No artigo “A democracia e o autoritarismo”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro destaca que a verdade é a primeira vítima na ditadura militar. Além de não combater à corrupção, o sistema não permite, como na democracia, a transparência, a fiscalização dos recursos públicos e o combate à corrupção. Tudo é proibido em nome da segurança nacional e da proteção aos governantes.

“A democracia é um regime frágil, mas ela permite a transparência, o acesso aos gastos e contas. E quando o impensável acontece, a corrupção, as instituições civis têm o direito e o dever de punir e ela não nega acesso à verdade”, destaca.

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“A democracia pode até não ser perfeita, porque são homens que a representam, mas ela desqualifica os absolutistas, sempre foi e sempre será mais fácil tratar com o regime democrático, num esclarecimento de ideias e projetos, do que tentar convencer um general ou um capitão ‘cabeça de cocô’ a respeitar a liberdade”, afirma Pinheiro.

“A população da década autoritária que experimentou o carinho das botas no traseiro não pode ter saudades do tempo do estupro da liberdade, do arrocho salarial e da fome que assolava a ‘peãozada’. O próprio presidente Emilio Garrastazu Médice disse, à época, ‘que o Brasil ia bem, mas o povo estava mal’ porque os cavalos comiam melhor que os trabalhadores”, relembra.

E conclui que a ditadura não é o melhor caminho para um país ter futuro.

Confira o artigo na íntegra:

“A democracia e o autoritarismo

Mário Pinheiro, de Paris

Não vamos falar de democracia ateniense porque ela suscita um governo popular e leva tempo para que ela se estabeleça num país. A democracia deve ser representativa e pluralista, sem ser alimento que nutre a ganância de burgueses, falsos democratas e crie o vício de magistrados avarentos.

O Chile tinha uma democracia socialista até que um general, sempre como cão adestrado, obedeceu todas as ordens externas contidas na Operação Condor para sepultar a cidadania e o sonho. A democracia pode até não ser perfeita, porque são homens que a representam, mas ela desqualifica os absolutistas, sempre foi e sempre será mais fácil tratar com o regime democrático, num esclarecimento de ideias e projetos, do que tentar convencer um general ou um capitão “cabeça de cocô” a respeitar a liberdade.

Primeiro, o lugar de militares é na caserna, é guardar a fronteira, proteger a nação e jamais atacar seu próprio povo; segundo, fardados de verde-oliva são despreparados para a política, o negócio deles é a segurança; terceiro, eles sabem obedecer às ordens de superiores, não debatem políticas públicas, têm o pavio curto e explodem. 

Quando os trogloditas de uniforme sorriram com olhos de serpente em 1964, um golpe duro, covarde e violento quis matar a esperança dos trabalhadores no ato de proibir em nome da segurança nacional. Eles tinham medo do regime que jamais se instalou na América latina e obedeciam, como cãozinho encoleirado, a cartilha do Tio Sam. Tudo se tornara proibido, dança, filosofia, sociologia, música, poesia, greve, reunião, organização, piquete na frente de fábrica, pensar diferente, fazer oposição e até livro de capa vermelha.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.

Era preciso pensar igual, agir conforme quem dava ordens, andar de cabeça baixa como gado que segue ao matadouro. Entretanto, o lado progressista da Igreja Católica jamais parou de agir e de se engajar assim como diversos sindicatos camponeses e urbanos que se reuniam na clandestinidade.

No inconformismo diário surgiram grupos radicais contra o radicalismo dos militares. Pedir justiça, igualdade e democracia era ser comunista. Enquanto algumas doenças e a fome matavam crianças, a democracia foi violentada e uma parte do povo domesticado jamais se deu conta que a culpa era dos militares.

A população da década autoritária que experimentou o carinho das botas no traseiro não pode ter saudades do tempo do estupro da liberdade, do arrocho salarial e da fome que assolava a “peãozada”. O próprio presidente Emilio Garrastazu Médice disse, à época, “que o Brasil ia bem, mas o povo estava mal” porque os cavalos comiam melhor que os trabalhadores.

As botas e coturnos se enfiavam nos estribos, cassetetes não era quase nada diante da violência e da sevícia sofrida no interior das instituições que deveriam proteger o cidadão, os torturavam, matavam, enterravam como indigente e não comunicavam a família. Os militares criaram instituições de repressão. Isso relata a covardia de quem não possui massa encefálica. Quando há escândalo no regime militar, tudo é abafado, eles controlam a imprensa e os inconformados. Para quem não teme a verdade, os livros de história ainda servem de remédio para a cegueira. O paradoxo é que os ignorantes se dizem conscientes das más escolhas, às vezes se arrependem.   

A democracia é um regime frágil, mas ela permite a transparência, o acesso aos gastos e contas. E quando o impensável acontece, a corrupção, as instituições civis têm o direito e o dever de punir e ela não nega acesso à verdade.

Já no sistema autoritário não existe a mínima transparência, tudo é feito às escondidas, com brutalidade, violência, e a poeira se acumula sob o tapete. Por isso existe a tendência a pensar que o regime autoritário é honesto. Ledo engano. Quando a maldade estoura entre eles, ninguém assume.”

O presidente militar, o general Emílio Garrastazu Médici é fotografado em seu gabinete em Brasília