Juiz Odilon condenou Fahd Jamil em 2005 e agora defende PF acusado de proteger clã do Rei da Fronteira. (Foto: Arquivo)

“Foi absolvido, pelo TRF 3 [Tribunal Regional Federal da 3ª Região] e pelo STJ [Superior Tribunal de Justiça], em todas as condenações minhas. É primário. Como advogado e com longa vivência na esfera criminal, posso afirmar que a defesa dele agiu corretamente. Foi correta a decisão para se apresentar ”.

A declaração do juiz federal aposentado Odilon de Oliveira sobre Fahd Jamil Georges, que se entregou ontem (dia 19) na Operação Omertà, une dois personagens cujos destinos de cruzaram há 16 anos.

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Em 2005, Odilon era o juiz federal que condenou Fahd, o rei da fronteira, por tráfico de drogas e crime financeiro. Agora, magistrado aposentado e com uma eleição a governador de MS no currículo, Odilon faz a defesa do policial federal Everaldo Monteiro de Assis, preso na Omertà e acusado de atuar para proteção do clã de Fahd na fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero (Paraguai).

Em 2005, Fahd Jamil escapou de ser preso e passou anos foragidos até testemunhar o Poder Judiciário derrubar as condenações impostas por Odilon, restabelecendo-lhe o status de réu primário. Agora, pressionado por ameaças da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital),  o poderosíssimo rei da fronteira se define como um “homem idoso, doente e sob perseguição de criminosos”. A frase consta em carta divulgada pelos advogados André Borges e Gustavo Badaró.

O mesmo documento traz um reconhecimento –  “é bastante divulgado que sempre colaborei para o equilíbrio da segurança na região de fronteira” – e uma constatação que pode pesar a favor de uma prisão domiciliar: “não tenho antecedentes criminais (certidão negativa)”.

Fahd Jamil na década de 1980. (Foto: Arquivo)

Para entender como a condenação de Fahd por Odilon deu em nada é preciso voltar no tempo. A condenação por tráfico de drogas e associação para o tráfico, mas sem apreensão de entorpecentes, totalizou 20 anos e três meses. “A segunda condenação foi de 12 anos, por crimes financeiros (remessa de valores para o exterior)”, relembra Odilon.

Na linha do tempo, a primeira a ser fulminada foi pena por tráfico. Em 2009, o TRF 3 inocentou Fahd Jamil e mais seis réus por falta de provas, determinando o desbloqueio de bens: dez imóveis (incluindo a mansão que é réplica da casa de Elvis Presley) e R$ 2,1 milhões. Durante todo o processo, nunca foi preso.

Em maio de 2011, o rei da fronteira, sempre foragido, teve pena fixada em 10 anos e seis meses pelo TRF3 por crime de evasão de divisas. Conforme o processo, foram feitas três remessas para o exterior  da conta do empresário, em um banco de Ponta Porã, para a conta no Paraguai. As remessas totalizaram R$ 86.500.

Numa reviravolta, em março de 2012, o crime contra o sistema financeiro “caducou”. O parecer do MPF (Ministério Público Federal) pela prescrição foi acolhido pelo Superior Tribunal de Justiça. Desta forma, com esse conjunto de decisões, ficou livre das duas condenações impostas pelo juiz Odilon.

Fahd Jamil dormiu no chão em cela do Garras

O poderosíssimo empresário Fahd Jamil passou a noite em uma cela improvisada no Garras (Delegacia de Repressão a Assaltos a Banco, Roubos e Sequestros). No espaço sem cama nem ar-condicionado, ele comprou um colchão. Como não há cama na unidade, ele dormiu no chão.

Como os inquéritos já foram encerrados e as denúncias apresentadas à Justiça, o empresário não deverá prestar depoimento. Os interrogatórios só serão feitos em juízo.

Por outro lado, eventual colaboração do rei da fronteira com a Polícia Civil pode comprometer muitas cabeças coroadas envolvidas com o crime organizado na fronteira de Mato Grosso do Sul. Como é acusado de ser chefe de facção criminosa, ele não teria direito a imunidade penal, mas poderia negociar a redução da pena, por exemplo.

Omertà – Fahd Jamil voltou à condição de foragido em 18 de junho de 2020, durante a terceira fase da operação Omertà, que foi batizada de Armagedon. O Garras ((Delegacia de Repressão a Roubo a Banco, Assaltos e Sequestros) e Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime ) foram a Ponta Porã para prender o Rei da Fronteira e o filho Flávio Correia Jamil Georges. De acordo com a investigação, as organizações criminosas da fronteira e a de Jamil Name, com base em Campo Grande, eram próximas e se apoiavam mutuamente. Flávio permanece foragido.

Mansão de Fahd Jamil em Ponta Porã chegou a ser confiscada em 2005. (Foto: Arquivo)

Preso de seis milhões – Fahd Jamil teve uma prisão na década de 80 que conseguiu a mesmo tempo ser rumorosa em veículos nacionais, mas calar a imprensa de Mato Grosso do Sul.  A questão foi até parar em livro sobre a história do Estado, relatando que a revista Veja, que trazia a matéria “Rei na Cadeia”, foi interceptada no trajeto entre o aeroporto o Centro de Campo Grande.

A reportagem publicada na revista Veja relata a prisão de Fuad Jamil George, então com 39 anos. Apesar da grafia incorreta, a narrativa é sobre uma figura que mora em mansão na cidade de Ponta Porã e tinha tanto prestígio que foi visitado na prisão, em Curitiba, pelo senador Pedro Pedrossian, antes de ser nomeado governador.

“Um homem de 6 milhões de dólares está preso na penitenciária de Ahu, em Curitiba. Acusado de contrabandear café para o Paraguai, Fuad Jamil Georges, 39 anos, foi preso na terça-feira, dia 8, em Campo Grande por agentes da Polícia Federal. De nada valeram sua imensa fortuna pessoal e a larga influência política que há poucos meses compeliu o senador Pedro Pedrossian (PDS-MS) a sugerir seu nome para a presidência do partido do governo no Estado”, dizia a abertura da matéria.