Indígenas dividem espaço com urubu em aldeia, conforme registro feito pelo economista durante estadia na reserva (Foto: Divulgação)

O economista Eduardo Moreira, coordenador do projeto “Brasil de Verdade”, decidiu aproveitar a polêmica sobre a miséria nas aldeias de Dourados para arrecadar alimentos para os índios. Detonado por políticos da cidade pela frase de que “as pessoas comem restos de comida” na segunda maior cidade do Estado, a 230 quilômetros da Capital, ele lançou, nesta segunda-feira (24), vaquinha social para ajudar os indígenas.

Ao divulgar o programa em entrevista à jornalista Leda Nagle, Moreira afirmou que “em Dourados, as pessoas comem restos de comida, moram em lugares que não tem água, sem rede de esgoto e sem rede elétrica. Dormem uma hora por noite com medo de serem mortas pelas milícias”.

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A frase viralizou nas redes sociais e causou a fúria de parte dos moradores de Dourados. O prefeito Alan Guedes (Progressistas) divulgou mensagem condenado o economista: “Como douradense e apaixonado pela minha cidade confesso que dói ver comentários como esses. A fala do empresário é carregada de preconceito e recheada de falta de informação, principalmente àqueles que vivem em outras regiões do país e que não conhecem as belezas e riquezas de Dourados”, criticou, sem fazer qualquer menção à pobreza que castiga os índios.

Com a mesma fúria reagiu o presidente da Câmara Municipal, Laudir Munaretto (MDB), também sem manifestar qualquer solidariedade com quem passa fome na cidade. “Na condição de representante do cidadão douradense, a Câmara de Dourados classifica como inaceitáveis as considerações e repudia qualquer manifestação preconceituosa, ofensiva e infundada que promova a desvalorização da sociedade douradense”, afirmou.

“As declarações do coordenador do projeto “Brasil de Verdade” não refletem a realidade vivida em Dourados, que tem como principais características a força do trabalho e a capacidade de produção, se colocando como um importante polo agropecuário, universitário e de prestação de serviços da região Centro-Oeste”, repudiou, conforme o jornal O Progresso.

“Foram ofensivas, grosseiras e levianas, pois não refletem a realidade dos mais de 225 mil habitantes que vivem na segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul”, reagiu o radialista e deputado estadual Marçal Filho (PSDB). O tucano também não vê miséria nas reservas do município.

Eduardo durante conversa com índios na reserva de Dourados (Foto: Divulgação)

“É um município acolhedor que tem como uma de suas principais características a força de trabalho e a produção de alimentos. Uma cidade em que economia tem como destaque a agricultura, a pecuária e a indústria de alimentos, o que escancara um cenário completamente contrário ao descrito pelo empresário em suas declarações claramente discriminatórias”, ressaltou Marçal.

Em live realizada na manhã de hoje, Eduardo Moreira anunciou que chegou a ser ameaçado de morte pelas declarações. No entanto, ele não se intimidou e manteve a declaração de que os índios passam fome em Dourados. A constatação ocorreu durante sete dias que passou na reserva indígena douradense.

Moreira anunciou que pretendia transformar o limão em limonada e anunciou a campanha para arrecadar dinheiro para comprar alimentos para os índios de Dourados. A meta da vaquinha social é arrecadar R$ 100 mil. Os alimentos serão comprados dos assentamentos da reforma agrária e pequenos produtores rurais. A gestão ficará a cargo do advogado Tiago Botelho, presidente da Comissão de Direitos Humanos da secção da OAB no município.

O indígena Eliel Benites, da Reserva de Dourados, confirmou a situação de miséria dos índios douradenses. “A gente não é isso, mas as condições impostos é que nos levou a esta situação”, lamentou, sobre a presença de indígenas pedindo esmolas e revirando o lixo em busca de alimentos nas ruas da cidade.

Confira a live de hoje que lançou a vaquinha social

Botelho pediu desculpas a Moreira pelos ataques “em nome dos douradenses”. Ele ressaltou que os índios passam fome e perambulam pelas ruas do município. “Peço que nos ajudem e ajudem os povos indígenas que vivem às margens das rodovias e da cidade”, apelou.

Anastácio Peralta contou que a situação dos índios já era difícil quando os governantes eram favoráveis. “Já era ruim no passado, hoje não existe (demarcação e apoio do Governo). Piorou nossa situação”, lamentou o indígena. Ele disse que outro fator de agravamento foi a pandemia da covid-19.

Para ajudar os índios, Eduardo Moreira lançou a vaquinha social com a meta de arrecadar R$ 100 mil. Ele doou R$ 10 mil. A meta acabou sendo batida em duas horas. Com 744 doações, a arrecadação bateu em R$ 102.030.56. A campanha vai continuar até o fim de semana. O Instituto Liberta, de Moreira, vai pagar a taxa cobrada pelo site Vaquinha Social de forma que todos os valores doados serão destinados aos índios.

Quem quiser colaborar, pode contribuir aqui.

Situação de miséria em aldeia comoveu economista, mas não é citada por políticos locais em reação (Foto: Divulgação)