No artigo “Meditações cartesianas e o jegue em Brasília”, o filosofo e jornalista Mário Pinheiro recorre aos pensadores como Réné Descartes e Blaise Pascal  para analisar a situação e fazer meditações cartesianas sobre a política brasileira.

“Neste caso, a metodologia cartesiana parte do princípio de que nada é absoluto, nem eterno, mas efêmero. E onde é que se encaixa o jegue em Brasília? É justamente pela falta de reflexão, do caráter humano, além do humano, como diria Nietzsche. O paradoxo é que o jegue não está ancorado na realidade, não tem o bom discurso, desconhece a linguagem impecável, o conhecimento histórico, não é culto, nem educado, muito menos cortês”, pontua.

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“Ele prefere a caverna de Platão aos que o seguem, sem fazer uso da lógica de Aristóteles nem de Descartes. Estas características podem estar presentes naquele que acolhe o conhecimento, cultua a liberdade de espírito, respeita o ser humano e considera o outro sem atropelos ufanistas e grosseiros, é evidentemente a oposição”, afirma.

“O pai do racionalismo, Descartes, perderia os cabelos diante da falta de sentido e de razão de um jegue em Brasília, mas cometeria suicídio com toda lógica ao ver uma plêiade ou uma tropa de pequenas pessoas a segui-lo”, critica, sem nomes dos políticos brasileiros.

Confira o artigo:

“Meditações cartesianas e o jegue em Brasília

Mário Pinheiro, de Paris, na França

Réné Descartes, matemático e filósofo, autor das meditações metafísicas e do discurso dos princípios da filosofia, deixou uma lista enorme de dúvidas a serem resolvidas, adotadas, para interagir o pensamento e a razão na chamada fenomenologia do espírito desenvolvida por Edmund Husserl. O caminho a seguir é florido de discussões, evidências, experiências naturais e da própria existência. Para Husserl, o objetivo é apreender a realidade num estudo sistemático dos fatos, a noção do que existe. O método de compreensão é simples.

Por exemplo, quem sempre esteve colado a armas, disciplina draconiana, digamos besta e bruta num complexo militar, obedecendo e fazendo flexões, se o sujeito se torna político, mesmo que seja desequilibrado, vai querer enfiar arma em toda casa, levar uma penca de fardados consigo, montar uma milícia, rodear-se de lambe-botas num objetivo violento, de guerra civil, de acomodação no poder e com salário graúdo, acima do normal. Na meditação cartesiana, esse tipo de pessoa se torna um verme ambulante, não acrescenta nada ao nada que ela significa.

Neste caso, a metodologia cartesiana parte do princípio de que nada é absoluto, nem eterno, mas efêmero. E onde é que se encaixa o jegue em Brasília? É justamente pela falta de reflexão, do caráter humano, além do humano, como diria Nietzsche. O paradoxo é que o jegue não está ancorado na realidade, não tem o bom discurso, desconhece a linguagem impecável, o conhecimento histórico, não é culto, nem educado, muito menos cortês.

Ele prefere a caverna de Platão aos que o seguem, sem fazer uso da lógica de Aristóteles nem de Descartes. Estas características podem estar presentes naquele que acolhe o conhecimento, cultua a liberdade de espírito, respeita o ser humano e considera o outro sem atropelos ufanistas e grosseiros, é evidentemente a oposição. Evidência e intuição se encontram na meditação cartesiana.

A intuição, ensinada por Henri Bergson, fez falta no momento de escolher o gênero do mundo animal, e a facilidade, embrenhada de falsidade e mentira, optou pelo jegue. Esse jegue não tem nada de matemático, mas chama seus filhos pelos números. Ora, o verdadeiro jegue, aquele que vive no pasto, não pensa, não raciocina, somente rumina, é quadrúpede, generoso, dócil, obediente, trabalhador, enfim, uma criatura divina por ter carregado Jesus nas costas.

Já o jegue bípede é estranho, dúbio, turvo como água barrenta, estúpido e ama odiar e espalhar a divisão, e, como um verdadeiro animal, dá coices ininterruptamente, nega a realidade e é logicamente irracional. O pai do racionalismo, Descartes, perderia os cabelos diante da falta de sentido e de razão de um jegue em Brasília, mas cometeria suicídio com toda lógica ao ver uma plêiade ou uma tropa de pequenas pessoas a segui-lo.

A razão e o desrazoável constituem a fenomenologia, mas abusar da inteligência de outrem é fugir da meditação lógica do compromisso de governar. A experiência, segundo Descartes, no senso vulgar do termo, é um caso especial da evidência. Mas há evidência clara de vazio, de abstrato, de completa falta de conhecimento, “não entendo de saúde, de economia, de inflação, de ciência, de educação”, enfim, de nada, e neste caso é melhor pedir para defecar, dar uma desculpa deslavada de disenteria e ir embora. Mas a evidência é essencial na vida, ela nos coloca de frente com a realidade, com o carisma, a união, a solidariedade em tempo de penúria. A evidência é contra sair espalhando o sorriso amarelo num tempo em que a morte passeia por todo canto.

Descartes ficou completamente extasiado, entusiasmado pelo brilhantismo do jovem Blaise Pascal quando fez seu conhecimento. Pascal é o mestre da razão e da intuição do coração, ele coloca em dúvida, mas aceita, o cepticismo do filósofo grego do terceiro século, Pirrone. Pascal é autor da frase “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, mas é impossível conceber e aceitar que pastor condenado pela justiça, cujo processo decorre em sigilo, seja elevado ao grau de embaixador num país africano, isso é brincar com o mais baixo nível da razão, uma provocação contra a corte suprema.

Na verdade, o jegue deseja tirar o cordeiro vestido de lobo da jaula da justiça. É a ideia do absurdo tanto discutida por Albert Camus, mas diferente de Sísifo que recebeu a pedra redonda para empurrar até o cume da montanha. O absurdo está na provocação e continuidade tanto da negação quanto na falta de escola e raciocínio.

As meditações cartesianas nos legam a responsabilidade do método. Método é parecido com projeto, e projeto o jegue não tem, porque desejar continuar num posto presidencial contra a vontade do povo, mudando regras de eleição, isso não é democracia, é comodismo aliado da ditadura.

Husserl destaca que o idealismo, assunto sempre julgado como esquerdista, faz parte da fenomenologia transcendental porque se baseia em projetos. Tanto Descartes quanto Husserl estão distantes da estigmatização que a direita faz do idealismo. O jegue real sabe o caminho, o fardo que carrega, mas o de Brasília conhece o endereço do banco, do aeroporto e do cercadinho.

Para Descartes penso, logo existo (cogito, ergo sum), mas para outros que estão distantes do pensamento e da lógica, tudo é levado e empurrado com a barriga, ignorando o que for possível. Husserl, que trata da fenomenologia cartesiana, conclui que existe necessidade de crítica da experiência e de conhecimento transcendental.

Ele fala da virtude, da evidência, da exigência de autocrítica e que preferimos escapar dos grandes problemas que afetam a ingenuidade. Em geral, o povo desconhece as discussões importantes sobre a ideia cartesiana e deslizam facilmente num viés de fácil ilusão para esconder-se: a ignorância sem nenhuma reflexão.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.