Maristela Bruneto
Mário durante protesto em Paris: ele apostou tudo em um sonho que deu certo (Foto: Arquivo Pessoal)

Em setembro de 2000, o filósofo e jornalista Mario Doraci Pinheiro pediu demissão do emprego de assessor de imprensa da OAB (Ordem dos Advogados) em Campo Grande, vendeu o que podia e embarcou num sonho. Depois de enviar vários projetos sem resposta, ele havia recebido um “sim” da prestigiosa universidade da capital francesa Paris 9, para fazer Mestrado na área de Sociologia da Comunicação.

Foi uma trajetória sofrida, na qual enfrentou privações, até frio e fome, para alcançar o título, sem contar com bolsa ou financiamento estudantil e sem poder trabalhar. Para se pacificar com esse período de tanta dificuldade, Pinheiro escreveu o livro A Resistência Coroada.

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O autor narra todas as experiências na terceira pessoa, vividas pelo personagem José. As poucas reservas de dinheiro, com a venda do carro, a urgência de estar logo em Paris, a falta de acomodação, dormidas em estação de metrô, o frio cortante europeu, a grana curta até para comer e comprar roupas e calçados adequados para as baixas temperaturas.

Houve momento dramático em que o jornalista chegou a revirar o lixo em busca de alimento. No livro, descobre-se que algumas pessoas foram solidárias para tornar esse período menos tortuoso.
Muito está no livro. “Sim, eu vivi tudo aquilo, mas há situações que estão fora ou com menos enfoque e atenção, como a discriminação, a falta de grana, o meu direito a certa ‘ajuda’ do governo francês, que não consegui obter por não estar em dia com a situação de estudante”, conta Pinheiro.

Por estar inicialmente como clandestino, além dos serviços sociais, ele ficava impedido de trabalhar e obter alguma renda. O que se regularizou posteriormente, tendo inicialmente trabalhado como vigilante em museus.

Aos poucos, Pinheiro conseguiu construir uma rotina e se adaptou à vida na França. Casou-se, começou a trabalhar com educação, com alunos com deficiência ou dificuldade de aprendizagem, o que faz até hoje. O filósofo ainda fez Doutorado na mesma universidade, estudando Ciências Políticas.

O título do livro reflete como Pinheiro se vê hoje, com seu esforço coroado. A inquietude que o levou a atravessar até outro continente para se aprofundar na filosofia e outras ciências humanas acompanha-o sempre.

O ápice do sonho: formatura no doutorado (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi esse o motivo que o levou a revisitar seus estudos e a escrever artigos para O Jacaré. “Me divirto ao dividir minha incompreensão no quadro politico brasileiro. E isso me ajuda a ‘fuçar’ os livros que já li, a recompor uma mensagem mesmo que seja considerada diferente”, comenta. Além disso, ele também compartilha um pouco de seu conhecimento em um ateliê de literatura para ajudar jovens a fazer redações para ingressar na universidade.

Ensinar nas universidades brasileiras foi um desejo que ele tentou realizar, inscreveu-se em processos seletivos, buscou vaga como professor contratado, mas acabou não dando certo. “Entendi que não era pra mim”, resigna-se.

Portador de uma história de esforço, sacrifícios e recompensa, Pinheiro considera que se “embrenhar” no projeto do estudo no exterior sem apoio é uma utopia, mas encoraja aqueles que querem viver a experiência. “Sugiro aos interessados a vestirem a roupa da coragem, da teimosia e abrir seus próprios horizontes.”

Serviço:

Os textos do filósofo Mário Doraci Pinheiro são publicados no site O Jacaré aos sábados.

O livro A Resistência Coroada está à venda no Recanto das Ervas, custa R$ 20,00 e a receita da venda será doada para ações sociais. O livro pode ser adquirido mediante contato telefônico e encaminhado com acréscimo da taxa de entrega- fone: (67) 99247-7889.

Sem ajuda e após muita resiliência, ele acabou se firmando em Paris (Foto: Arquivo Pessoal)