Juiz questiona ex-vereadora sobre mudança de postura: uma no Gaeco e outra diante da Justiça (Foto: Reprodução)

Uma das principais testemunhas do histórico julgamento da Coffee Break, a ex-vereadora Luiza Ribeiro (PT) mudou o tom do depoimento, recuou das acusações contra os vereadores e acabou surpreendendo até o juiz. Na nova versão, apresentada durante 76 minutos na terça-feira (25), a aliada de Alcides Bernal (Progressistas) deixou de ver “crime” na articulação e cassação do ex-prefeito por parte dos 23 vereadores.

A nova versão, que também coincide com a troca do PPS (Cidadania) pelo PT, agradou o batalhão de advogados dos 24 réus. “Sim, ela mudou de lado. Claramente”, confidenciou um dos defensores, em off. No depoimento ao Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), Luiza detonou os vereadores e foi contundente nas acusações.

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“Evidente que ela não manteve a palavra, o firme e detalhado depoimento ao MP não foi repetido, mas acabou não conseguindo negar vários pontos concretos, como a interferência de João Amorim e outros detalhes relatados”, avaliou uma outra fonte. “Nitidamente algo fez com que agora mudasse”, concluiu.

A nova postura de Luiza levou a uma observação inusitada por parte do juiz David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos. “Claramente, são duas pessoas totalmente diferentes. No Gaeco, a senhora foi mais dura, mais explícita. Agora, um pouco mais suave, mais cautelosa”, observou. “O que mudou?”, indagou o magistrado.

Ao se justificar, a petista alegou que há uma grande diferença entre falar ao Ministério Público e à Justiça. “Não são duas pessoas, só não sou irresponsável”, justificou-se. Conforme a ex-vereadora, ao Gaeco, ela tinha a liberdade de ser “mais incisiva” e “liberdade nas palavras”. Ao Poder Judiciário, por outro lado, não poderia repetir os termos usados no depoimento.

Para ex-aliada, cassação de Bernal foi movimento político natural e norma (Foto: Arquivo)

Sobre os 23 vereadores que votaram pela cassação de Bernal, na versão apresentada ao MPE, Luiza disse que “todos tiveram falta ética gravíssima”, “se beneficiaram de alguma forma” e “considerava um absurdo”. Também tinha condenado Airton Saraiva (DEM) por falar em cassar o mandato de Bernal logo após a posse.

Ao juiz, Luiza Ribeiro afirmou que a cassação de Bernal foi “movimento natural da política”, assim como ocorreu com a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Também disse que a movimentação dos adversários, como Saraiva, era “atitude política natural”.

A ex-vereadora contou que a oposição a Bernal elegeu a maioria dos vereadores e representava outros grupos políticos, como MDB e DEM. Nem as dificuldades criadas pelo legislativo foram condenadas no depoimento. Ela passou a aprovar até a redução de suplementação de 30% para 5%. “Não acho errado, o prefeito tinha autonomia muito grande”, ressaltou.

“A Câmara passou a ter austeridade maior com o novo prefeito”, explicou Luiza, para alegria dos advogados de defesa. Ela também prestou depoimento como testemunha de defesa de João Amorim.

Luiza responde a perguntas de Arnaldo Puccini, advogado de João Amorim (Foto: Reprodução)

A testemunha chave apresentou outro entendimento em relação ao procurador jurídico da Câmara, André Scaff, conhecido como vereador sem voto. Ao Gaeco, ela relatou que ele foi nomeado por Gilmar Olarte como “garantidor dos acordos” feitos com os vereadores e empresários. “O André vai garantir tudo e o mais”, teria afirmado, conforme trecho lido pelo promotor Humberto Lapa Ferri.

Ao juiz, Luiza disse que “era desnecessária” a nomeação de Scaff, porque Olarte conhecia a Câmara. “Foi minha impressão”, alegou, sobre a mudança de termo. O promotor insistiu ao informar que o depoimento foi feito em setembro de 2015 e não no calor da cassação, em março de 2014, como a ex-vereadora tentou alegar.

“Não posso ficar presa às palavras, não posso”, repetiu Luiza, mudando a versão para a nomeação de Scaff. “Não vou afirmar isso em juízo”, frisou. Em seguida, ela disse que “André ficou mais distante da Câmara” como secretário municipal de Finanças e Planejamento.

Ainda sobre Scaff, ela teria dito que “ele era amigo de todo mundo, mas não tinha competência nem qualidade para ser secretário”, mas foi nomeado para “garantir a saída de dinheiro”. “Scaff foi desastre do ponto de vista financeiro para a cidade”, afirmou, sem repetir as acusações feitas ao MPE.

Sobre João Amorim, Luiza disse que não sabia se ele era o sócio oculto da Solurb. Na primeira versão, a então vereadora disse que ficou espantada com a reação dos colegas ao falar da coleta do lixo e criticar Amorim. À Justiça, ela disse que havia simbiose entre os políticos e a sociedade de Campo Grande com vários empresários, que seriam reverenciados. Não citou nomes.

No entanto, ela disse que todos entendiam de alguma forma que Amorim, preso pela Polícia Federal na Operação Lama Asfáltinha, tinha influência no lixo, no tapa-buracos, mas não o vinculou diretamente à Solurb. “Não posso falar sobre a influência sobre os vereadores”, relatou, destacando que só foi conhecer João Amorim ao encontra-lo em um supermercado.

Ao ser questionado pelo advogado Arnado Puccini Medeiros, se João Amorim era o dono da Solurb, ela disse que não sabia. “Eu não conheço a propriedade (da Solurb), era coisa corrente”, tergiversou. “Ouvi dizer que tinha ingerência”, destacou.

Sobre o relacionamento com Bernal, com quem foi fiel nas duas ocasiões que comandou a prefeitura, ela disse que “não o conhecia muito de perto”. “O Bernal era personagem forte da política e tinha intransigência em lidar com o que tinha convicção”, explicou. Na sua opinião, ao tentar cumprir a plataforma de campanha, ele acabou entrando em conflito com os poderosos da Capital. “A elite não vai tolerar grandes alterações”, afirmou.

O depoimento de Luiza Ribeiro acabou reforçando a tese da defesa dos réus na Coffee Break, de que a cassação de Bernal foi um movimento político e não criminoso. Para o MPE, políticos, vereadores e empresários agiram de forma criminosa para defender os seus interesses e não da população ao reassumir a prefeitura por meio de Olarte.

Os depoimentos das testemunhas de acusação e defesa continuam nesta semana. O julgamento vai terminar no dia 22 de junho deste ano. Duas testemunhas morreram e prestariam depoimento amanhã. O ex-vereador Cristovam Silveira (PSDB) foi brutalmente assassinado pelo caseiro e o deputado estadual Cabo Almi (PT) morreu em decorrência da covid-19.

Promotores Adriano Lobo e Humberto Ferri apontaram contradições no depoimento de Luiza Ribeiro (Foto: Reprodução)

Os depoimentos da semana:

  • segunda-feira (31), 9h – José Eduardo Amancio da Mota, Liliam Maria Maksoud Gonçalves e Ricardo Vieira Dias;
  • segunda-feira (31), às 14h – Júlio Bolsonaro Filho e Dorival Ribeiro de Oliveira Filho;
  • terça-feira (1), 9h – Elza Cristina Araújo dos Santos.
  • terça-feira (1), 14h – o vereador Ayrton de Araújo, o ex-vereador Paulo Francisco Pedra e o ex-secretário municipal de Finanças, Wanderlei Ben Hur da Silva.