No artigo “A revolta em busca da esperança”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro faz dura crítica à direita brasileira, que não se sensibiliza com o sofrimento dos pobres com o alto custo dos produtos, como o gás de cozinha e a gasolina a quase R$ 8. “Essa direita, acostumada a costurar as falcatruas e roubar por séculos a fio, senta-se sobre a esperança dos miseráveis e engorda contas bancárias em paraísos fiscais ou compra terras longínquas que ultrapassam cem mil hectares”, diz.

“O discurso sempre foi o mesmo, fincar a cabeça na igreja, na maçonaria, na família, na tradição e afirmar o velho mandamento eclesial, é Deus acima de tudo, e os desenculturados e iletrados engolem essa falácia como se fosse divino”, pontua.

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“Para a esquerda trata-se de um bordão conservador e tradicional, mas as pessoas não adquiriram o hábito da dúvida, de perguntar por que é mais fácil aceitar a dominação silenciosa, gananciosa e complotista (teórico da conspiração) da direita e dizer que a esquerda come criancinhas enquanto a direita engole povos e os mata de fome em busca do capital”, analisa.

Ao fazer a análise por meio dos grandes pensadores, ele acrescenta: “Os conceitos precisam ser reinvertidos, como afirma Hanna Arendt, e saltar para o reino da liberdade. Para ela, Nietzsche é o exemplo da reinversão do platonismo e a transmutação de todos os valores. Em Platão, por detrás desta reviravolta deve estar o apaixonado pela verdade e pela luz”.

Confira o artigo na íntegra:

“A revolta em busca da esperança

Mário Pinheiro, de Paris

Em termos de política, quando a direita está no poder, ela faz pouco causo, despreza, inibe os voluntários da mudança, abusa, diz e desdiz sobre a berço que balança a esperança do pobre. Só para lembrar, o gás está 140 e a gasolina 8 reais. Essa direita, acostumada a costurar as falcatruas e roubar por séculos a fio, senta-se sobre a esperança dos miseráveis e engorda contas bancárias em paraísos fiscais ou compra terras longínquas que ultrapassam cem mil hectares.

O discurso sempre foi o mesmo, fincar a cabeça na igreja, na maçonaria, na família, na tradição e afirmar o velho mandamento eclesial, é Deus acima de tudo, e os desenculturados e iletrados engolem essa falácia como se fosse divino.

Para a esquerda trata-se de um bordão conservador e tradicional, mas as pessoas não adquiriram o hábito da dúvida, de perguntar por que é mais fácil aceitar a dominação silenciosa, gananciosa e complotista (teórico da conspiração) da direita e dizer que a esquerda come criancinhas enquanto a direita engole povos e os mata de fome em busca do capital.

Kierkegaard, Marx e Nietzsche tem algo em comum contra estas abstrações, eles querem promover o homem. Marx confirma que a humanidade do homem consiste na sua força produtiva, a força de trabalho; Nietzsche insiste na produtividade da vida sobre a vontade do homem.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.

Quanto a Kierkegaard, ele quer promover os homens que sofrem e fala de sua dúvida na crença. Hanna Arendt, em “A condição humana”, fala da necessidade do salto, de reinversão de conceitos da mesma forma como Marx se interpõe a Hegel.

Os conceitos precisam ser reinvertidos, como afirma Hanna Arendt, e saltar para o reino da liberdade. Para ela, Nietzsche é o exemplo da reinversão do platonismo e a transmutação de todos os valores. Em Platão, por detrás desta reviravolta deve estar o apaixonado pela verdade e pela luz.

Claro, não é o caso dos fanáticos pelo atual presidente brasileiro, que preferem crer na mentira da facada. Pior para eles agora que o Tribunal Regional Federal da 1ª região liberou a retomada de investigação sobre o teatro que criou a imagem de coitadinho do homem que fugiu e foge de debates.

A parábola da caverna na República de Platão, por exemplo, segundo Arendt, se dá em três etapas. A primeira seria quando os ocupantes da caverna se livram das correntes e veem o que está diante deles, mas não desgrudam o olhar das imagens que desfilam na parede; a segunda se dá quando eles ousam se retornar para o fundo da morada e avistam o fogo que deforma as imagens projetadas; a terceira é a saída do buraco para ver a luz do sol, o que torna o homem capaz de discernir o antes e o depois.

Os habitantes da caverna e os eleitores do presidente miliciano “possedem” duas chances, ou enxergam a realidade ou se fecham na defesa do próprio ego cego e incapaz de discernimento.