No artigo “Kierkegaard e o conceito de angústia”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro fala sobre a angústia, fé e o outro lado das belas paisagens cobertas de neve. “Tudo isso muda a personalidade do cidadão que parte ao trabalho quando o cenário está escuro, passa o dia sob o céu cinza, nuvens baixas, como se a terra se confundisse com o caos sobre a cabeça, e quando retorna da labuta, a noite não faz diferença e o abraça”, diz.

“O tempo invernal trouxe a ideia de pesquisa científica ao sociólogo Emile Durkheim que desenvolveu o trabalho sobre a influência nas pessoas suicidárias. Em 1897 sua pesquisa a respeito das regras do método sociológico onde o suicídio é visto como um fato social por afetar e exercer sobre os indivíduos um poder coercitivo. Este fator também pode ser analisado e estudado pela psicologia. O suicídio está intimamente ligado a angústia”, pontua.

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“Sören Kierkegaard, o filósofo dinamarquês, trata da angústia como um tema do cotidiano. A infância do pai desse filósofo foi marcada pela fome e o frio, mas ele melhorou de vida com o comércio em Copenhague. O filho pôde então estudar filosofia e teologia”, cita.

“Em 1845 ele publicou o conceito de angústia, e esse tema causou grande interesse em Camus e Sartre, mas Kierkegaard pertencia a um credo religioso, o protestantismo, descrevia a angustiante espera do encontro com Deus pela fé, enquanto o círculo existencialista se declara incrédula, agnóstica, ateia”, comenta.

Confira o artigo na íntegra:

“Kierkegaard e o conceito de angústia

Mário Pinheiro, de Paris

Viver na Europa quando o inverno dura seis meses, onde o sol raramente mostra a cara, o ar frio é intenso, gelado, úmido, cortante, a chuva constante, as pessoas fogem do banho. A neve é linda quando desce pintando tudo e muda a cortina do cotidiano, o chão vira um sabão, é escorregadio, as crianças brincam, os adultos retornam à infância por um breve instante, mas depois tudo vira lama.

Tudo isso muda a personalidade do cidadão que parte ao trabalho quando o cenário está escuro, passa o dia sob o céu cinza, nuvens baixas, como se a terra se confundisse com o caos sobre a cabeça, e quando retorna da labuta, a noite não faz diferença e o abraça. Isso tudo é angustiante quando se repete durante dias, semanas e meses numa temperatura que rasga o pensamento. Resta-lhe a fé, a consciência de continuar o percurso.

O tempo invernal trouxe a ideia de pesquisa científica ao sociólogo Emile Durkheim que desenvolveu o trabalho sobre a influência nas pessoas suicidárias. Em 1897 sua pesquisa a respeito das regras do método sociológico onde o suicídio é visto como um fato social por afetar e exercer sobre os indivíduos um poder coercitivo. Este fator também pode ser analisado e estudado pela psicologia. O suicídio está intimamente ligado a angústia.

Sören Kierkegaard, o filósofo dinamarquês, trata da angústia como um tema do cotidiano. A infância do pai desse filósofo foi marcada pela fome e o frio, mas ele melhorou de vida com o comércio em Copenhague. O filho pôde então estudar filosofia e teologia.

Em 1845 ele publicou o conceito de angústia, e esse tema causou grande interesse em Camus e Sartre, mas Kierkegaard pertencia a um credo religioso, o protestantismo, descrevia a angustiante espera do encontro com Deus pela fé, enquanto o círculo existencialista se declara incrédula, agnóstica, ateia.

Na angústia vem a ligação com o suicídio, o desespero, a solidão, o abandono, o desprezo, a perda sentimental e a depressão. O conceito de angústia kierkegaardiano descreve uma crítica a Hegel e a Kant no sentido moral, comenta a situação de pecado e também da vaidade das ciências morais que subiram pra cabeça de pastores que mentem ao se passar por servidores, mas que se alinham ao rangue dos miseráveis de espírito.

O tempo de Kierkegaard não é tão diferente dos pastores de hoje e a angústia se estende por outros patamares, o social, o econômico e o político. Em Copenhague sempre se agiu de forma correta na política, onde deputados e ministros jamais tiveram carros de função, seguranças e cabides para enfiar funcionários fantasmas para facilitar as rachadinhas.

Para Kierkegaard, o conceito de angústia vem do pecado, da culpa de Adão e o castigo. Ele diz que Hegel volatiliza todo conceito dogmático onde se reduz a existência ao imediatismo e a um traço da lógica. A angústia é uma determinação do espírito sonhador e se aloja na psicologia. Ela vem da inocência e que se traduz em ignorância.

Na inocência o homem não está ainda determinado enquanto espírito. O homem é uma síntese de alma e de corpo, diz Kierkegaard. Mas esta síntese é inimaginável, se os dois elementos não se unem ao terceiro que é o espírito. Na verdade, Kierkegaard desenvolveu o existencialismo cristão, onde tudo tem sentido segundo as ações terrenas ligadas a Deus.  

Inocência é ignorância por estar intimamente próxima da ingenuidade. O homem não pode fugir da angústia, é um passo determinante para seu crescimento. Mas inocência não é derivado de imbecibilidade ou idiotice. A ignorância é o vazio, o nada, e, dependendo da pessoa, pode ser uma bomba-relógio, ela explode.

Esta ignorância é naturalmente incompreensível porque as informações existem. E se você comer o fruto da árvore do bem e do mal, seus olhos se abrirão, ou serás Deus ou apenas estúpido. Segundo Kierkegaard, a angústia se torna um caminho para a procura de Deus e que o pecado é a transcendência. Ele diz ainda que a mulher é mais angustiada em relação ao homem pela sensualidade que ela carrega, o que não faz dela sexo frágil, mas por causa do sexismo bíblico que tenta transformá-la em submissa.

Se Kierkegaard vivesse em nosso tempo, talvez ele compreendesse que a mulher se tornou forte, independente, corajosa e mesmo assim o feminicídio se expande porque a angústia veste o homem covarde, vencido tanto pelos ciúmes quanto pela ausência de comportamento digno de ser humano, pela ignorância e violência.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.