No artigo “A morte no campo, capitalismo às avessas”, o jornalista e filosofo Mário Pinheiro critica o agronegócio responsável pelas queimadas na Amazônia e no Pantanal e pela destruição das comunidades indígenas. “Hoje, por questão de semântica, veio a palavra agrobusiness (agronegócio) no lugar de latinfundiário que assassina mais do que produz, e a sociedade aceita como se fosse a alavanca do progresso”, pontua.

“A minoria da elite é responsável pelas queimadas, pela diminuição das populações indígenas, ela o faz em nome da soja, do gado, do ouro, do poder, da influência política”, ressalta. “O mundo está às avessas e ninguém se deu conta. A desigualdade social é tamanha, e quando a educação virou a válvula propulsora dos pobres, a elite cansada de cruzar com vigia de prédio no aeroporto se deu conta de que era preciso cortar os limites, baixar os salários, dar um golpe”, afirma.

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“Essa é uma luta de classes, mas aquele que não tem classe se acha no direito de lutar pelo direito daquele que sempre humilha os pobres, e deixa a boiada passar”, alerta Pinheiro. “O eleitor sem cérebro e sem instrução aplaude e diz, esse sim fala bonito. Esse tipo de indivíduo que se fomenta no discurso de ódio é estúpido por nunca encontrar razão no que faz. O terror está por todo lado no Brasil, são crueldades inúteis da mesma maneira como existiu no período após a revolução francesa, criticados por Marx e Engels”, diz.

Confira o artigo na íntegra:

A morte no campo, capitalismo às avessas

(*) Mário Pinheiro, de Paris, França

Há tempos ouvimos dizer que o ser humano precisa pisar no outro para galgar os degraus da riqueza, da fama, do poder. Ter o necessário para cada dia tal e qual ensina a oração cristã do Pai-Nosso não basta. A tentação é encher, aumentar, enriquecer, invadir terras indígenas, meter as máquinas na área de latifúndio e sair pela tangente, depois vender ao Estado com preço exorbitante.

Marx chama isso de especulação e critica o direito natural de Hegel que era interpretado pela santa madre igreja. Dane-se o resto, o importante é comprar aquele carrão, desfilar em nome da família, da moral, e, sobretudo, contra o comunismo, porque o comunismo come criancinha e invade propriedade.

Mas sem se dar conta de que o invasor de propriedade é o sem-vergonha do empresário rural que se diz produtor, do grileiro malfortunado, do peão que se vende igual a Judas. As mortes no campo nunca interessaram, religioso e sindicalista rural não valem a bala do atirador de aluguel. Os índios, coitados, foram vilipendiados pelo português e continuam perdendo suas culturas, suas áreas, o respeito, a vida, porque o poder público não os vê como gente, ignora-os.  

O latifundiário era mal visto, ele invadia, pagava os jagunços para o trabalho sujo, matava, impunha o horror, o Estado passava a mão na cabeça do ordinário. Hoje, por questão de semântica, veio a palavra agrobusiness (agronegócio) no lugar de latinfundiário que assassina mais do que produz, e a sociedade aceita como se fosse a alavanca do progresso. A minoria da elite é responsável pelas queimadas, pela diminuição das populações indígenas, ela o faz em nome da soja, do gado, do ouro, do poder, da influência política.

O agronegócio é o ócio de seis balas nas costas, do fogo queimando a plantação do ribeirinho, é o assassinato para o qual a sociedade fecha os olhos, numa palavra, acovarda-se. Há  uma luta de classes sem nome, mal compreendida. Antes era o rico, o milionário contra o pé-rapado que perdia todas porque valia somente a palavra do grã-fino dotado de saber, mas hoje o saber se democratizou, por isso é preciso baixar o nível da escola, emburrecer o caboclo para melhor dominá-lo como se fosse um cavalo chucro. Parece que nada mudou.

Nos tempos da ditadura havia tanta invasão, expulsão, índio morria por protestar. Durante o governo Médici se instituiu o plano de integração nacional (1969-1970) para ocupar a Amazônia, abrir estradas em território indígena, por isso nasceu a igreja resistente de dom Balduino e Casaldáliga que fundaram tanto a Comissão Pastoral da Terra (CPT) como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em 1973 e 1975, para registrar toda maldade que o poder militar fazia ao incentivar os colonos a invadirem espaços ocupados por índios, posseiros e pequenos agricultores.

O mundo está às avessas e ninguém se deu conta. A desigualdade social é tamanha, e quando a educação virou a válvula propulsora dos pobres, a elite cansada de cruzar com vigia de prédio no aeroporto se deu conta de que era preciso cortar os limites, baixar os salários, dar um golpe, expulsar a presidente eleita, impor regras, acariciar o ego dos ministros e o poder judiciário, oferecer aumento exagerado, acabar com o Ministério do Trabalho, eleger um genocida e proibir protestos até das sombras. Essa é uma luta de classes, mas aquele que não tem classe se acha no direito de lutar pelo direito daquele que sempre humilha os pobres, e deixa a boiada passar. É necessário escolher seu campo, essa é a metáfora de Max Weber para designar o conflito que opõe os valores sociais, ideia defendida por Habermas.

O remédio é o engajamento social, é preciso bater a poeira, jogar a vergonha de lado e lutar por uma causa justa. Houve intensificação das expropriações de terras indígenas causadas por invasão, grilagem, loteamento de forma agressiva. Os incêndios criminosos por parte de fazendeiros que desejam aumentar seu domínio para vender clandestinamente a madeira, fazer móveis, assassina a fauna, a flora e o homem nativo. O povo ainda não entendeu que, hoje, quem está por trás da queimada é o governo federal, porque o moço é contra o ser humano.

Horkheimer e Adorno afirmam que não é fácil tratar, debater com um fascista, porque a razão está longe do alcance, então, a coisa que flui como água da fonte são os palavrões, a sequência de atos violentos, o murro na mesa. O eleitor sem cérebro e sem instrução aplaude e diz, esse sim fala bonito. Esse tipo de indivíduo que se fomenta no discurso de ódio é estúpido por nunca encontrar razão no que faz.

O terror está por todo lado no Brasil, são crueldades inúteis da mesma maneira como existiu no período após a revolução francesa, criticados por Marx e Engels na Nova Gazeta Renante. E, quando o povo fecha os olhos, finge que nada acontece de mal, o nome disso em Marx é alienação, não agir contra esse absurdo é compactuar com o opressor, diz Simone de Beauvoir. Hoje tem um personagem genocida, negacionista que precisa ser combatido em todas as partes.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris.