Vargas carrega a bandeira com a assinatura de todos que o ajudaram após ser demitido e na campanha (Foto: O Jacaré)

Campeão de votos na disputa da Câmara Municipal aos 32 anos, o ex-policial civil Tiago Henrique Vargas (PSD) será o primeiro vereador eleito na história do Los Angeles, um dos bairros mais carentes da periferia de Campo Grande. A consagração nas urnas, com a conquista de 6.202 votos, veio, principalmente, do esforço da mãe, a diarista Mercedes Vargas, 50, que se “licenciou” das diárias por 30 dias para percorrer a cidade e se dedicar em tempo integral à campanha para o filho

Em cada semáforo ou residência, ela fazia apelo por Justiça. Vargas foi demitido pelo governador Reinaldo Azambuja (PSDB) em julho deste ano após ser acusado de ameaçar os médicos da junta médica da Ageprev. O boletim de ocorrência, que levou à exoneração, foi registrado pelo médico Lívio Viana Leite, o Dr. Lívio (PSDB), que não conseguiu ser reeleito nas eleições deste ano.

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Tiago foi submetido a junta psiquiatra em decorrência de problemas de depressão. A situação teria ficado insustentável após o Governo instaurar 10 sindicâncias contar o agente da Polícia Civil. Sem papas na língua, ele acabou respondendo processos pelas críticas feitas nas redes sociais contra políticos envolvidos em corrupção, desde o próprio governador, passando pelo ex-ministro Carlos Marun (MDB) e o ex-deputado Maurício Picarelli (PSDB).

Por causa do ex-deputado Elizeu Dionízio, que tinha virado deputado na vaga de Márcio Monteiro, que era secretário de Fazenda, Tiago Vargas sofreu a primeira punição, a transferência de Campo Grande, onde residia com a mãe, para Pedro Gomes. Dionízio foi outro desafeto que sucumbiu nas urnas. Candidato a vereador pelo MDB, ele obteve apenas 1.410 votos. Lívio também não foi reeleito, mas obteve 2.772.

Vargas tentou reverter a demissão na Justiça, mas acabou tendo pedido de liminar negado em primeira e segunda instância. O desembargador Marcelo Câmara Rasslan, o relator no Tribunal de Justiça, negou o pedido com extinção do processo. Já no julgamento de Wilson Roberto Mariano de Oliveira, o Beto Mariano, condenado a nove anos de prisão na Operação Lama Asfáltica, Rasslan votou pela anulação da demissão.

Inicialmente, Mercedes conta que aconselhava o filho a maneirar nas críticas. “Eu obedeço a senhora, mas parar de falar, não vou parar”, respondia Tiago. Ele argumentava que, em último caso, voltaria a trabalhar no bairro, como açougueiro, cortador de árvore ou nos mercados.

A demissão e as derrotas na Justiça entristeceram a mãe. No entanto, nunca perdeu a fé. “Ajoelhei e pedi a Deus. Ele estava sendo injustiçado”, comentou. Para acalmar o filho, ela sempre repetia que “Deus tinha um propósito melhor na vida dele”.

Como Tiago decidiu ser candidato a vereador, Mercedes suspendeu as faxinas e entrou de corpo e alma na campanha. Saia de casa às 7h30 da manhã e só voltava por volta das 21h. Entregava os panfletos com as propostas. “Este rapaz foi injustiçado pelo governador”, repetia, a cada eleitor que encontrava.

A todo momento, amigos ligam, aparecem na casa ou param na rua para cumprimentá-lo pela vitória (Foto: O Jacaré)

A solidariedade e recepção dos eleitores levaram Mercedes, antes da abertura das urnas, a ter certeza de que o filho seria campeão de votos. “Ele era tão querido, ganhei até pão no sinaleiro”, relembrou.

Sem a fortuna de outros candidatos, Tiago e a mãe se dividiam para duplicar a campanha. Além dos R$ 10 mil doados em santinhos pela direção do partido, ele usou o dinheiro da rescisão pago pelo Governo em julho, em torno de R$ 3 mil, para por gasolina no carro e percorrer a cidade.

“Eu acreditava que seria eleito, mas não que seria o mais votado”, conta o novo vereador da Capital. “Deus é justo, o tempo todo”, repete, entre um cumprimento e outro de amigos e vizinhos, que o param na rua, vão até sua casa ou ligam para cumprimenta-lo pela vitória. “O meu sentimento é de justiça. A justiça está começando a ser feita”, avalia, sobre o resultado das urnas.

Residindo no Bairro Los Angeles, a 20 quilômetros do Centro da Capital, ele é o primeiro morador da região a entrar na Câmara Municipal de Campo Grande. Com mais de quatro décadas de existência, o bairro é carente de tudo, desde creche para crianças, asfalto, esgoto e até praça.

Tiago passou a adolescência no Los Angeles, quando o bairro estampava a capa dos jornais pela violência. Atualmente, a paz predomina, mas a carência de tudo é latente. Tiago reside na linha de ônibus, única via asfaltada.

Além de lutar por melhorias na região, o campeão de votos pretende colocar o combate à corrupção, que o alçou a fama nacional, como prioridade na Câmara Municipal. Apesar de ser do mesmo partido do prefeito Marquinhos Trad (PSD), ele promete fiscalizar os contratos públicos e cobrar boa prestação de serviço. “O meu compromisso é com o povo”, diz, jurando que fará diferente da classe política que tanto criticou.

Tiago quer adotar o projeto Coruja, que é a abertura das creches no período noturno para receber filhos de pais e mães que estudam ou trabalham à noite. Ele quer apoio do poder público para abrir o Cursinho Público Preparatório para preparar jovens carentes para prestar concurso público.

Uma proposta que pode causar dor de cabeça é a blitz na saúde, com o objetivo de fazer batida nos postos de saúde para verificar se falta médico ou remédio. Para a região, ele defende a construção de uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento), já que os moradores são obrigados a se deslocar até a Moreninhas ou Universitário em caso de atendimento de urgência.

Enquanto Tiago garante ter gasto R$ 10 mil, o segundo colocado, Carlão (PSB), desembolsou R$ 174 mil. Dr. Lívio declarou R$ 105,5 mil. O tucano reeleito mais votado, João César Mattogrosso informou R$ 163,9 mil. Elizeu Dionízio informou R$ 90 mil.

Dos 29 vereadores, apenas 12 foram reeleitos. Em 2021, 15 novatos e dois ex-vereadores vão compor o legislativo municipal.

Nas ru7as do Los Angeles, onde vive há 32 anos: “Deus é justo, o tempo todo” (Foto: Arquivo Pessoal)