Rodrigo Souza e Silva, que teve o voto de dois desembargadores para virar réu por assalto a mão armada, ao lado do pai, o governador Reinaldo Azambuja (Foto: Arquivo)

Dois desembargadores votaram a favor do recurso do Ministério Público Estadual e aceitaram a denúncia contra o advogado Rodrigo Souza e Silva, filho do governador Reinaldo Azambuja (PSDB). Ele pode virar réu por ser o mandante do roubo da propina de R$ 270 mil, que seria destinada em novembro de 2017 ao corretor de gado José Ricardo Guitti Guímaro, o Polaco.

O julgamento na 2ª Câmara Criminal só não teve desfecho nesta terça-feira (10), porque o juiz Waldir Marques, convocado para substituir o desembargador Carlos Eduardo Contar, atual vice-presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul, pediu vista.

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O relator do processo e presidente da turma, desembargador José Ale Ahmad Netto, votou pela procedência da denúncia de roubo majorado contra Rodrigo, que pode virar réu por roubo majorado, por ter feito reféns e associação criminosa.

O desembargador Jonas Hass Silva Júnior acompanhou o voto do relator, pela procedência do recurso no sentido estrito. Com o placar dois a zero, a tendência é o filho do tucano virar réu pelo emblemático caso do roubo da propina, que foi ignorado pelos jornais, sites e emissoras de televisão de Mato Grosso do Sul.

O terceiro a votar seria o juiz Waldir Marques, que pediu vista para analisar o processo com mais tempo. Quando ele apresentar o voto, os outros dois desembargadores podem mudar de posição. O magistrado poderá dar o parecer e concluir o julgamento na próxima terça-feira (17).

Juiz Waldir Marques pediu vistas e adiou a conclusão do julgamento do filho do governador (Foto: Arquivo)

Das 164 ações analisadas pela turma ontem, só cinco tiveram a conclusão do julgamento adiada, sendo dois a pedido de uma das partes, dois a pedido de um desembargador e o quinto para a realização de diligências complementares.

Por causa do suposto envolvimento neste crime, Rodrigo Souza e Silva teve a prisão temporária decretada pelo ministro Felix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça, em 12 de setembro do ano passado. Amanhã, a Operação Vostok, que apura o suposto pagamento de R$ 67,7 milhões em propinas pela JBS ao governador, completa um ano.

Resultado da sessão do julgamento envolvendo o filho de Reinaldo, que teve defesa oral do advogado Gustavo Passarelli (Foto: Reprodução)

Em meados de agosto, o Midiamax informou que o filho de Reinaldo foi denunciado à 4ª Vara Criminal de Campo Grande por uma trinca de promotores: Marcos Alex Vera de Oliveira, Adriano Lobo Viana de Resende e Humberto Lapa Ferri. A ação teria sido protocolada em maio deste ano.

A juíza May Melke Amaral Penteado Sirvagna, da 4ª Vara Criminal, rejeitou a denúncia do Ministério Público Estadual no final de julho deste ano. Os promotores recorreram ao Tribunal de Justiça, que começou a julgar o recurso nesta terça-feira.

A magistrada já aceitou a denúncia contra outros seis acusados de participar do roubo da propina de Polaco. De acordo com o ministro Felix Fischer, o corretor de gado, que chegou a ter vídeo recebendo propina exibido no Fantástico da TV Globo, ameaçava fazer delação premiada contra o governador.

Em despacho de setembro do ano passado, Fischer mandou apurar envolvimento de tucano com roubo (Foto: Reprodução)

O relator da Operação Vostok destacou que o plano era mais do recuperar os R$ 270 mil. O ministro cita trechos do chefe do grupo, Luiz Carlos Vareiro, o Véio, de que o plano era matar o corretor. O caso é apurado no inquérito 1.243, no STJ.

A história foi publicada pelo O Jacaré desde o início, conforme documentos anexados ao processo no site do Tribunal de Justiça.

No retorno de Campo Grande para Aquidauana, o comerciante Ademir José Catafesta foi assaltado na BR-262, na altura da Vila Jamic. Ele foi roubado às 15h30 do dia 27 de novembro de 2017. Ao registrar o boletim de ocorrência, na hora do almoço do dia seguinte, ele contou que teve R$ 9 mil e o veículo roubados.

Nove dias depois do ocorrido, o Batalhão de Choque prendeu o lavador de carros Fábio Augusto de Andrade Monteiro, na época, com 23 anos. Ele confessou ter participado do assalto, que teria sido planejado pelo mestre de obras, Luiz Carlos Vareiro.

Os policiais militares recuperaram o veículo e prenderam os acusados de integrar a quadrilha: o cantor Jozue Rodrigues das Neves, o representante autônomo Vinícius dos Santos Kreff e Jefferson Braga de Souza.

Na ocasião, Vareiro exigiu a presença do promotor Marcos Alex e contou que o roubo tinha sido encomendado por Rodrigo, filho do governador. Na ocasião, ele falou que o único objetivo era recuperar a propina de R$ 270 mil destinada a comprar o silêncio de Polaco.

Durante a campanha eleitoral do ano passado, Reinaldo saiu na defesa do filho e acusou Vareiro, que é laranja na construtora Ciacon, de ser integrante do PCC, a facção criminosa que surgiu nos presídios de São Paulo.

Durante o julgamento, o advogado Gustavo Passarelli da Silva fez a defesa oral e enfatizou que não existem provas de que Rodrigo seja o mandante do assalto ao comerciante Ademir Catafesta.

A Operação Vostok teve continuidade na semana passada, quando a Polícia Federal realizou mutirão para ouvir 110 pessoas, sendo 14 investigados. Até a mãe de Reinaldo, dona Zulmira Azambuja Silva, foi intimada a depor no processo contra o filho.

Polaco seria ouvido ontem na sede da PF em Brasília. A respeito dos depoimentos, o governador disse que teve acesso a todos e não teve o seu nome citado em nenhum. O inquérito 1.190 tramita em sigilo no STJ.