No artigo “O cinismo religioso finge-se de cristão”, o filósofo e jornalista Mário Pinheiro faz contextualização histórica e filosófica do cinismo, usado atualmente por políticos, líderes religiosos e autoridades. “O cinismo está presente tanto no discurso quanto nos atos de diversas pessoas e até no parlamento. O cínico parlamentar se acha no poder de gozar do sofrimento alheio, como se fosse hiena, faz piadas de quem sofreu tortura e se pinta de moralista”, afirma.

“Pedir, pedir, exigir e implorar que fiéis paguem a conta, o querosene do jatinho privado, o IPTU do condomínio de luxo, deem mais e mais utilizando palavras cristãs, comprem feijão milagroso, vassoura abençoada, é simplesmente anticristão. E aquele ódio cultivado no coração não vem do cristianismo, mas do cinismo anticristão”, critica.

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Pinheiro vai além ao relembrar o gesto de Jesus Cristo, cuja paixão e morte é celebrada a partir deste domingo, com a celebração de Ramos pela Igreja Católica. “Jesus era socialista, repartiu o pão em treze pedaços, não tinha onde pousar a cabeça, acolhia e vivia no meio de pobres, perdoava prostitutas, curava doentes e paralíticos. Transformou água em vinho de qualidade para todos beberem em Canaã. Ele desceu o cacete quando transformaram o templo em lugar de comércio”, pontua.

“Depois, perseguido por ideias políticas, foi traído, preso e torturado. Ele não morreu na cama, deu a vida, sacrificou-se, morreu e ressuscitou. Sem sua morte não existe Páscoa, passagem para outra vida. O cinismo quer mostrar o contrário no Brasil católico e evangélico”, ressalta, destacando os acontecimentos que marcam a Semana Santa.

Confira o artigo na íntegra:

“O cinismo religioso finge-se de cristão

Mário Pinheiro, de Paris

A filosofia dos cínicos apareceu na Grécia através de um discípulo de Sócrates, chamado Antistene que foi o mestre de Diógenes, o cínico. Platão dizia que este cidadão era louco, pois seu cinismo copiava a vida de cachorro, masturbava-se em via pública, ia contra os costumes sociais. Ele era incapaz de descrever a realidade. A teoria da linguagem não é dominada pelos cínicos, eles atropelam pela via mais fácil, a baixaria que arruína a dialética.

Na retórica de Aristóteles, ele diz que Antistene comparava o frágil e velho escultor ateniense, Cefisodote, ao incenso que o encantava ao se consumir. O cinismo está presente tanto no discurso quanto nos atos de diversas pessoas e até no parlamento. O cínico parlamentar se acha no poder de gozar do sofrimento alheio, como se fosse hiena, faz piadas de quem sofreu tortura e se pinta de moralista.  

Hoje, filosofia, política e religião se encontram, às vezes, no discurso, na mesa de bar, no culto, nas confabulações teóricas, traiçoeiras e familiares de pessoas sem escrúpulos. O cinismo muda de roupa, de aparência, de credo, e se afina, não com o comunismo, mas com o anticristianismo, sem se dar conta. Isso mesmo.

Pedir, pedir, exigir e implorar que fiéis paguem a conta, o querosene do jatinho privado, o IPTU do condomínio de luxo, deem mais e mais utilizando palavras cristãs, comprem feijão milagroso, vassoura abençoada, é simplesmente anticristão. E aquele ódio cultivado no coração não vem do cristianismo, mas do cinismo anticristão.

Jesus era socialista, repartiu o pão em treze pedaços, não tinha onde pousar a cabeça, acolhia e vivia no meio de pobres, perdoava prostitutas, curava doentes e paralíticos. Transformou água em vinho de qualidade para todos beberem em Canaã. Ele desceu o cacete quando transformaram o templo em lugar de comércio.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris. Ele escreve aos sábados.

Depois, perseguido por ideias políticas, foi traído, preso e torturado. Ele não morreu na cama, deu a vida, sacrificou-se, morreu e ressuscitou. Sem sua morte não existe Páscoa, passagem para outra vida. O cinismo quer mostrar o contrário no Brasil católico e evangélico. 

A moral dos cínicos é anunciada pela recusa das convenções sociais, ataca os direitos humanos, não tem virtude, passa o tempo mentindo e negando seus atos malignos como o desmatamento da Amazônia, a invasão de terras indígenas, ataque contra as minorias e criminalização dos movimentos sociais.

O cínico que se torna homem público, juiz, procurador, político, proclama-se cidadão, autoproclama-se bispo, diz que não precisa de nada, despreza honrarias, riquezas, se faz passar por pessoa simples e esconde seus bens no obscurantismo de si mesmo. O pior para um cínico é considerar a tropa militar como seus cães adestrados prontos para morder seus inimigos ou derrubar a democracia por um golpe”.