No artigo “Ilusão ou realidade, o eterno retorno”, o filósofo e jornalista Mário Pinheiro fala sobre a ideia do eterno retorno, apresentada por Friedrich Nietzsche como fruto de uma revelação repentina. “O filósofo alemão formula crítica radical das hipóteses genealógicas, erradas do positivismo, que admite o fato da fundação de uma moral submissa aos valores herdados de outros”, diz.

“O eterno retorno transforma o que é desgosto, faz de Zaratustra um convalescente, consolado, oferece à vontade uma regra tão rigorosa quanto a regra de Kant, é na verdade uma síntese especulativa. Ele contrapõe reação e ação, fala de Sócrates, de Cristo, do judaísmo e do cristianismo como forma de decadência”, pontua Pinheiro.

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“O Zaratustra quer alcançar novos interlocutores na filosofia, se manifesta entre os homens pra libertar a vida e permitir a inocência perdida em Adão, a ordem, o caos em contraposição dialética. Ele vai contra o pessimismo”, afirma.

“Nietzsche é trágico e envolve a tragédia grega, Dionísio, sob a influência estética de Schopenhaeur. Ele estima que os gregos resolveram o que chamamos de problema de autoridade. Na genealogia da moral, Nietzsche quis refazer a crítica da razão pura de Emanuel Kant”, diz.

Confira o artigo na íntegra:

“Ilusão ou realidade, o eterno retorno

Mário Pinheiro, de Paris

Nietzsche apresentou em 1881 a ideia do eterno retorno como fruto de uma revelação repentina. Zaratustra vem antes da genealogia da moral, uma obra em nome da importância fundamental da história em que ele despista o nihilismo e todas as máscaras modernas. O filósofo alemão formula crítica radical das hipóteses genealógicas, erradas do positivismo, que admite o fato da fundação de uma moral submissa aos valores herdados de outros.

A procura das origens não se reduz à análise de dois tipos de moral opostas: a moral dos mestres, criada pela afirmação de si, e a dos servidores, que resulta no contrário do ressentimento, da negação do outro e de seus valores. 

O eterno retorno transforma o que é desgosto, faz de Zaratustra um convalescente, consolado, oferece à vontade uma regra tão rigorosa quanto a regra de Kant, é na verdade uma síntese especulativa. Ele contrapõe reação e ação, fala de Sócrates, de Cristo, do judaísmo e do cristianismo como forma de decadência. 

O eterno retorno de Nietzsche é para transformar a vida dos homens e para tanto é necessário que a teoria seja incorporada ‘para se tornar numa grade árvore que projeta sua sombra sobre toda a humanidade futura’. O Zaratustra quer alcançar novos interlocutores na filosofia, se manifesta entre os homens pra libertar a vida e permitir a inocência perdida em Adão, a ordem, o caos em contraposição dialética. Ele vai contra o pessimismo 

Em Zaratustra, Nietzsche apresenta a possibilidade de retornar várias vezes a este mundo, visto que ele é o filósofo da ruptura com Sócrates, Platão, Wagner, as normas morais e também com o cristianismo. Ele tem o espírito livre, pensa como quer, mas tudo é fundamentado.

Ele coloca em primeiro plano o caráter desmistificador da ciência da história e desclassifica, ou retira da fila o que estava em primeiro plano, para iluminar o que estava apagado pela evidência da religião. Nietzsche é trágico e envolve a tragédia grega, Dionísio, sob a influência estética de Schopenhaeur. Ele estima que os gregos resolveram o que chamamos de problema de autoridade. Na genealogia da moral, Nietzsche quis refazer a crítica da razão pura de Emanuel Kant.

Gilles Deleuze, diz que a Kant faltou a ideia ou a forma trabalhada por Nietzsche. Kant, segundo Deleuze, cometeu uma falta por ter se baseado em outros, enquanto Nietzsche confia em si mesmo, pensa diferente, rivaliza o kantismo, concebe e realiza a verdadeira crítica.

Nietzsche revira, mexe, incomoda, dinamita, aponta com o dedo as falhas da formação contidas na tradição e herança religiosa, reflete lucidez e embriaguez de seu pensamento. Ele critica Hegel quando fala de ‘mestres’ e ‘escravos’ em que os oprimidos descobrem, na condição de opressão, as mesmas fontes para a libertação.

A moral dos escravos não cessa de aumentar e triunfou ao ponto de ser no mundo.    Mas Nietzsche é o homem, o filósofo das misturas de gêneros, e o que ele pensa de seu ensino deve tocar o leitor em um nível profundo. Nietzsche não se contenta em interpretar o mundo, ele quer muda-lo porque acha que o mundo atravessa uma crise.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.