Com patrimônio de R$ 38 milhões, governador terá aumento de 33,4% no valor do subsídio, mas ele abrirá mão de metade para doar a entidade de assistência social (Foto: Minamar Júnior/MidiamaxArquivo)

O governador Reinaldo Azambuja (PSDB) e os secretários estaduais vão acumular aumento de 33% em quatro anos. No mesmo período, os 75 mil servidores públicos estaduais tiveram menos sorte e só conseguiram reajuste linear de 6,07% nos salários, conforme estimativa dos sindicatos.

Nesta terça-feira, no afogadilho e longe dos holofotes, os deputados estaduais aprovaram reajuste de 16,38% nos salários do primeiro escalão tucano. Ao contrário dos vereadores, a Assembleia Legislativa não deu ampla publicidade à farra com o dinheiro público no fim de ano.

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Pela proposta aprovada em regime de urgência – no mesmo dia em que foi apresentada e em votação única – o salário de Reinaldo passa de R$ 30.471,12 para R$ 35.462,27. O tucano abriu mão de metade do valor e só vinha recebendo R$ 15.235,56, como parte da política de contenção de gastos.

Veja o projeto aqui

A partir de 2019, conforme anúncio feito nesta semana, o governador voltará a receber o valor integral. No entanto, ele promete destinar 50% para entidade filantrópica.

A festa inclui o salário do vice-governador eleito, Murilo Zauith (DEM) e dos secretários estaduais, que passa dos atuais R$ 24.376,89 para R$ 28.369,82.

Conforme a mensagem da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, o reajuste acompanha o índice aplicado aos ministros do Supremo Tribunal Federal, que passou de R$ 33.763 para R$ 39.229.

O curioso é que os deputados ignoraram a manutenção da crise econômica – pelo menos para a Santa Casa, que enfrenta greve dos médicos por falta de repasse do poder público. Em maio de 2016, os parlamentares aprovaram projeto que congelava o salário do governador e do primeiro escalão e desvinculava do Poder Judiciário exatamente para evitar o repasse do reajuste de 16,38% aventado para os ministros do STF.

Agora, o aumento do Supremo é repassado na íntegra nos salários do primeiro escalão.

Print do Portal da Transparência com o salário do governador em 2014: aumento chega a 33,4%, acima da inflação de 26,4% em quatro anos (Foto: Reprodução)

Só que o reajuste acumulado será superior a inflação se for considerar o valor pago ao governador, vice e secretários em dezembro de 2014, último ano da gestão de André Puccinelli (MDB).

Conforme o Portal da Transparência, há quatro anos, o subsídio do governador era de R$ 26.589.67. Em 2019, o valor acumula alta de 33,4% e chegará a R$ 35.462,27.

O mesmo ocorrerá com os salários do vice-governador e dos secretários, que terá correção de 32,73% em quatro anos. Em 2014, o subsídio era de R$ 21.373,02, que passou para R$ 24.376,89 em 2015. Agora, o valor passará para R$ 28.269,82.

Só que a inflação oficial, considerando-se o IPCA calculado pelo IBGE em quatro anos foi de 26,42%.

Veja a evolução nos salários do Executivo

Secretários e vice-governador terão reajuste de 32,73%

  • 2014 – R$ 21.373,02
  • 2015 – R$ 24.376,02
  • 2019 – R$ 28.369,82

Governador tem aumento de 33,4% em quatro anos

  • 2014 – R$ 26.589,67
  • 2015 – R$ 30.471,12
  • 2019 – R$ 35.462,27

“É a inversão de valores”, lamentou o presidente do Sindicato dos Policiais Civis, Giancarlo Miranda. Ele diz que o reajuste linear do funcionalismo foi de 6,07% em quatro anos, com defasagem superior a 20% nos salários. “O servidor não teve composição inflacionária”, afirma.

Miranda disse que a crise existe para uns e não para outros. O sindicalista explica que os servidores só querem valorização. A expectativa é de que consigam a reposição da inflação e melhores condições de trabalho no segundo mandato de Reinaldo.

Os deputados estaduais ignoraram a crise financeira do Estado. O gasto com pessoal representa 48,3% da receita líquida, acima do limite prudencial previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal, considerando-se dados oficiais do próprio Governo do Estado.

O Tesouro Nacional estima que o comprometimento dos gastos com salários e aposentadorias é maior, 77% da receita.

Pelo menos nem tudo está perdido. Após jogo de empurra-empurra sobre o pai do projeto entre os vereadores e Marquinhos Trad (PSD), a Câmara Municipal recuou e rejeitou o reajuste de até 159% nos salários dos secretários municipais, da vice-prefeita Adriane Lopes (Patri) e do prefeito.

Agora, a sociedade espera o veto do chefe do Executivo ao reajuste nos salários dos vereadores, que pode passar de R$ 15.031 para R$ 18,9 mil. Caso o Congresso Nacional aprove o reajuste de 16,38%, o aumento pode chegar a 47% e o subsídio passar para R$ 22 mil.

Indiferentes ao clamor popular, já que a eleição acabou há dois meses, os deputados já aprovaram o reajuste dos próprios salários a espera do aumento nos vencimentos dos senadores e deputados federais.

Ah, o Brasil, seria tão bom se a crise não existisse para todos os brasileiros.

Na Assembleia Legislativa, deputados aprovaram reajuste de 6,07% para os servidores, mas de 33% para o primeiro escalão em quatro anos (Foto: Luciana Nassar/ALMS)