Operação Motor de Lama: filho de governador substituiu ex-secretário-adjunto do fisco no esquema de corrupção no Detran (Foto: Midiamax)

O empresário Antônio Celso Cortez, dono de empresas de informática com contratos milionários com o Governo do Estado e réu na Operação Lama Asfáltica, repassou R$ 1,830 milhão em três meses ao corretor de gado José Ricardo Guitti Guímaro, o Polaco. Essa é uma das revelações da Operação Motor de Lama, denominação da 7ª fase da Lama Asfáltica, deflagrada ontem (24), e que apura o desvio e lavagem de dinheiro no Detran (Departamento Estadual de Trânsito).

A Polícia Federal suspeita que o advogado Rodrigo Souza e Silva, filho do governador Reinaldo Azambuja (PSDB), substituiu o ex-secretário-adjunto de Fazenda, André Cance, no esquema de pagamento de propina no Detran. O percentual repassado a título de vantagens indevidas, para manter o esquema, chega a 10% do valor pago pelo Detran a Ice Cartões Especiais.

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“O derradeiro tópico da representação expõe os indícios de envolvimento de RODRIGO SILVA, filho do Governador eleito do Estado de Mato Grosso do Sul, no processo de transição e continuidade dos repasses da ICE CARTÕES, em possível substituição ao anterior arrecadador ANDRÉ CANCE”, destacou o juiz Bruno Cezar da Cunha Teixeira, da 3ª Vara Federal de Campo Grande, no despacho de 100 páginas em que decretou a prisão preventiva de quatro empresários, determinou o bloqueio de R$ 40 milhões e o cumprimento de 11 mandados de busca e apreensão.

“Detalhe relevante que não pode deixar de ser observado é que ao passo que os repasses para POLACO se intensificaram, a partir de 02/2016, as transferências em benefício do núcleo familiar de ANDRÉ LUIZ CANCE foram cessadas, indicando uma possível substituição no encargo de arrecadação das vantagens indevidas”, destacou o magistrado.

Conforme a Operação Motor de Lama, Polaco recebeu R$ 1,930 milhão de Antônio Celso Cortez, dono da PSG Tecnologia Apicada e Mil Tec. O empresário é réu na Lama Asfáltica e vem alegando demência para se livrar das acusações, mas, aparentemente, mantém a “lucidez” para renovar os contratos com o Governo do Estado e até fazer doações para candidatos do PSDB nas eleições deste ano.

Inicialmente, em 24 de setembro de 2015, o empresário repassou R$ 100 mil a Polaco. No ano seguinte, de entre os meses de fevereiro e maio de 2016, ele depositou mais R$ 1,830 milhão ao corretor de gado.

De acordo com a PF, a propina paga pela Ice Cartões chegava a 10%, sendo 2% referente à emissão de CNH, 3% do sistema de vistoria e 7% do total repassado pelo Detran. No entanto, a corporação ainda não definiu de forma clara todos os destinatários da propina.

Polaco e Cortez também foram denunciados pelo Ministério Público Federal na Operação Vostok. O empresário é acusado de receber R$ 12,130 milhões em espécie em caixas lacradas, referente a propina destinada ao governador Reinaldo Azambuja pela JBS.

Já o corretor de gado é acusado de operar a conta da empresa Buriti Comércio de Carnes, que emitiu R$ 12,903 milhões em notas frias para “esquentar” o valor repassado ao governador. De acordo com a denúncia, ele pegava o dinheiro e repassava a Rodrigo, aos familiares e até a chefe de gabinete de Reinaldo.

Em 2017, logo após a explosão do escândalo da JBS, que delatou o pagamento de propina a 1,7 mil políticos, inclusive Reinaldo, Polaco passou a fazer ameaças. Para evitar a sua delação premiada, Rodrigo teria negociado pagar R$ 300 mil por mês em propina.

No entanto, conforme denúncia feita pelo Ministério Público Estadual e aceita pelo Tribunal de Justiça, o filho de Reinaldo contratou uma quadrilha para roubar a propina. No entanto, o Batalhão de Choque recuperou os produtos do suposto roubo, o carro e o dinheiro, e os integrantes confessaram.

Luiz Carlos Vareiro, o Véio, chegou a falar, em depoimento, que foi contratado por Rodrigo para matara Polaco. Só que o corretor teve sorte em duas ocasiões. Na primeira, ele veio junto com o filho e o grupo desistiu para preservar a vida da criança. Na segunda, ele enviou o comerciante Ademir Catafesta, que acabou sendo roubado.

Rodrigo nega as acusações, mas a denúncia por roubo foi aceita pela 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça em setembro do ano passado. Desde então o processo estão nas mãos da juíza May Melke Amaral Siravegna, da 4ª Vara Criminal, que tem enfrentado dificuldade para notificar o filho de Reinaldo para dar andamento à ação penal.

Operação Motor de Lama apreendeu quase meio milhão de reais em dinheiro (Foto: Divulgação)

Cortez ainda é réu na ação em que a JBS teria pago R$ 25 milhões em propina ao ex-governador André Puccinelli (MDB). Ele chegou a ter as contas bloqueadas em ação por improbidade, mas o sequestro foi suspenso pelo desembargador Geraldo de Almeida Santiago, do Tribunal de Justiça.

Esta é a segunda operação contra corrupção no Detran na gestão de Reinaldo. A primeira foi em agosto de 2017, quando a cúpula do órgão foi presa na Operação Antivírus. Gerson Claro (Progressistas) foi solto e acabou sendo eleito deputado estadual. Ele virou réu na Justiça pelo desvio de R$ 7,4 milhões no órgão e responde ações por improbidade administrativa e peculato.

Detalhe, Claro é favorito para ser eleito presidente da Assembleia Legislativa e representar 24 deputados estaduais.

Sobre a Operação Motor de Lama, o advogado Gustavo Passarelli negou que Rodrigo esteja envolvido em qualquer ilícito. Ele garantiu que o filho do tucano vai provar que não está envolvido em nenhuma irregularidade apurada na Lama Asfáltica.