No artigo “O paradoxo governamental”, o filósofo e jornalista Mário Pinheiro analisa a contradição da suspeita de corrupção com a bíblia envolvendo o ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro. “Hoje lida-se com o falso no lugar do verdadeiro e o mantra governista é negar que exista corrupção, mesmo que ela se faça presente. É paradoxal”, pontua.

“A troca de vantagens, de propina pelo ouro em vez de dinheiro num governo terrivelmente ancorado no discurso evangélico, revela somente uma ponta do iceberg, a corrupção se faz com a bíblia na mão”, destaca.

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“Paradoxo é contradição, algo inaceitável que trabalha especificamente com aparência. Sua origem vem de Aristóteles mas seu uso é recente. Aristóteles fala de paralogismo racional com caráter mentiroso, falacioso. Platão usa o termo sofisma”, analisa, recorrendo aos grandes pensadores.

“Porém hoje, não se raciocina. Não é qualquer pessoa que olha a conta bancária e vê R$ 59 mil oriundos de um cheque; não é qualquer senador que pode comprar uma mansão de vários milhões e também não é qualquer tropa que pode nadar no leite condensado”, critica, citando os casos envolvendo integrantes do Governo de Jair Bolsonaro, mas sem citá-lo nominalmente.

Confira o artigo na íntegra:

“O paradoxo governamental

Mário Pinheiro, de Paris

A filosofia do pensamento científico se viu confrontada aos paradoxos. É um retorno ao passado. Os apoiadores deste governo devem procurar entender o que é lógica e os dilemas do bem e do mal. Procura-se entender os paradoxos do conhecimento, da verdade.

Hoje lida-se com o falso no lugar do verdadeiro e o mantra governista é negar que exista corrupção, mesmo que ela se faça presente. É paradoxal. O paradoxo é o raciocínio de onde deriva a conclusão inaceitável a partir das premissas da aparência. A troca de vantagens, de propina pelo ouro em vez de dinheiro num governo terrivelmente ancorado no discurso evangélico, revela somente uma ponta do iceberg, a corrupção se faz com a bíblia na mão.

Paradoxo é contradição, algo inaceitável que trabalha especificamente com aparência. Sua origem vem de Aristóteles mas seu uso é recente. Aristóteles fala de paralogismo racional com caráter mentiroso, falacioso. Platão usa o termo sofisma.

É uma antinomia usada por um tipo específico de argumento paradoxal. As antinomias mais célebres são as de Kant na crítica da razão pura. Os estóicos dedicaram muito estudo nas aporias (dificuldades lógicas), dentre eles, o historiador Diógenes Laércio. Na educação medieval o estudo dos paradoxos e da lógica era questão de honra.

Porém hoje, não se raciocina. Não é qualquer pessoa que olha a conta bancária e vê R$ 59 mil oriundos de um cheque; não é qualquer senador que pode comprar uma mansão de vários milhões e também não é qualquer tropa que pode nadar no leite condensado.

O paradoxo da honestidade é seu contrário, a desonestidade. Qual é a lógica em se dizer anticorrupto e fazer pior? É simples, usando a família e metendo Deus na conversa como argumento. O paradoxo é a consequência do formalismo empregado na linguagem dos pastores.

A estrutura do paradoxo apresenta dilemas morais debatidos na filosofia moral que descamba na epistemologia. Por exemplo, o estudo de Zenon de Eléia nos faz refletir sobre as dicotomias sociais e seus inúmeros paradoxos encontrados na obra de Aristóteles. A opção menos convincente é a do ataque direto sem base lógica, aquela direcionada a fazer barulho e espalhar desordem. 

Para concluir, o paradoxo da moral se apresenta frequentemente como um argumento que estabelece deduções absurdas, sem pé nem cabeça, como o kit gay ou a proposição em criminalizar os movimentos sociais e transformá-los em ‘terroristas’. É contraditório numa nação democrata, mas possível num regime ditatorial como o da Rússia. 

Seria preciso que os adeptos do atual governo explicassem a utilidade do gabinete do ódio. Ódio é o contrário de compaixão, de compreensão, de acolhida, de amor, de cristandade. Qual a necessidade de tal gabinete neste paradigma em que vale a troca por ouro numa corrupção escancarada, evangélica, mas negada, e qual a utilidade da bancada da bala?

Estão unidos num só ideal, odiar, ser indiferente, fazer apologia ao que fere a natureza humana. É o paradoxo. Ele havia dito no início, não entendeu somente os surdos, que mataria um monte, que a ditadura não cumpriu seu papel em exterminar. Depois, o macabro se veste do mais dócil cordeiro, abençoa as milícias, benze os torturadores, presta homenagem a quem matou fria e cinicamente.

Ele representa o mal, é um exemplo às avessas do cristianismo. Se a ditadura que foi terrível, não matou o quanto deveria, digo que a democracia também não cumpriu seu papel e deveria ter julgado e condenado todo torturador, informantes e lambe-botas do autoritarismo.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.