Tiago diz estar “tranquilo” com articulações de bastidores e destaca aval da Justiça Eleitoral (Foto: O Jacaré)

Os derrotados nas urnas e ligados a políticos acusados de corrupção já cogitam “cassar” o mandato de vereador de Tiago Vargas (PSD), campeão de votos nas eleições deste ano em Campo Grande. Eleito com 6.202 votos, o ex-policial civil pode ser enquadrado na “Lei da Ficha Limpa” em decorrência da demissão em julho deste ano.

Famoso por não ter medo nem papa na língua para criticar políticos corruptos e envolvidos em esquemas de desvios de dinheiro público, Vargas continua incomodando parte da velha guarda da classe política campo-grandense. Nem a consagração nas urnas o livrou da perseguição.

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Pela legislação, em vigor há 10 anos, torna-se inelegível por oito anos quem for demitido do serviço público em decorrência de processo administrativo ou judicial. Tiago Vargas foi demitido após sindicância da Polícia Civil, instaurada com base em boletim de ocorrência feito pelo médico e vereador da Capital, Lívio Viana Leite, o Dr. Lívio (PSDB).

Conforme o boletim de ocorrência feito pelo tucano, durante junta médica da Ageprev, Tiago ameaçou os integrantes da junta psiquiátrica. O Ministério Público Estadual o denunciou por isso e o julgamento está marcado para o dia 21 de maio de 2021, conforme decisão da juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, da 4ª Vara Criminal.

No entanto, antes do processo ser concluído na Justiça, o Governo concluiu a sindicância e o demitiu o policial civil. Tiago recorreu, mas o recurso foi negado pelo juiz Ricardo Galbiati, em exercício na 3ª Vara de Fazenda Pública. Ele ingressou com recurso e a decisão foi mantida pelo desembargador Marcelo Câmara Rasslan, do Tribunal de Justiça. A defesa ingressou com agravo interno.

Este não foi a única sindicância. O Governo abriu 10 procedimentos administrativos contra Vargas, que incluem desde críticas à gestão de Reinaldo Azambuja (PSDB), falta de condições de trabalho para os policiais civis, o suposto pagamento de R$ 67 milhões em propina pela JBS, a ligação do ex-ministro Carlos Marun com Eduardo Cunha (MDB), entre outros.

O ex-investigador da Polícia Civil alega ser vítima de perseguição política da gestão de Reinaldo. A primeira punição ocorreu em 2017, logo após ele cobrar coerência do então deputado federal Elizeu Dionízio (PSB). O parlamentar propôs o impeachment de Michel Temer (MDB) logo após a delação premiada da JBS, mas acabou votando duas vezes para livrar o emedebista de ser processado pelo Supremo Tribunal Federal. Na ocasião, Tiago foi transferido de Campo Grande para Pedro Gomes.

A candidatura de Tiago Vargas foi deferida pela Justiça Eleitoral. Eleito vereador mais votado de Campo Grande, ele contou com o apoio da mãe. A diarista Mercedes Vargas, 50, acabou se tornando o principal cabo eleitoral do filho.

Para impedir a posse dele como vereador, o grupo precisa de um representante para ingressar com o pedido na Justiça para pedir a inelegibilidade do ex-policial com base na Lei da Ficha Limpa.

Caso ele tenha os 6,2 mil votos anulados, a Justiça Eleitoral pode ser obrigada a recalcular o quociente eleitoral e mudar o quadro de vereadores. Um dos beneficiados pode ser o PSDB, que teve a bancada reduzida de oito para apenas três vereadores.

Ao ser procurado sobre a manobra, o vereador eleito afirmou estar tranquilo e apresentou o “atestado” do Tribunal Regional Eleitoral, que deferiu sua candidatura.

A habilidade política do jovem vereador será fundamental para lhe garantir futuro na política campo-grandense, acostumada por reviravoltas nos bastidores. O locutor Miltinho Viana já acabou perdendo o mandato por “detalhe”. A Câmara lhe cassou o mandato por adulteração no certificado de reservista do Exército. Mais sorte teve o radialista Lucas Lima (SD), que foi condenado pela Justiça Federal. No entanto, quando a sentença foi descoberta, a pena já estava cumprida e ele, por pouco, não perdeu o mandato para o Dr. Cury (DEM). Ele acabou sendo eleito deputado estadual em 2018 e deixou a vaga para o médico democrata.