No artigo “Papel e poder da imprensa escrita”, o filosofo e jornalista Mário Pinheiro mostra a importância e o poder da imprensa ao longo da história para reprimir, mas também para reagir ao fascismo, ao nazismo e à ditadura no mundo. “Perante a realidade e a fatos injustos contra o cidadão comum, a questão é saber se a imprensa realiza seu papel corajosamente com a verdade ou ela se ajoelha àquele que manda e paga”, questiona.

“Felizmente nem todos agem da mesma forma. Émile Zola, por exemplo, quando percebeu a perseguição injusta contra o militar judeu Alfred Dreyfuss, escreveu o famoso J’accuse (eu acuso) em forma de carta, desmascarando a covardia presente no campo militar e político no tempo do presidente Felix Faure. J’accuse acabou por revelar a existência do antissemitismo”, conta.

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“Nos tempos da ditadura, a imprensa foi controlada, proibida, teve ao menos 50 casos de jornalistas perseguidos durante o regime. No entanto, alguns tiveram sorte e voltaram para casa, enquanto Vladimir Herzog saiu para depor, foi torturado e teve sua morte maquiada em suicídio”, relembra.

“Se a imprensa usar seu poder de informação de maneira séria, ética e compromissada com a verdade, os carrascos da liberdade de expressão terão de reinventar a mentira e o golpe”, conclui.

Confira o artigo:

 “Papel e poder da imprensa escrita

Mário Pinheiro, de Paris, na França

Na antiguidade, as informações literárias, políticas e militares eram veiculadas pelo mensageiro dos deuses do Olimpo, Hermes, modelo mítico do jornalismo. Ele liga o mundo dos homens ao do inferno informando e buscando a verdade. Virgílio descreve Hermes como um pássaro através dos ventos e nuvens. Mas o mundo avançou e Hermes é alegoria do passado. 

A imprensa deve sua existência a Gutemberg, mas ela aprendeu a andar sozinha, descalça entre os percalços e conflitos sociais. Na ótica da sociologia, o jornalismo é visto como opaco, submisso a pressões, atado sempre às ordens de quem ordena e paga. Não, o jornalismo não é meretriz, mas tem preço.

Quando o sujeito entra na confiança do chefe de redação, resta saber se a verdade será sempre dita ou subtraída nas subvenções do político que se acha dono da linha editorial. Os grandes jornais deveriam ser autônomos, mas eles já não vivem de venda. Perante a realidade e a fatos injustos contra o cidadão comum, a questão é saber se a imprensa realiza seu papel corajosamente com a verdade ou ela se ajoelha àquele que manda e paga.

Felizmente nem todos agem da mesma forma. Émile Zola, por exemplo, quando percebeu a perseguição injusta contra o militar judeu Alfred Dreyfuss, escreveu o famoso J’accuse (eu acuso) em forma de carta, desmascarando a covardia presente no campo militar e político no tempo do presidente Felix Faure. J’accuse acabou por revelar a existência do antissemitismo.

Mas Dreyfuss foi deportado para a Ilha do Diabo por ter sido considerado traidor da Pátria. Ele perdeu, além da farda, a espada, a graduação durante a cerimônia de ódio em que a multidão cuspia ao vê-lo, foi torturado, mas manteve a honra e a serenidade. J’accuse, de Zola, causou perplexidade e abriu as feridas plenas de vermes e lacunas das tropas oficiais francesas impregnadas pelo racismo. Dreyfuss foi reintegrado.

Imprensa, liberdade e imparcialidade

Para Nietzsche a imprensa desvia a atenção do indivíduo daquilo que é importante, institui um reino fútil e insignificante. Ele diz que a leitura cotidiana favorece a ditadura da opinião. Não precisamos estar de acordo com o filósofo alemão.

A escrita e denunciação faz parte de Albert Camus, que trabalhou no jornal clandestino Combate durante a ocupação nazista. O título do jornal não necessita explicação, porque era preciso combater tanto os nazistas quanto os franceses colaboracionistas. O teor do informativo era de movimento de resistência.

Camus não se tornou jornalista por acaso. Ele denunciava, amava o jornalismo e considerava a escrita como um combate para a verdade e a independência. O jornal era militante. A Escola de Frankfurt, que também acolheu críticos sociais e econômicos, criticava também o comportamento da imprensa para formar pessoas com maior capacidade humana.

Afinal, jornalismo e filosofia questionam e trabalham juntos na esfera social. Esta escola nos revelou Jürgen Habermas, o filósofo voltado para as comunicações, a política e o espaço público. Ele critica a censura e se mostra admirador de Voltaire, que lutou pela liberdade de expressão, mas foi exilado pela monarquia. Habermas é também discípulo de Kant, da filosofia alemã e grande crítico da imprensa. Ele rompe com a Escola de Frankfurt e desenvolve outras áreas de questionamento do campo social.

Hoje também é preciso resistir contra a política de extrema direita e o problema não é apenas ideológico, mas de ausência de empatia e inteligência. O Brasil não precisaria pelo cenário político atual se o tribunal militar tivesse feito seu trabalho com mais seriedade. Se o capitão não apenas fosse catapultado da corporação por desequilíbrio mental, mas banido e preso, talvez não vivêssemos essa situação vergonhosa. Hoje há setores da imprensa que se faz de sonso ao jogar confetes e ao compactuar com a decadência.

Alexis de Tocqueville dizia em 1840, nos Estados Unidos, que a imprensa escrita era a primeira potência. Mas nos “esteites” é preciso levar em conta que os jornais diários clamam o governo ao respeito e conciliação. As fotos e reportagens sobre a guerra do Vietnam tiveram um papel tão importante da opinião pública americana ao ponto de mudar a estratégia de comunicação na Guerra do Golfo, que passou a ser filtrada e realizada por militares.

Este olhar crítico se divide, mas o New York Times não perdoa o governo americano que explora e oprime a América Central e publica as reportagens sobre a perseguição aos jesuítas e camponeses de El Salvador. O país era governado por uma junta militar aliada dos americanos na qual morreu assassinado em plena missa o arcebispo Oscar Romero.

Ronald Reagan, com a CIA fazendo o papel de regente do tráfico de drogas na Nicarágua, permitiu o envio de mais de 100 mil dólares em armas aos contras, mercenários contratados na vizinha Honduras, El Salvador e Costa Rica. O objetivo era derrubar o governo de Violeta Chamorro, odiado pelos Estados Unidos, com guerrilhas urbanas e rurais. O poder político americano nunca aceitou a revolução sandinista e impuseram o embargo econômico.

Na Polônia havia o padre Jerzy Popieluszko raptado pelo regime comunista  que era odiado pelos EUA como se fosse o diabo em pessoa, enquanto na América do Sul, ao mesmo tempo, 138 religiosos, entre eles vários americanos, foram assassinados por forças militares aliadas da potência estadunidense. O foco foi dado ao padre. A imprensa escrita norte-americana se dividiu no imbróglio político-social da América do Sul, se calou muitas vezes, mesmo quando as vítimas eram compatriotas, relatam Noam Chomsky e Edward Herman na Fabricação do Consentimento.

No Brasil, quem não acompanha a história enquanto sujeito acaba por se tornar objeto dela, manipulável feito marionete sem massa cinzenta. E tudo cai no esquecimento com tamanha velocidade. Nos tempos da ditadura, a imprensa foi controlada, proibida, teve ao menos 50 casos de jornalistas perseguidos durante o regime. No entanto, alguns tiveram sorte e voltaram para casa, enquanto Vladimir Herzog saiu para depor, foi torturado e teve sua morte maquiada em suicídio.

Os carrascos nunca assumiam o papel do sofrimento que causavam aos outros, o nome disso é parecido com desvio de personalidade. Não se pode esquecer que a maldade ditatorial, o cinismo e frieza deles é constante e sem limites.

Para que a democracia revivesse, muitos foram desfigurados em sessões de sofrimento e sevícia. São resquícios e herança de uma imprensa deslavada de vergonha, que sofreu punições terríveis durante a ditadura e não aprendeu. Dreyfuss jamais ameaçou jogar bombas no quartel como fez o capitão dos dentes amarelos.

Se a imprensa usar seu poder de informação de maneira séria, ética e compromissada com a verdade, os carrascos da liberdade de expressão terão de reinventar a mentira e o golpe.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.