No artigo “A ideia de tempo na política”, o filósofo e jornalista Mário Pinheiro analisa, ao recorrer aos pensadores ao longo da história, sobre o tempo e a morte. “A morte é questão de tempo, de fechar os olhos e deixar o corpo virar poeira. Ninguém escapa ao tempo e sempre é tempo de semear. O tempo marca nossa passagem num mundo frágil, onde o ranho não gruda na bandeira e as trapaças em prol da tortura envergonham o passado”, pontua.

“Somos todos mortais como já dizia Aristóteles, mas somos também a consciência do tempo, da memória, da imaginação que nos permitem evocar o passado. O tempo pode marcar nossa existência pelo que fazemos, pensamos e defendemos. Sem dúvida alguma existem aqueles que vegetam, não vivem, não aprendem e resumem a vida pela matéria, a moeda que o tempo proporciona”, afirma.

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“Se queremos andar por atalhos e tomar o caminho errado, é mais fácil hoje, basta repetir, criar uma mentira sobre um desafeto, a má consciência faz o resto. Daí nascem divergências, contradições, mata-se o tempo e a corrupção corrói o pensamento no absurdo”, diz, sobre a onda de fake news.

Para concluir, ele critica os escândalos envolvendo o ministro da Educação, Milton Ribeiro, em pastores com influência são acusados de pedir ouro, dinheiro e bíblias como propina. E inda cita a denúncia do Brasil pela ONU por não respeitar as populações indígenas e o prêmio indigenista concedida ao presidente Jair Bolsonaro (PL) pelo ministro da Justiça, Anderson Torres.

Confira o artigo:

“A ideia de tempo na política

Mário Pinheiro, de Paris

Somos todos mortais como já dizia Aristóteles, mas somos também a consciência do tempo, da memória, da imaginação que nos permitem evocar o passado. O tempo pode marcar nossa existência pelo que fazemos, pensamos e defendemos. Sem dúvida alguma existem aqueles que vegetam, não vivem, não aprendem e resumem a vida pela matéria, a moeda que o tempo proporciona.

A morte é questão de tempo, de fechar os olhos e deixar o corpo virar poeira. Ninguém escapa ao tempo e sempre é tempo de semear. O tempo marca nossa passagem num mundo frágil, onde o ranho não gruda na bandeira e as trapaças em prol da tortura envergonham o passado.

O limite de nossa existência neste tempo é a morte que sela o fim. O ser imortal não existe, o capitão inexiste, mas mentira, roubo e corrupção estão no tempo que se misturam com palavras sedutoras, bíblicas, como se fosse a serpente no jardim do Éden.

A carta de Epicuro a Meneceu fala do desejo de imortalidade, dos piores desejos, da satisfação impossível que leva o homem ao excesso, de apagar os sinais de envelhecimento e sofrimento. Santo Agostinho sustenta que o objetivo do ser humano é de passar por esta vida. Mas a porta do tempo também despeja sua tempestade quando o homem desrespeita seu mundo de passagem e não usa suas faculdades intelectuais.

O tempo, no sentido da análise de Nietzsche, é o esquecimento. Se a memória que nos lembra o passado torna possível o conhecimento, ela é também motivo de sofrimento por pessoas que perdemos.

A ideia de tempo no espaço e o espaço do tempo é um tema trabalhado por Henri Bergson. Ele diz que a dificuldade essencial é o tempo e que a solução é o conceito. A abordagem é oriunda de Platão que evoca o ideal, o idealismo, Zenon de Eléia, e que os primeiros filósofos se preocupavam com o tornar-se.

O tempo designa o período entre dois acontecimentos. O tempo é a representação da duração pelo espaço e a representação da mudança. A relação entre os dois são próximas. O que ela simboliza é o que raciocinamos sobre o símbolo.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.

Se queremos andar por atalhos e tomar o caminho errado, é mais fácil hoje, basta repetir, criar uma mentira sobre um desafeto, a má consciência faz o resto. Daí nascem divergências, contradições, mata-se o tempo e a corrupção corrói o pensamento no absurdo.

O absurdo encontra moral, morada e cria raiz sem razão de consenso. Platão é o verdadeiro criador da metafísica com a escola de Zenon de Eléia. Ele afirma que o movimento, o tornar-se, a mudança não pode ser a existência. A realidade dos fatos no tempo e no espaço, é o que importa para Platão, o resto é ilusão, mentira, fantasia.

Sócrates não se preocupava com assuntos temporais, dizia que cabia a Deus, o que importava era o bem, o conveniente, o prático. E Platão não é negacionista da história nem dos acontecimentos de seu tempo. Para ele a terra não é plana e Jesus jamais vai aparecer na goiabeira. Para Platão, é necessário a ciência e é preciso abandonar a caverna para sentir as mudanças climáticas, mas hoje, se persistirem na falácia do Adélio, na inexistente facada, sua incomunicabilidade com nosso tempo, os eleitores não serão capazes de fazer distinção entre bem e mal, entre verdadeiro e falso, entre cristão e evangélico.

E Sócrates foi direto ao assunto das modificações temporais no homem sem ética, no conceito do espírito que muda o discurso conforme a ocasião, no corruptível que compra mansão com valor acima do que ganha.

Não, não significa propina em espécie, em dinheiro, mas em ouro, é o caso do ministro da Educação. E por falar de ouro, a notícia atual, no tempo e no espaço, é que garimpeiros invadiram o posto de saúde em Roraima, dominam as pistas aéreas em terras Yanomamis e não permitem pouso de outras aeronaves.

Nesta semana teve a carta da ONU sobre o desrespeito do presidente brasileiro com os índios e a maior imbecilidade do ministro da Justiça em outorgar o prêmio indigenista a quem jamais moveu uma palha às comunidades autóctones. Ele ganha afago e rendas de seu governo que ‘promove a desigualdade racial e limita os direitos humanos’. O presidente havia comparado os índios a ‘animais em cativeiro’, que vivem numa ‘situação inferior’, que as terras indígenas são zoológicos. E o ministro lhe dá um prêmio? Francamente, está difícil encontrar razões e seriedade neste governo.”