Richelieu de Carlo e Edivaldo Bitencourt
Cafezinho de João Amorim tem colocado ex e atuais vereadores em saia justa no julgamento histórico da Coffee Break (Foto: Arquivo)

Interceptações telefônicas da Polícia Federal estão complicando os vereadores no histórico julgamento da Operação Coffee Break, que começou na terça-feira (18) na 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos. Eles insistem que a cassação do prefeito Alcides Bernal (Progressistas) foi resultado de atuação política, mas não conseguem explicar ou se contradizem sobre os diálogos telefônicos com o poderoso empresário João Amorim, suspeito de ser sócio oculto da Solurb.

A maratona de depoimentos dos réus no histórico julgamento da Operação Coffee Break chega à metade nesta primeira semana de interrogatórios. De acordo com fonte ouvida por O Jacaré, os parlamentares acusados de atuar na cassação de Bernal em busca de interesses próprios, em 2014, acabam por cair em contradição quando confrontados com fatos concretos usados como provas. “Os vereadores são todos acionados constantemente por ligações do Amorim, principalmente”, revelou a fonte.

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O empresário João Alberto Krampe Amorim dos Santos, dono da Proteco Construções Ltda, é apontado como um dos articuladores do esquema “regado a cafezinho” que cassou o mandato do então prefeito de Campo Grande. A sócia do empresário, Elza Cristina de Araújo dos Santos, teve várias ligações interceptadas em que chama os parlamentares para o “cafezinho”. Para o Gaeco, o temo significava propina.

Durante o interrogatório comandado pelo juiz  David de Oliveira Gomes Filho, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, os vereadores são confrontados por gravações que demonstram Amorim com uma ingerência “muito grande” sobre os parlamentares durante o processo de cassação.

Diante disso, os depoentes acabam dando respostas “evasivas”, e dizem que atendiam o dono da Proteco apenas como um empresário como qualquer outro. Chama a atenção dos investigadores, porém, a frequência das ligações entre Amorim e os parlamentares, e também a intimidade demonstrada nas gravações, nas quais o empresário se convida ou diz estar a caminho para ir à casa de alguns edis.

Outros questionamentos feitos durante o interrogatório dizem respeito a esclarecimento de dúvidas, como as ligações para “combinar o cafezinho” e o que era tratado nestes momentos, outro ponto bastante contraditório, já que os investigados dizem que tratavam de negociações particulares, como compra e venda de gado.

Nessas mesmas datas, a investigação descobriu depósitos de altos valores na conta dos negociadores, sem comprovação formal do negócio ou justificativa para o montante. Um dos interrogados chegou a dizer que o dinheiro era fruto de empréstimo com parente.

Até a manhã desta quinta-feira (20), foram ouvidos os ex-vereadores Mário César (MDB), Flávio César (PSDB e atual secretário-adjunto do Estado de Governo), Airton Saraiva (DEM), e Waldecy Batista, o Chocolate; e os vereadores Gilmar Nery da Cruz (Republicanos) e Carlos Augusto Borges, o Carlão (PSB), atual presidente da Câmara, que fazem parte da atual legislatura da Câmara Municipal de Campo Grande.

Também foram ouvidos o empresário Carlos Eduardo Naegele, dono do Midiamax; os autores do pedido de impeachment, Raimundo Nonato, e o advogado Luiz Pedro Guimarães; e André Luiz Scaff, ex-secretário municipal. Os dois últimos também foram confrontados com áudios do processo.

O ex-governador do Estado André Puccinelli (MDB) também tinha depoimento marcado para esta semana, mas uma decisão do Superior Tribunal de Justiça livrou o emedebista de ser interrogado na última terça-feira (18), quando começaram as oitivas.

A defesa do empresário Carlos Naegele tentou usar a mesma manobra para beneficiá-lo, mas o STJ recusou o pedido, porque o dono do Midiamax já estava sendo ouvido pelo juiz David de Oliveira Gomes Filho, conforme despacho da ministra Assusete Magalhães.

Pedido negado

A defesa do empresário João Amorim ingressou com pedido para suspender o depoimento da ex-vereadora Luiza Ribeiro (PT) no julgamento. Os advogados solicitaram que o juiz considerasse o depoimento prestado pela ex-vereadora na ação criminal, que teria sido realizado no dia 28 de novembro de 2019. O vídeo com o depoimento, feito em sigilo, foi juntado ao processo de improbidade administrativa. A justificativa era de que isso aceleraria o processo.

O Ministério Público Estadual se opôs ao pedido, pois também arrolou a petista como testemunha e que são outros fatos e tem interesse em questioná-la pessoalmente. O juiz David de Oliveira Gomes Filho negou o pedido da defesa de Amorim.

“Nos parece que, apesar do elevado número de testemunhas para serem ouvidas nos próximos dias, apesar da existência desta prova emprestada, apesar do pedido da defesa atender a questão da economia processual e celeridade, não há como tolher o direito do autor de arrolar testemunhas. São bons motivos, mas não o suficiente. Por estes motivos, rejeito o pedido de dispensa da testemunha arrolada também pela acusação, sem prejuízo de que, no decorrer desta longa audiência de vários dias, esta questão seja reapreciada sob outro enfoque.”, decidiu David Filho.

Puxão de orelha

Outro ponto curioso ocorrido durante os depoimentos foi o ‘puxão de orelha’ do juiz David Filho na defesa de um dos réus. Isso ocorreu porque os depoimentos devem ser presencialmente no Fórum do Tribunal de Justiça e “não à distância como ocorreu hoje [quarta-feira, 19] com o requerido Luiz Pedro Guimarães”. A defesa do advogado acabou sendo advertida pelo ocorrido.

Carlão, presidente da Câmara de Campo Grande, foi interrogado como réu nesta quinta-feira (Foto: Arquivo)