Réu, Flávio Cesar falou por uma hora durante audiência da Coffee Break (Foto: Arquivo)

Traído pelas mensagens, o ex-vereador Flávio César (PSDB) falou por uma hora em audiência da operação Coffee Break e afirmou que o próprio Ministério Público, agora autor da denúncia de complô na cassação de Alcides Bernal (PP), pressionou os vereadores a tomarem medidas contra o gestor, sob o risco de responderem por prevaricação. Para o réu, que ocupa o cargo de secretário-adjunto de Governo e Gestão Estratégica, a cassação de Bernal foi um caminho natural diante das manchetes dos jornais sobre uma Campo Grande abandonada.

Flávio César, que foi relator da comissão processante contra o ex-prefeito, defende que o parecer pela cassação foi técnico e que Bernal fez contratações emergenciais para beneficiar empresas. Ele narra que havia um clamor coletivo da população, dos agentes públicos e de vários segmentos porque antes mesmo de assumir a prefeitura Bernal já “vinha criando problemas”.

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O ex-vereador afirma que a Câmara foi procurada pelo procurador Mauri Ricciotti, que ameaçou sobre o risco de a inércia ser enquadrada em prevaricação. “O Ministério Público nos procurou, nos ameaçou se não tomássemos atitude. A imprensa com manchetes da cidade abandonada. Nosso desespero era muito grande”, disse Flávio César.

Por diversas vezes, o ex-vereador foi questionado sobre as mensagens trocadas no período antes e depois da cassação. A proximidade com João Amorim e a influência do dono da Proteco Construções na política municipal foram negadas, mesmo diante de mensagens como a que encaminha para Amorim uma liminar da desembargadora Tânia Borges liberando o prosseguimento do procedimento para cassação de Bernal em 26 de dezembro de 2013. Ou quando em conversa reclama que André Puccinelli vetou seu nome para presidente da Casa de Leis mesmo com apoio de parlamentares e de Amorim.

Apesar de mensagens indicarem proximidade com o empresário, Flávio César relata um único encontro na casa de Amorim, mas que aconteceu em 2012, quando Nelsinho Trad ainda era prefeito. O ex-vereador disse que procurou familiares da primeira-dama Maria Antonieta – o irmão João Amorim, uma irmã e a mãe – para gravarem vídeos que seriam exibidos num encontro de casais, promovido pela igreja evangélica. Nesta época, Nelsinho e Antonieta estavam em processo de separação.

As mensagens lidas pelo juiz David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos da Capital, mostram agradecimentos por nomeações e também uma cobrança de Antonieta, que aparentemente não foi atendida com indicações na gestão Olarte, sendo tratada “como uma bosta”.

Sobre o recado de Antonieta, ele disse que já se passaram seis anos e não se recorda bem do detalhamento da mensagem. Já sobre os agradecimentos, relatou que pode ser que tenha conhecido “segurar” alguém durante a troca de prefeitos, onde é comum o novo fazer exonerações. Contudo, em outra fase do depoimento, negou ter influência em cargos.

O réu ainda refutou que tenha se reunido com vereadores para combinar voto, enquanto numa mensagem para Nelsinho Trad pede para que ele acione o irmão e Marquinhos  entre em contato com Coringa, então vereador, para não ter surpresa.

“Nunca trabalhei para pedir voto pela cassação. Tinha convicção que tudo foi apurado com lisura e transparência. Não tínhamos outro caminho”.

O ex-vereador confirmou que se reuniu em 23 de dezembro com o vice-prefeito Gilmar Olarte e com os vereadores Otávio Trad e Eduardo Romero, seus colegas de partido. Flávio César relatou que a reunião foi em sua casa, inclusive a esposa serviu suco para os convidados, e que a finalidade era saber os planos de Olarte para a cidade.

Patrimônio

De acordo com ele, já era de conhecimento público, amplamente divulgado pela imprensa, que os três vereadores eram favoráveis à cassação de Bernal, portanto nem teria lógica pedir algo de Olarte em troca do voto.

Em 2015, relatório de inteligência financeira registrou a compra de um apartamento em nome de Flávio César no valor de R$ 560 mil no dia 4 de junho de 2014, mas  a transação  foi considerada incompatível com sua renda.  Na audiência, ele  justificou que emprestou o nome.

“Esse apartamento foi mais do que justificado, emprestei meu nome para o meu irmão, que tinha problemas no Serasa. No fim das contas, nem levou isso para frente, acabou perdendo o apartamento. Nunca comprei esse apartamento”.

Flávio afirmou que mora há anos num apartamento de 96 metros quadrados e tem veículo financiado.