No artigo “Kiekerkegaard e as migalhas da existência”, o filósofo e jornalista Mário Pinheiro recorre aos estudiosos para falar sobre a verdade e o sentido da vida. “As migalhas podem tornar os homens capazes de valorizar o que é pouco, mas necessário para cada dia. Kierkegaard trouxe à luz do dia as reflexões sobre a interioridade e a exterioridade”, pontua.

“A finalidade de Kierkegaard não é, enquanto autor, a filosofia clássica, mas de fazer as pessoas amarem a sabedoria em geral. Ele, doutor em filosofia, não se considera acima de ninguém. Olha, se arriscamos uma comparação, um paralelo, no Brasil há tantos ‘doutores’ que desconhecem uma tese de doutorado, apenas enfiam na frente do escritório ‘doutor fulano de tal’”, analisa, sobre alguns que se gabam com o título.

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Pinheiro mostra o motivo dos pensadores serem contra o cristianismo na época do Iluminismo. “Kierkegaard era aluno ouvinte quando seu mestre Schleirmacher aborda a filosofia da religião e fecha a discussão em torno do iluminismo de Rousseau, de Voltaire e também de Kant. O século dos iluministas é antirreligioso por causa do luxo dos nobres e dos graúdos da Igreja Católica”, aponta.

“Mas levemos em conta que Kierkegaard é considerado o pai da filosofia da existência, do existencialismo, por ter colocado em evidência que não podemos resumir o eu apenas ao ato de pensar. Segundo ele, tem que haver uma realização, reflexão, imaginação, a livre decisão, as disposições afetivas e o cuidado com tudo que afeta o cotidiano”, explica.

Confira o artigo na íntegra:

“Kierkegaard e as migalhas da existência

Mário Pinheiro, de Paris

No século XIX era moda fazer teologia, mas o costume vinha da Idade Média aos que desejavam se fixar na filosofia. Sören Kierkegaard defendeu seu doutorado teológico no mesmo ano em que se tornou doutor em filosofia. Hegel havia acabado de morrer. O filósofo dinamarquês pensa vagamente a religião.

Filosofia e religião se ligavam pela disciplina moral. E de Hegel a Schelling há escritos teológicos. Eles se encaixam na teologia protestante. Kierkegaard era aluno ouvinte quando seu mestre Schleirmacher aborda a filosofia da religião e fecha a discussão em torno do iluminismo de Rousseau, de Voltaire e também de Kant. O século dos iluministas é antirreligioso por causa do luxo dos nobres e dos graúdos da Igreja Católica. Mas a Dinamarca era protestante assim como a Alemanha.

Mas levemos em conta que Kierkegaard é considerado o pai da filosofia da existência, do existencialismo, por ter colocado em evidência que não podemos resumir o eu apenas ao ato de pensar. Segundo ele, tem que haver uma realização, reflexão, imaginação, a livre decisão, as disposições afetivas e o cuidado com tudo que afeta o cotidiano.

O cristianismo de seu tempo estava em perigo. Ele se posicionou contra o cristianismo burguês e de rotina. Ele se opõe a Hegel, recusa as leis universais que dominam a ciência e a moral, porque elas impedem o indivíduo de conhecer a realidade mais profunda do que parece. Nietzsche e Marx são contemporâneos de Kierkegaard.

Kierkegaard consagrou sua tese sobre Sócrates. Mais tarde ele aborda sobre as “migalhas”, que significa o “não filosófico” por excelência, o “não” ao qual os filósofos geralmente intercedem para fugir de falar das próprias origens.

O nome do Cristo é geralmente escamoteado quando se pergunta a alguém que se considera conhecedor das ideias, de ideologia e de história. Entretanto, como afirma Kierkegaard, uma grande parte de filósofos começaram os estudos em instituições dos jesuítas, o que demonstra o conhecimento teológico e as discussões religiosas, entre eles, Machiavel, Locke, Descartes, Pascal, Voltaire.

A finalidade de Kierkegaard não é, enquanto autor, a filosofia clássica, mas de fazer as pessoas amarem a sabedoria em geral. Ele, doutor em filosofia, não se considera acima de ninguém. Olha, se arriscamos uma comparação, um paralelo, no Brasil há tantos “doutores” que desconhecem uma tese de doutorado, apenas enfiam na frente do escritório “doutor fulano de tal”.

O que assombrou Kierkegaard por longos anos foi o tempo, a contemporaneidade. O tempo é o tema de trabalho de Henri Bergson que retoma o mesmo aspecto citado por Descartes. Se o tempo não lapida e prepara as pessoas para o fim, eles se tornam vilões e boçais à procura do que jamais preencherá a vontade e o bolso. As migalhas podem tornar os homens capazes de valorizar o que é pouco, mas necessário para cada dia. Kierkegaard trouxe à luz do dia as reflexões sobre a interioridade e a exterioridade.

A interioridade se encaixa no transcendental, um lugar de poder no mundo onde ela se encontra consigo mesma. Esta concepção é própria do idealismo que acaba por retirar do mundo toda característica de alteridade porque se encontra reduzida ao estatuto de objeto constituído pela consciência. Sua reflexão que começa no âmbito religioso, termina na procura da verdade. A verdade, segundo ele, não é o que eu produzo, nem do que eu serei proprietário ou conservador, mas aquilo que me toca, me esclarece e toma um significado existencial. Nisto está a interioridade que é transcendental, humilde, testemunha da verdade.

Ao privilegiar o estudo do fenômeno religioso, Kierkegaard nos mostra que esta verdade nos dá o poder de conjugar na primeira pessoa a singularidade absoluta da verdade. Ele mostra indiretamente a impossibilidade também de explicar em que o testemunho não é uma simples transmissão de conhecimento sem enraizar o pensamento numa compreensão do sentido original da verdade.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.