PF e MPF reúnem indícios de que operador de ex-governador manteve a prática dos crimes de ocultação de bens e desrespeitou bloqueio judicial (Foto: Arquivo)

A Polícia Federal reuniu provas de que o ex-secretário estadual adjunto de Fazenda, André Luiz Cance, manteve as práticas criminosas após a deflagração da Operação Lama Asfáltica e, pior, buscou meios de burlar bloqueio de imposto pela Justiça. As novas acusações, feitas na Operação Computadores de Lama, podem mudar a sorte de Cance e manter a prisão preventiva do suposto operador do ex-governador André Puccinelli (MDB).

A estratégia da PF e do Ministério Público Federal é a mesma que mantém o presidente regional licenciado do MDB no Centro de Triagem: reunir provas e indícios da continuidade da prática dos crimes.

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Puccinelli e o filho, o advogado André Puccinelli Júior, são acusados de ocultar provas da PF em uma quitinete alugada no Indubrasil e manter a prática de lavagem de dinheiro de propina por meio do Instituto Ícone Ensino Jurídico.

Conforme a Operação Computadores de Lama, documentos apreendidos na fase anterior, Papiros de Lama, revelam que ele manipulou e dissimulou documentos para burlar decisão judicial. Ele e os produtores rurais André Joliace Araújo e Orcídio de Araújo foram denunciados em outubro deste ano, na 9ª ação penal da Lama Asfáltica.

O ex-secretário adjunto deu desconto de R$ 912 mil de um total de R$ 1,630 milhão para concluir a venda da Fazenda Angico, em Campo Grande. O recibo emitido pelos Araújo tem data de 2 de maio de 2016, oito dias antes do imóvel ser bloqueado na Operação Fazendas de Lama.

Só que o documento só foi reconhecido em cartório no dia 26 de outubro do mesmo ano. Para piorar as coisas, em 2017, policiais federais ainda interceptaram conversas de Cance negociando a melhor forma de legalizar a venda da Fazenda Angico.

Oficialmente, o ex-secretário se separou de Ana Cristina Pereira da Silva. No entanto, a polícia suspeita que eles simularam o divórcio para ocultar os bens de André Cance.

Na Operação Papiros de Lama, em 14 de novembro do ano passado, a PF flagro Ana na casa do ex-marido e, ao ser surpreendida pela visita inesperada, ela tentou se livrar de R$ 15 mil.

O divórcio foi um negócio mágico para a mulher, conforme a PF, já que o seu patrimônio saltou de R$ 1,178 milhão para R$ 16,2 milhões.

Em conversa interceptada pela PF, Cance conversa com o sobrinho Thiago Cance a intenção de vender duas fazendas em nome da ex-mulher. A suspeita é de que ele estava negociando a Fazenda Campo Limpo e a Estância Luiza três dias antes da deflagração da Operação Papiros de Lama, quinta fase da Lama Asfáltica.

Na prática, mesmo sabendo do risco de estar sendo gravado e vigiado pela PF, André Cance não se intimidou e manteve os negócios, ignorando a Justiça, a PF, o MPF e a Controladoria Geral da União.

Ele chegou a ser preso preventivamente pela primeira vez na Operação Máquinas de Lama, em maio do ano passado, mas acabou sendo solto pela 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.

Naquela ocasião, o relator do habeas corpus, desembargador Paulo Fontes, não se convenceu de que a suposta organização criminosa continuo operando após Puccinelli encerrar o mandato de governador em 2014.

Os indícios de práticas de crimes em 2016 não foram suficientes para convencer o magistrado. Agora, além das provas, o MPF já apresentou nove denúncias na Lama Asfáltica. Só uma que não foi aceita pelo juiz Bruno Cezar da Cunha Teixeira, da 3ª Vara Federal, mas não por causa das provas, mas devido a polêmica sobre quem deve desmembrar o processo em quatro ações penais.

E a expectativa é de que a primeira sentença sai até o fim do ano, para saciar quem reclama de condenação. Esta última queixa é comum tanto para quem não aguenta mais impunidade, como para a defesa de que os réus seguem presos por longo tempo, quase sete meses, sem qualquer desfecho.