Mario Doraci, de Paris, França

Em artigo especial para O Jacaré, o jornalista, professor e filósofo Mario Doraci fala sobre as nuances e subterfúgios do mal ao longo da história da humanidade. Ele faz um retrospecto desde Nero e Calígula até os dias atuais, na política brasileira.

“Sobre o mal, o assunto não é novo. Ele se renova, como se fosse primavera, veste novas roupas, floreia discursos, se esconde na pele de quem se diz do bem e usa a religião como se fosse o melhor antídoto para curar o mal, mas é um escudo”, afirma.

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“Mas o mal não se cura com o mal, ele vem recheado de astúcia, nuances e subterfúgios, ou seja, mentira, violência, sarcasmo, influência política e cinismo”, pontua. Ele também faz relação com os torturadores do regime militar brasileiro, que agiam durante a semana e iam à igreja aos domingos.

“Em nome de Deus matam como se a morte fosse um remédio para dividir o espaço entre o sopro da vida e o suspiro do fim, da partida. Enfim, há governantes que dividem o povo, que provocam, que sabem a ladainha dos palavrões na ponta da língua. Adorar torturador, ser fotografado com armas de guerra, ameaçar matar uns trinta mil, deformar a educação, mentir, espalhar o ódio, dividir em vez de unir, são atributos de quem odeia a bem”, analisa.

“Nuances e subterfúgios do mal

Plotino, filósofo seguidor de Platão, que viveu no terceiro século de nossa era, escreveu suas teses sobre metafísica e vários outros assuntos como as virtudes, o suicídio e a origem do mal. Ele é um dos pilares do existencialismo de Albert Camus. Sobre o mal, o assunto não é novo. Ele se renova, como se fosse primavera, veste novas roupas, floreia discursos, se esconde na pele de quem se diz do bem e usa a religião como se fosse o melhor antídoto para curar o mal, mas é um escudo.

Neste caso a religião se torna ópio do povo, ilude, amacia a dor, acalenta a alma, aliena, cega. Porque aquele que a usa, apela ao sentimentalismo piedoso, ao perdão. Nero agiu com muita maldade e ria como se fosse anta desvairada enquanto Roma se perdia em chamas.

Calígula, além de malígno, quis dar ao próprio cavalo o título de embaixador, mas ele é um caso à parte por ter assistido o assassinato dos pais, ser estuprado na juventude, vivenciado o horror. Ele é somente o resultado, a consequência das maldades que sofreu, ele é fruto podre do alicerce do mal. Naquele tempo não havia leite condensado como na atualidade, nem chocolateria kopenhagen e muito menos rachadinha,  mas o cavalo “impetuoso”, de Calígula, tinha escravos, bebia vinho em taça de ouro, tinha um manto de púrpuras, um colar de pedras preciosas. A milícia existia com outro nome, maldade.

Mas o mal não se cura com o mal, ele vem recheado de astúcia, nuances e subterfúgios, ou seja, mentira, violência, sarcasmo, influência política e cinismo. César Borgia, príncipe de Milão, era fiho do papa Alexandre VII, aquele da bula inter coetera. Era o tempo de Maquiavel, conselheiro do príncipe. Mas Maquiavel não era mau, era um homem, mas foi o antro mais sagrado da Igreja Católica que o estiguimatizou como maquiavélico, mas ninguém fala do incesto deste príncipe com sua irmã Lucrécia. Tudo estava dourado de sexo pelas jovens gazelas, donzelas púberas, aliciadas.

Por Lucrécia, ele sempre voltava de suas carnificinas com o rabo abanando entre as pernas à procura de deleite e prazer. As questões de moral religiosa era para os outros, os representantes da santa madre já davam exemplo de hipocrisia. A verdade pertencia ao clero, os cientistas dançavam conforme a música sacra e liam na cartilha romana. Um falso passo, mesmo que fosse verdade, bastava pra ser queimado vivo. O filósofo ex-dominicano Giordano Bruno, por exemplo, foi uma vítima da inverdade, da terra plana.

Por onde e quando a mente detecta que algo é mau ou bom? Por qual faculdade dos sentidos aprendemos e o definimos? Em geral, como afirma Plotino, ele aparece na ausência do bem. Sócrates também trabalhou sobre o mal em sua maiêutica. Spinoza garante que o mal não existe em si, e que mal e bem são maneiras de pensar. Camus afirma que o mal que está no mundo vem sempre da ignorância, e a boa vontade também pode causar danos se a maldade não for esclarecida.

De Platão a Arendt o mal assombra a realidade e amedronta suas vítimas. Arendt encontrou refúgio nos EUA ao deixar a Alemanha nazista. Ela escreveu “as origens do totalitarismo” para entender o que se passou com a pátria ariana de Hitler. Segundo ela, são crimes que os homens não podem punir nem perdoar. E que o possível se tornou no impossível mal absoluto (…) inexplicável, assim como o apetite pelo poder. Os atos eram monstruosos”. O problema mais grave é o negacionismo da ignorância que compactua com a violência.  

É seu contrário, seu paradoxo, mas que ela é a natureza do bem. O leitor que odeia o livro vai dizer, mas era outro tempo. Com certeza, mas hoje também é outro tempo, a regressão está presente e as pessoas fazem de conta, eles dão as costas e ligam a televisão. O cidadão hoje tem uma facilidade enorme em tornar banal o que é chocante, violento, desrespeitoso, mortífero, maldoso.

Em nome de Deus matam como se a morte fosse um remédio para dividir o espaço entre o sopro da vida e o suspiro do fim, da partida. Enfim, há governantes que dividem o povo, que provocam, que sabem a ladainha dos palavrões na ponta da língua. Adorar torturador, ser fotografado com armas de guerra, ameaçar matar uns trinta mil, deformar a educação, mentir, espalhar o ódio, dividir em vez de unir, são atributos de quem odeia a bem.

Para decifrar o ódio, é melhor ungir a inteligência que é o primeiro grande ato do bem, segundo Plotino. Mas se a inteligência é deixada de lado para acreditar em toda espécie de mentira, sofismas e armações perpetradas pela classe dominante, a saída não é deixar o mal tomar assento e se alastrar por suas milícias. Maquiavel era republicano e possuía seu próprio exército, mas inferior ao do papa e dos senhores feudais. A violência estava em todas as esferas sociais, ela é o arquétipo do mal. Kant sustenta que todos temos uma tendência ao mal. É a crueldade que visita nossa mente para decifrar o maligno.

Um pai de família, músico, negro, Evaldo Rosa dos Santos recebeu oitenta tiros gratuitamente diante da esposa e dos filhos, os atiradores, soldados do exército; a menina Ágatha, de oito anos, leva um tiro de fusil na cabeça dentro de uma kombi voltando para casa, morre, o autor, um policial. “Bandido bom é bandido morto”, diziam eles, mas quando o bandido é político, magistrado, banqueiro, soldado, policial ou empresário, o vilão não é o favelado que trabalha, mas o arrogante que muda as leis, vende armas importadas ilegalmente, suborna, trafica e segue protegido pelo corporativismo do Estado.

O tinhoso está presente nas ações de governantes, na polícia que ultraja cenas de crime, que atira em suspeitos; que desova o corpo de menores, de Josés e Amarildos em rios, pedreiras e ribanceiras, por isso a violência se espalha como chuva de verão, e enche de alegria os mercenários, traficantes e a indústria de armas. Se para o advogado que milita e defende um criminoso, a falha está nos detalhes de um processo, para um governante descompromissado com a realidade, o diabo domina o detalhe, o bolso de cada parlamentar zoiudo ardente em aumentar seu capital, sua fazenda, sua loja de chocolates, aquele que aceita quantias desonradas para votar contra o impeachment de um ser inominável, é o autoritarismo às avessas.

O autoritarismo é como a centopéia, se o povo cede e age como besouro vira-bosta, a praga se multiplica e dá cria a outros monstros e serpentes com outras patas e botas. A banalidade do mal torna o mau companheiro de jornada, um vazio de pensamento e raciocínio. Durante a ditadura brasileira o mal estava presente e dominava os ritos de tortura mais infames perpetrados pelas instituições do Estado como o Dops, o Doi-Codi, a Marinha, a Oban e o CCC (comando de caça aos comunistas).

No Dops de São Paulo, por exemplo, o delegado Sergio Fleury e sua turma administravam a tortura de forma vil, insana, covarde, e riam como se fosse o próprio anjo do mal governando suas ações. No Doi-Codi era Ustra o capeta do exército que abusava da violência e de seu uniforme. A vala comum do cemitério de Perus foi reaberta por decisão corajosa da ex-prefeita Luiza Erundina, para expor a crueldade e covardia do regime militar que agia nas sombras.

Havia um delegado no Dops, Alcides Cintra, que se dizia católico fervoroso ligado à Opus Dei. Durante a semana maltratava os presos, estudantes e mulheres, de noite dava sumiço nos corpos que não suportaram a tortura. Aos domingos bem de manhãzinha, ocupava o primeiro banco do Mosteiro São Bento. Ele havia sido denominado para enterrar clandestinamente, na calada da noite, aqueles que morriam nas sessões de pau-de-arara, na cadeira do dragão, na porrada, na paulada e outras sevícias. Às vezes ele mesmo arrancava os dentes e os dedos do defunto para dificultar a identificação. A alma que aspira o bem, rejubila em paz, milita contra quem trama a maldade. O bem prevalece sempre sobre o mal porque a obra macabra não tem raizes no amor.

Em 30 de abril de 1981, um Puma GTE guiado por dois oficiais do exército se dirigia para o espetáculo do dia do trabalhador no centro do Rio. O objetivo do exército era perpetrar um atentado terrorista e culpar a esquerda. Mas a bomba preparada pelos especialistas explodiu no colo do vacilão. O Serviço nacional de informação (SNI) quis colocar a esquerda no banco dos réus, mas a maldade estava descoberta, nua de tanta ingenuidade, impossível de salvar a pele de alguns graúdos do governo militar.

O que eles desejavam mesmo era uma carnificina, muitas mortes e sangue escorrendo. Os artífices do mal morrem e deixam más lembranças, já os que possuem bom coração podem ser ingênuos ao fazer má escolha na hora de escolher, mas a essência do bem os trazem sempre de volta arrependidos como ovelha desvirtuada.  

Mario Doraci é de MS e se formou em jornalismo pela UFMS

(*) Mário Doraci é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.