Cleber Gellio
Jhonny foi atropelado, é gay e contraiu a HIV: abandonou a faculdade devido a problemas financeiros (Foto: Cleber Gellio)

A pouco menos de um ano das próximas eleições presidenciais, a pergunta que muitos analistas ainda se esforçam em responder é: como o atual governo será lembrado pelo povo brasileiro? Em épocas passadas, talvez fosse mais fácil de responder e os especialistas não hesitariam em dizer que seriam a presença do iogurte e do frango na mesa de famílias menos abastadas, ou então, em um período mais recente, a primeira viagem de avião e o ingresso de moradores das periferias às universidades.

O que não resta dúvida é quanto os altos índices de desemprego e disparada da inflação, em 2021, que evidenciam a pobreza e escancaram a piora nas condições de vida da população. De acordo o Ministério da Cidadania, em outubro, 126.902 famílias sul-mato-grossenses vivem com renda de até R$ 89,00. A renda per capita familiar é calculada dividindo-se o total de todos os ganhos da família pelo número de moradores do domicílio.

Veja mais:

Após polêmica de “pessoas com fome” em Dourados, economista arrecada alimentos para índios

Pandemia agrava crise, eleva desemprego e fome vira pesadelo para famílias na Capital

Tereza Cristina adere à era da chacota: “não passamos muita fome porque temos manga”

O total das que têm renda per capita entre R$ 89,01 e R$ 178,00; é de 52.789. Já com renda per capita familiar entre R$ 178,01 e meio salário mínimo, é de 128.266. Acima de meio salário mínimo a renda per capita engloba 156.992 famílias. Desta forma, 133.826 famílias foram beneficiadas pelo extinto programa Bolsa Família, representando uma cobertura de 96,7% da estimativa de famílias pobres no estado. O valor total transferido pelo governo federal em benefícios às famílias atendidas alcançou R$ 12 milhões no mês.

O auxílio contemplava famílias pobres e extremamente pobres, inscritas no Cadastro Único. Segundo a Secretaria Municipal de Assistência Social, em 2021, somente na Capital 140.040 constavam dos dados cadastrais, porém a atualização caiu de forma significativa devido à pandemia de covid-19. A média de cadastros antes da pandemia era de 83,07% e despencou para 60,51% durante a período da doença.

Em busca de pessoas que vivem situação semelhante em Campo Grande, O Jacaré se deparou com duas famílias que abriram, além das portas de suas casas, o coração, para mostrar a realidade de um natal que muitos ainda insistem em não enxergar.

Rosa Leia e Reginaldo contam como sobrevivem com um salário mínimo (Foto: Cleber Gellio)

Mais que um dólar

“Nós somos real, nós somos mais que o dólar, somos real. Deus que abençoe você e nossa família, estamos nessas condições, mas somos real. Essa é a vida que o brasileiro tá vivendo, aquele que tá no país da maravilha, aquele país do carnaval, do samba e do futebol, entendeu? Uma bala perdida matando os inocentes e os culpados vendo. Esse não é o país que eu quero pra mim e nem pro futuro, irmão. Deus que abençoe a nós todos”.

Assim mesmo, exatamente desse jeito, que o ex-pedreiro Reginaldo Gonçalves da Silva, 58 anos, proferiu duras palavras sobre o atual momento do país. Após levar quatro tiros, em 2016, quando reagiu a um assalto, nunca mais voltou andar. Atualmente, o ex-construtor é beneficiado pela Loas (Lei Orgânica da Assistência Social), e recebe R$ 1,1mil ao mês. Para receber o beneficio é preciso que a pessoa com deficiência comprove não possuir meios de prover a própria manutenção, nem de tê-la provida por sua família.

É o que ocorre com Reginaldo. Depois da tragédia, sua vida e de sua família nunca mais foram as mesmas. A esposa, Rosa Leia Rodrigues, 55 anos, deixou o emprego como doméstica para cuidar do marido. Há 40 anos, eles moram em uma casa simples no Bairro Guanandi, região sul de Campo Grande, e sobrevivem com um salário mínimo, no qual é utilizado para a manutenção de três adultos, ou seja, uma renda per capta de R$ 366,66.

Rosa Leia, que faz questão que pronunciem seu nome separadamente, é o porto seguro da casa. Com pouco recurso financeiro, é ela quem organiza o orçamento, pagando as contas de luz, água e ainda reserva quantia para os mantimentos do mês.

No entanto, devido à inflação sobre os alimentos, principalmente as carnes, não tem sobrado muito. Na última ida ao mercado, na primeira quinzena de dezembro, gastou exatos R$ 381,00, somente com o básico. Não comprou muitas frutas e legumes, dando prioridade às carnes e embutidos, mais ao gosto do parceiro.

“Ele [marido] me disse: “ficamos sem nada (dinheiro), mas a geladeira está cheia de mistura”. Mas eu gosto de verduras, frutas. Quando eu tenho dinheiro, eu compro, porque faz bem para a saúde”, disse ela.

Hospitaleira, a dona de casa não tem receio em mostrar as condições do ‘canto’ onde vivem e deposita suas esperanças por dias melhores na independência dos filhos, já adultos. A mais velha, Rosilene, formou-se assistente social, o do meio, Alexandre, é pedreiro, assim como o padrasto e o mais novo, Jhonny, trabalha com vendas. No entanto, este último, voltou a morar com os pais depois de uma série de acontecimentos que veremos a seguir.

Meu nome é Jhonny

Poderia dar um bom livro, mas a vida real do ‘nosso’ Jhonny, é bem diferente a do personagem de classe média carioca que se enveredou para o mundo do crime, como escritor, Guilherme Fiuza, apresentou ao Brasil.  

Aos cinco anos de idade, Jhonny Rodrigues, 33 anos, o filho mais novo de dona Leia e único de Reginaldo, foi atropelado por um caminhão quando brincava na rua.  Até hoje as cicatrizes o faz lembrar o trauma do passado. Como se já não bastasse, na fase adulta as dificuldades insistem em permanecer e após um ano e meio da pandemia de covid-19, ele decidiu enfrentar as adversidades e abriu o jogo, em uma conversa franca com nossa equipe.

Gay, assumido, desde os 17 anos, se viu na condição de desamparado, depois de se separar do último companheiro, com quem foi casado durante seis anos, e retornou à casa dos pais. “Você ter pessoas para te amparar é uma coisa, mas depender do dinheiro da pessoa é mais difícil”.

Em 2015, descobriu que havia contraído HVI (sigla em inglês do vírus da imunodeficiência humana) causador da Aids. “Eu me afastei das pessoas e me tornei uma pessoa agressiva, porque eu não sabia por que estava passando por àquilo. Eu achava que era por conta do HIV e por não ter dito isso para minha família acabei retraindo isso dentro de mim. Isso foi me sufocando porque não é fácil”.

Antes da pandemia cursava o sexto semestre de Serviço Social, pela FCG (Faculdade Campo Grande), por meio do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), mas não retornou aos estudos devido ao tratamento psicológico e principalmente por questões financeiras.  Antes disso, com registro em carteira, se mantinha como vendedor, mas depois que passou a fazer o tratamento intensivo de saúde, começou a trabalhar de empregado doméstico, o que pioraram ainda mais as coisas.  

Hoje, o acadêmico é um entre os 13,5 milhões de brasileiros desempregados no país. A alternativa da família tem sido, além da busca incessante por vagas de emprego, angariar meios de sobreviver com as garantias assistenciais do Estado, como auxílios renda, e doações de terceiros.

O auxílio que vem das ruas

Apesar do preconceito, casal de venezuelanos consideram o Brasil um dos melhores locais para se viver (Foto: Cleber Gellio)

Foi em um ambiente de incertezas, em meio a preconceitos e comportamentos xenófobos, muitas vezes incentivados por membros do Palácio do Planalto e do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), que o casal de venezuelanos, Carlos Henrique Trancosa, 61 anos e Maria Elsa Ortunez, 58 anos, desembarcou em Campo Grande, em novembro do ano passado.

Depois de passarem por momentos difíceis na Bolívia, marido e mulher decidiram recomeçar a vida no Brasil. Diferentemente do que ocorre com o casal brasileiro, não puderam contar com a assistência do Estado e precisaram recorrer ao trabalho informal e à filantropia para sobreviverem. Mesmo assim, eles acreditam que o Brasil é um lugar bom de se viver.

“Digo de coração. Conheço a Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e agora Brasil. A melhor parte onde fomos tratados é o Brasil. Aqui há muita solidariedade, muito humanismo, há muita ajuda neste país. Tem muita gente boa aqui, não vou dizer que nos outros países não tem, sim, há, mas tem xenofobia. Aqui não tem xenofobia, graças a Deus”.

Assim como Reginaldo, Carlos tem deficiência, perdeu o braço esquerdo em um acidente automobilístico em 1992, enquanto trabalhava como vendedor em uma empresa de livros escolares. Segundo ele, depois do acidente, por estar impossibilitado de dirigir, foi realocado em outro setor, o que reduziu seu salário. “Eu ganhava um salário mínimo, mais comissão. Depois passei a ganhar somente o salário, uma miséria”.

Ao questionar a empresa sobre a queda nos rendimentos, foi despedido sem nenhum tipo de indenização. Ele ainda tentou recorrer judicialmente, porém perdeu a causa.

O que ele não perde é a vontade de vencer. Há um ano na capital, Trancosa se arrisca em meio aos  veículos vendendo balas nos semáforos. O ponto mais explorado pelo hermano é o cruzamento entre as ruas Antônio Maria Coelho com José Antônio. Ele vende em média R$ 80,00 por dia, o que no final do mês chega a render cerca de R$ 1,6 mil, dependendo dos dias trabalhados e do movimento. Elsa está impossibilitada de trabalhar devido a um tratamento de saúde.

Segundo o vendedor, boa parte do orçamento já tem endereço certo e é destinado ao aluguel (R$ 500,00), água, luz, gás e telefone, que juntos somam cerca de R$ 240,00, além dos alimentos que não param de aumentar os preços.

Alimento d’alma

Durante o período de pandemia cerca de 46 toneladas de alimentos, distribuídos pela Cufa (Central Única das Favelas de Campo Grande),  garantiu o sustento de pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar em Campo Grande. De acordo os números de cadastro da instituição, em dois anos, cerca de 30 mil pessoas foram atendidas.

A insegurança alimentar também foi motivo de preocupação de diferentes grupos de voluntários que se reúnem para ajudar ao próximo. Quem está acostumado a passar pela Avenida Ernesto Geisel já deve ter notado, na praça Nelly Martins, uma fila que se forma aos domingos de manhã. São pessoas em situação de vulnerabilidade em busca de alimentação. Ali, há dois anos, é servido um café da manhã, oferecido por voluntários que se mobilizam, por meio de aplicativos de conversas, para ajudar os que mais precisam. “Eu senti a necessidade de todo domingo vir para essa praça trazer algum conforto para os mais necessitados”, disse Edson Lazarotto, um dos idealizadores da ação.

De acordo com Lazarotto, a iniciativa é de extrema necessidade, pois “são pessoas que realmente não tem onde dormir e muitos vêm de outros países, como os haitianos e mais recentemente os venezuelanos. Temos que socorrer porque são seres humanos”. Toda semana, cerca de 70 pessoas são atendidas pela ação entre amigos. No começo eram servidos leite e bolachas ao grupo, mas com o aumento de apoiadores o kit ganhou novos produtos como bolos, salgados e agora, no Natal, até panetone.

“Quando nós comentamos que traríamos um café da manhã diferente por ser época de Natal e que teria um panetone no kit, teve um adulto que perguntou o que era um panetone. Isso corta o coração porque é uma coisa tão simples para nós, tão sem importância, mas para eles não. Para muitos que pegaram esse kit é a única refeição do dia”, relata Roberta Monteiro, 40 anos, mãe do Arthur, de 12 anos, responsável pelo engajamento de sua genitora às ações de solidariedade.

Enquanto Roberta organiza a fila, separando crianças e mulheres para um lado e homens para outro, o marido William Xavier, administrador de empresa, 43 anos, trata de ajudar a distribuir os sacos. Ele é mais um do time de voluntariado que conta com apoiadores de toda sorte como financeiros, provedores, restaurantes, entre outros, essenciais para a viabilidade do projeto. “É uma cadeia de apoiadores, temos empresas que fazem doações de carnes e bolos, por exemplo, temos pessoas que colocam a mão na massa produzindo os lanches, outros que ajudam na logística, enfim, são muitas pessoas que abraçam a causa com gente”.

Questionada do porquê dedicar seu tempo e de sua família às pessoas que muitas vezes nem sabe quem são, Monteiro é assertiva. “Eu nunca senti fome, nunca passei frio. Se é período de frio eu tenho meu cobertor, meu teto, meu prato de comida. E essas pessoas abandonadas, pela família, pelo poder público, pela sociedade? Hoje essas pessoas perante a sociedade não existem e isso dói, isso machuca. Então a gente tenta trazer um mínimo de conforto à essas pessoas”.

“Amo fazer o bem, não importa a quem. Muito mais recebo do que dou. A cada marmita feita, a cada café da manhã servido, a cada ação eu dou o alimento para o corpo dos irmãos que tanto necessitam, mas recebo o alimento que a minha alma necessita. Meu coração transborda a cada muito obrigado”, finaliza.

Voluntários trocam o momento de lazer por levar comida e uma palavra de esperança para quem tem fome (Foto: Cleber Gellio)

Fome não é brinquedo 

Diferente de outros anos, as campanhas de doação de brinquedos foram substituídas por alimentos. Segundo Roberta Monteiro, a prioridade dos pequenos em comer, é maior que brincar. “Não que seja menos importante, mas no Dia das Crianças, por exemplo, não trouxemos brinquedos, por mais que eu receba muita doação. Muitas vezes você chega com o brinquedo para a criança e ela diz: “queria leite, tia”.

Então o grupo preferiu doar o que comer. Então, juntamos fizemos um kit com tudo o que uma criança gosta de comer,  como bolacha recheada, achocolatado, salgadinho, enfim, coisas que eles nunca viram. Claro que sempre colocamos algo para completar como um livro de colorir”, exclamou.