Parte de dinheiro apreendido na Operação Motor de Lama foi devolvida à empresário amigo de João Amorim (Foto: Arquivo)

O empresário Quirino Piccoli, “amigo íntimo” de João Amorim, conseguiu recuperar R$ 50,8 mil apreendidos na Operação Motor de Lama, denominação da 7ª fase da Lama Asfáltica, graças à internação por covid-19. A decisão é do juiz Bruno Cezar da Cunha Teixeira, da 3ª Vara Federal, que avaliou ter sido provada a origem lícita do dinheiro apreendido pela Polícia Federal.

No entanto, o suposto “laranja” do dono da Proteco não conseguiu recuperar R$ 340 mil em dólares e euros apreendidos na mesma operação. Ele é acusado de receber mais de R$ 5 milhões das empresas de informática no esquema de desvio de dinheiro do Detran para João Amorim, que está com as contas bloqueadas e chegou a ser preso por determinação do Supremo Tribunal Federal.

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Piccoli pediu a liberação dos R$ 50,8 mil em reais, 795 libras esterlinas, US$ 49 mil em dólares e 11.645 euros. A defesa alegou ao magistrado que o empresário só foi alvo da Operação Motor de Lama porque é “amigo íntimo” de João Amorim. Em depoimento à Polícia Federal, ele admitiu que emprestou contas bancárias para receber dinheiro em nome do polêmico empresário.

De acordo com o recurso, o empresário contraiu a covid-19 e acabou se internado para tratar as complicações decorrentes da doença no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, considerado um dos mais caros e melhores do País. No entanto, a internação na unidade top não é coberto pelo plano de saúde.

“Com relação aos valores em dólares e euros, constata-se que as datas das operações de câmbio apresentadas na exordial são próximas às datas dos repasses a QUIRINO PICCOLI, descobertos durante as investigações (itens 62 e 63 da decisão inaugural), razão pela qual devem ser melhor esclarecidas”, pontou Teixeira, sobre o pedido para liberar os R$ 340 mil em moeda estrangeira encontrados no cofre do laranja.

“Registre-se ainda que, ao longo das investigações, QUIRINO PICCOLI foi identificado como possível ‘laranja’ de JOÃO AMORIM para o recebimento de valores provenientes de ANTONIO CELSO CORTEZ e JOÃO ROBERTO BAIRD, os quais, a que tudo indica, possuíam proveniência ilícita. Quanto a esses valores, o MPF opinou pelo indeferimento do pedido de restituição e, diante de possível procedência ilícita, requereu a decretação do sequestro dos valores”, justificou.

No entanto, ele conseguiu provar a origem de R$ 45 mil, que estavam no cofre da residência. Ele vendeu R$ 119 mil em gado e sacou parte do dinheiro no banco. O Ministério Público Federal manifestou-se pela liberação de R$ 45 mil. Como haviam R$ 50.850 em moeda nacional, o magistrado decidiu devolver todo o dinheiro.

Já as 795 libras esterlinas seriam provenientes da viagem de Piccoli a Londres para visitar a filha. Como considerou que o valor, equivalente a R$ 5,9 mil, irrisório, o magistrado decidiu liberar também as moedas britânicas.

Conforme o MPF, Piccoli foi usado por Amorim para continuar recebendo repasses feitos pela PSG Tecnologia Aplicada e Ice Cartões, que ganharam o contrato milionário do Detran. Como estava com os bens bloqueados, ele recorreu ao amigo para continuar recebendo a mesada, que somou R$ 5,095 milhões em três anos.

O esquema de pagamento de propina no Detran começou na gestão de André Puccinelli (MDB), quando os repasses eram feitos ao ex-secretário-adjunto estadual de Fazenda, André Cance. A irregularidade teria continuado na gestão de Reinaldo Azambuja (PSDB), conforme a PF, e os pagamentos eram feitos para o seu filho, o advogado Rodrigo Souza e Silva, que foi alvo da Operação Motor de Lama.