No artigo “Geopolítica do mal”, o filosofo e jornalista Mário Pinheiro conta a influência e o papel da França e da CIA, agência de espionagem dos Estados Unidos, nas atrocidades praticadas pelas ditaduras no mundo, como os países da América Latina, inclusive o Brasil, África e Oriente Médio. Os franceses foram bárbaros contra a resistência pela independência argelina.

“Sabia-se que o filósofo militante Albert Camus havia assumido a causa da libertação na Argélia e que o pensamento político de intelectuais franceses levou muitos decênios para defender a causa argelina. A França não queria entregar a Argélia, era preciso continuar o ciclo da colonização, sugar as riquezas. Mas Camus morre tragicamente num acidente de carro em 1960, antes da libertação argelina”, narra.

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“Mas os soldados franceses, para humilhar os argelinos, sobretudo muçulmanos, executavam os resistentes, cortavam o pênis e enfiavam na boca do falecido, depois publicavam as fotos como forma de aviso. Mas Robin também descreve que a experiência e a prática de jogar pessoas de pés e mãos atados no mar, às vezes com bloco de cimento nos pés, não é invenção dos oficiais argentinos e as piores crueldades cometidas contra a resistência é um aprendizado made in France”, lembra, citando detalhes cruéis.

“As bases americanas estavam estabelecidas no Panamá com o intuito de “ideologizar e doutrinar” os militares brasileiros e sul-americanos contra o “perigo comunista”. Preocupação de gente besta. Os experts franceses eram convidados especiais para ensinar táticas de interrogatório e estiveram no Brasil, Chile e Argentina. O desaparecimento de líderes da oposição foi inaugurado pelos franceses na batalha da Argélia. A França criou os esquadrões da morte.

“Hoje, a imprensa pena para encontrar as razões da existência dos talibãs no Afeganistão. O mundo pira com a ideologia do bem e do mal, mas segundo os ex-diretores da CIA, tudo aquilo é obra da inteligência americana”, lembra.

Confira o artigo na íntegra:

“Geopolítica do mal

Mário Pinheiro, de Paris, na França

O documentário da jornalista francesa Marie-Monique Robin, “Esquadrões da morte: a escola francesa”, revela um trabalho de garimpagem científica sobre a verdadeira escola de tortura. Esta especialidade francesa foi um aprendizado na arte de fazer mal, se desenvolveu durante a guerra da Argélia (1954-1962) em que os resistentes argelinos que lutavam pela libertação serviram de cobaias para os mais diversos tipos de sevícia, estupro, humilhação e decadência das forças morais. Os oficiais das três forças armadas testemunham neste documentário, tecendo realidade há tempos ocultada aos meios de comunicação.

Sabia-se que o filósofo militante Albert Camus havia assumido a causa da libertação na Argélia e que o pensamento político de intelectuais franceses levou muitos decênios para defender a causa argelina. A França não queria entregar a Argélia, era preciso continuar o ciclo da colonização, sugar as riquezas. Mas Camus morre tragicamente num acidente de carro em 1960, antes da libertação argelina. O filósofo Michel Onfray dedicou um livro a Albert Camus, intitulado “A ordem libertária”, onde ele tece toda ligação do escritor com seu país natal. Onfray relata os laços de ternura entre Camus, seu passado, os momentos em que bebia do amor maternal.

Mas os soldados franceses, para humilhar os argelinos, sobretudo muçulmanos, executavam os resistentes, cortavam o pênis e enfiavam na boca do falecido, depois publicavam as fotos como forma de aviso. Mas Robin também descreve que a experiência e a prática de jogar pessoas de pés e mãos atados no mar, às vezes com bloco de cimento nos pés, não é invenção dos oficiais argentinos e as piores crueldades cometidas contra a resistência é um aprendizado made in France.

No país dos “direitos humanos”, Helder Camara discursou em maio de 1970 diante de uma multidão de franceses ávidos por notícia da ditadura e da tortura brasileira. Camara expôs as vísceras do poder militar e do medo que eles impunham nos brasileiros. Em sua volta ao Brasil, ele foi proibido pelos generais de falar com a imprensa. Tudo era proibido.

O povo, que vivia de salário de arrocho, capengava diante da crueldade tanto de oficiais do Exército, quanto de milicos e delegados formados na escola do mal. Infelizmente, hoje há tantos cantores “sertanojos” e mal informados que negam a existência tanto do militarismo sobre a maldade que causaram.

Havia corrupção, mas o povo não podia dizer nada. O esquadrão da morte também agiu no Brasil, sequestrava pessoas e desaparecia com elas, torturava, matava e jogava o corpo em lugares ermos. A estupidez militar calava a reclamação popular na cadeira do dragão, no pau de arara, etc. Mas os militares brasileiros sempre estiveram de joelhos aos americanos.

As bases americanas estavam estabelecidas no Panamá com o intuito de “ideologizar e doutrinar” os militares brasileiros e sul-americanos contra o “perigo comunista”. Preocupação de gente besta. Os experts franceses eram convidados especiais para ensinar táticas de interrogatório e estiveram no Brasil, Chile e Argentina. O desaparecimento de líderes da oposição foi inaugurado pelos franceses na batalha da Argélia. A França criou os esquadrões da morte.

Desta forma, os sociólogos franceses Yves Dezalay e Bryan Garth, no livro “A mundialização das guerras de palácios”, confirmam que os EUA tiveram papel importante a partir de 1950 no Brasil e na maior parte dos países latinos no interesse de “investir” na educação superior. De fato, alguns chilenos foram premiados com vagas nas melhores universidades americanas e depois ocuparam cargos importantes na ditadura de Pinochet, Stroessner e Banzer. O objetivo americano, de acordo com Dezalay e Garth, era mergulhar nas ajudas filantrópicas, como as fundações Rockefeller e Ford, geradas no início pela CIA. A Fundação Ford rompe com a CIA e se torna uma força de oposição.

A inteligência americana derrubava governos em nome do interesse financeiro e político. O chefe da CIA era sempre o presidente americano. Por trás desta cortina de aparência cortês estava a guerra fria. Um exemplo macabro nos lembra a eleição de Jacobo Arbenz na Guatemala de 1953. O pano de fundo da eleição de Arbenz era a reforma agrária porque 2,2% dos proprietários rurais detinham 70% das terras cultiváveis. A Guatemala era a maior produtora de banana e frutos tropicais, pertencentes aos irmãos John Foster Dulles e Allen Dulles. Eles eram sócios majoritários da United Fruit Company.

Mas os “brothers” Dulles ocupavam cargos importantes no governo Eisenhower e as terras monopolizadas por americanos não seriam nacionalizadas. No lugar de Arbenz, Allen Dulles, então diretor da CIA, colocou uma junta militar na responsabilidade de um amigo fantoche. A ditadura matou na Guatemala centenas de milhares de camponeses. Alguns anos mais tarde, Cuba sofreria as mesmas investidas da CIA e Fidel Castro teria escapado de mais de vinte tentativas de assassinato. O governo americano até tentou, inutilmente, convencer Ernest Hemingway a envenenar Castro, mas o autor de “Por quem os sinos dobram” era apaixonado por Cuba e jamais faria essa tolice.

A revista Time não deu nenhum crédito sobre a responsabilidade americana no complô da Guatemala. Já o New York Times foi menos cínico, de acordo com o ex-funcionário de Estado Americano, William Blum, e deixou correr rumores de golpe indicando que aquilo não fora uma reunião sindical de líderes comunistas.

Hoje, a imprensa pena para encontrar as razões da existência dos talibãs no Afeganistão. O mundo pira com a ideologia do bem e do mal, mas segundo os ex-diretores da CIA, tudo aquilo é obra da inteligência americana. A contraespionagem da CIA criou os grupos de resistência afegã contra a invasão russa de 1979, armou os rebeldes da mesma forma como fez a CIA de Ronald Reagan com os contras da Nicarágua.

O resultado pró-americano é que Osama Bin Laden foi cooptado para ser espião ao lado do bem nos EUA, desertou e dizem que destruiu as duas torres gêmeas. Depois dos talibãs, a Al-Qaida fez sua aparição, e segundo Gilles Kepel, especialista do mundo árabe, em tudo tem a mão americana da CIA. O Chade, Sudão, Etiópia, Emirados Árabes, Arábia Saudita, assim como Iraque e Paquistão, entre outros, são capitaneados pela CIA.

A América latina é ainda mais fácil porque os líderes de direita são entreguistas, avarentos e pretenciosos. Se o chefe da CIA visita o Planalto esta semana, com certeza não é para verificar a cor dos dentes amarelos do presidente, nem sua participação direta nas rachadinhas. Nos EUA, que seja democrata ou republicanos no poder, o interesse em dominar os outros pela espionagem, escuta telefônica ou outros meios é o mesmo. Para quem já teve acesso ao documentário de Edward Snowden, sabe-se que a CIA mantém vários programas de vigilância e escuta, por exemplo, Angela Merkel, Dilma Roussef, François Hollande estavam grampeados, entre outros tantos líderes.

Para o Afeganistão foi imposto a mudança de regime pela força em Kabul e hoje foram abandonados. A democracia americana não é símbolo do bem e exemplo a ser seguido por países de cultura muçulmana.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.