um penico. Ou ainda quando a polícia coloca porcaria na mochila de algum dependente químico que ousa participar de um protesto. A pena contra um fazendeiro que manda matar índios, ecologistas, religiosas, gente engajada pela causa da mulher lésbica, é ignóbil.

Em Thêmis, a espada e a  balança devem equilibrar a justiça, ser imparcial. Mas há juízes que, se pudessem, empunhariam o chicote, mesmo com salário altíssimo, uma capa preta pra voar e a arrogância quando interceptado sem habilitação e em estado de embriaguez, pra estalar no lombo da plebe, dos proletários, de gente simples que entra num tribunal usando chinelo de dedos, não em sinal de protesto, mas por pobreza mesmo. Quem  paga a multa é o agente que ousou dizer que juiz estava errado. Ora, juiz é “deus”, não sabemos do quê, mas ele se considera.

Não nos esqueçamos de uma juíza que disse: “não tenho provas contra  o senhor, mas vou condená-lo porque a jurisprudência me permite”. Desconheço esta justiça. A tragédia de Sófocles foi interpretada no palco, a do Brasil se vive na seletividade judicial, nas ruas, nas mesas, na falta de comida, de carne, óleo, feijão, arroz. De Queiroz já não se fala, da Michele resta o cheque incompreensível e, do senador, as rachadihas, a milícia e o ranho na bandeira.

Se o autoritarismo está de volta, a prova é que o presidente está rodeado de militares sabujos. Mas isso tudo é autoproteção, eles servem de escudo para suas maldades. E a maldade, a violência e a popularidade das armas se tornam banais; o pobre brasileiro acaba mascando a novela como se fosse seu real remédio para a falta de um livro. O impeachment é para impedir que a peste e a ignorância tomem conta dos lares. 

Pois bem, nos antros da política brasileira acontece de tudo, há quem se transformou em ideia, em matéria de estudo como Platão, e há outras  figuras como Édipo, Hades, Sísifo que se transformaram em desgraça. E por falta de raciocínio, de educação ou de cobrança popular, o maldito que enganou e cometeu crimes diversos acaba por sorrir com todos os dentes como um cão vira-lata.

No caso brasileiro, essa tragédia foi criada por pessoas sem escrúpulos, por um grupo (togados, políticos, com supremo e tudo, profissionais de comunicação e de ilusão, donos de emissoras de tv, pregadores da moral inexistente, pastores de plantão), o resultado pode ser massacrante por se tratar de anestésico. Anestesia tem efeito limitado. Passado o efeito, a dor aumenta, o empregado sem recurso mendiga no trabalho informal; só então é possível ver a realidade.

O impeachment é uma solução, mas os parasitas engravatados foram comprados para barrar a ação. Sim, comprados. A promiscuidade domina como se cada deputado federal rodasse bolsa e mostrasse o pior de si, o preço estampado na fuça. O Brasil tem hoje um embuste recheado de folclore no Planalto. Édipo se foi, o Olimpo grego não existe mais. Thêmis, por mais digna que seja, não basta, não grita, não reage. A pandemia brasileira é a desgraça, a peste está fora de controle porque não há governo. O presidente ja devia ter sido deposto.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.