No artigo “Lembra-te que és mortal, Véio da Havan”, o economista e ensaísta Albertino Ribeiro critica o comportamento do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan. Ele destaca que a geração de empregos não é um ato de filantropia, mas faz parte de um ciclo, em que trabalhadores e consumidores fazem a roda girar e a garantem o sucesso do empresário.

Ribeiro recorre à Roma antiga, quando os generais voltavam vitoriosos das guerras e eram recebidos como grandes heróis. No entanto, para que não se deixassem embebedar pelo sucesso, um escravo acompanhava o general para repetir, a cada 500 metros, que ele era mortal.

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“Contudo, não é lógico nem salutar que um empresário praticamente exija da sociedade deferência à guisa dos generais do império romano, como faz Luciano Hang, arvorando-se como um grande herói da nação por gerar empregos”, pontua.

Confira o artigo na íntegra:

“Lembra-te que és mortal, Véio da Havan

Albertino Ribeiro

Na Roma antiga, os generais que voltavam vitoriosos das batalhas eram recebidos como grandes heróis. O ritual era de tão alta honraria, que havia risco considerável do militar tornar-se ameaça para a democracia. Para mitigar essa possibilidade, era colocado perto do general um escravo que a cada 500 metros lhe dizia: “Lembra-te que és mortal”.

Não posso deixar de fazer uma conexão entre esse fato histórico e o que se passa no Brasil de hoje. É inegável a importância de empresários como Luciano Hang, o Véio da Havan, em nosso País, pois contribuem para o crescimento econômico e geração de empregos.

Contudo, não é lógico nem salutar  que um empresário praticamente exija da sociedade deferência à guisa dos generais do império romano, como faz Luciano Hang, arvorando-se como um grande herói da nação por gerar empregos.

Sem a menor cerimônia, Hang faz questão de destacar o seu papel de gerador de empregos como sendo uma questão filantrópica: “Eu só posso ser mais generoso quanto mais dinheiro eu tenho porque eu vou distribuir toda a minha fortuna em emprego”. Esse tipo de pensamento mostra visão míope e atomista da própria economia.

Ao contrário do que muitos pensam, a economia é sistema complexo que está em constante interação e cujas variáveis são interdependentes. O empresário nada seria sem os trabalhadores que, além de contribuírem diretamente para o sucesso da organização, exercem também a função de consumidores, completando assim o ciclo de crescimento e prosperidade que sustentam qualquer empresa.

Destarte, o nosso herói brusquense deve ter consciência de que não é imortal; ele faz parte do sistema socioeconômico que, para manter-se em equilíbrio, necessita que cada um reconheça-se dependente do outro para a obtenção de sucesso.

“Lembra-te que és mortal, Véio da Havan”.”

(*) Albertino Ribeiro é economista, ensaísta e analista de informações socioeconômicas do IBGE