Cerca de 800 trabalhadores perderam emprego só com o fechamento de uma unidade. Outros milhares poderiam ter emprego se investimentos fossem mantidos em MS (Foto: Arquivo)

O Mafrig, segunda maior companhia de carne do mundo e concorrente direto da JBS, suspendeu investimentos, fechou unidades e demitiu centenas de trabalhadores para não pagar propina ao grupo político do ex-governador André Puccinelli (MDB). A revelação consta da Operação Computadores de Lama, 6ª fase da Lama Asfáltica, que quebrou o sigilo fiscal do conglomerado entre 1º de janeiro de 2010 e 31 de dezembro de 2014.

Em depoimento prestado à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal em 1º de outubro deste ano, o diretor do Marfrig, Luiz Roberto Firmino da Silva, deu detalhes da pressão para pagar propina.

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Ele confirma a denúncia feita pelos executivos da JBS, que fecharam delação premiada. O grupo só conseguiu manter os investimentos e expandir em Mato Grosso do Sul graças ao pagamento de propina, iniciado em 2003, na gestão de Zeca do PT e mantido pelos sucessores, Puccinelli e o atual governador Reinaldo Azambuja (PSDB). O valor representou de 20% a 30% do incentivo fiscal.

Logo após receber incentivo fiscal do Governo estadual, em março de 2013, conforme Firmino, ele foi procurado pelo empresário Ivanildo da Cunha Miranda, que era operador do ex-governador André Puccinelli.

Em reunião realizada no escritório do delator em Campo Grande, o então secretário estadual de Fazenda, Jader Rieffe Julianelli Afonso, participou do suposto achaque. Ele e Ivanildo teriam dito que o crédito fiscal estava irregular e poderiam ajudar em troca de contrapartida financeira ao grupo político.

O empresário garante que resistiu às investidas. No entanto, Ivanildo o procurou em São Paulo e o convenceu a repassar R$ 500 mil, a título de patrocínio de um congresso jurídico, para o Instituto Ícone.

Em trecho de depoimento, diretor do Marfrig revela que secretário de Fazenda na época participou de reunião para cobrar suposta propina (Foto: Arquivo)

A conversa, conforme depoimento do empresário, sempre indicava que o pagamento seria mensal, mas ele ignorava as insinuações. No entanto, em julho, Ivanildo o procurou novamente e o convenceu, pela segunda vez, repassar R$ 478 mil para o escritório de advocacia de Félix Jayme Nunes da Cunha, que emitiu nota fiscal e nunca prestou o serviço.

Nos encontros, o empresário deixou claro que reduziria os investimentos em Mato Grosso do Sul em decorrência do pagamento de propina. O resultado foi trágico para a população sul-mato-grossense e os trabalhadores.

Diretor cita valor cobrado em reunião que discutiu “ajuda a grupo político” (Foto: Reprodução)

O Marfrig fechou a unidade de Paranaíba em julho de 2015, primeiro ano de Reinaldo, e demitiu 530 trabalhadores. Em período de capacidade máxima, a unidade chegava a gerar 800 empregos diretos.

Outra consequência prática, o segundo maior grupo de carne do mundo deixou de lado a proposta do Governo do Estado de implantar frigorífico em Porto Murtinho.

“Além de relevante para a presente investigação, como bem apontado pela Polícia Federal, tal depoimento mostra o modus operandi da corrupção, a forma como a corrupção sufoca as atividades econômicas e a forma como a corrupção prova desistência em investir no Estado de Mato Grosso do Sul”, destaca o juiz substituto Sócrates Leão Vieira, da 3ª Vara Federal de Campo Grande.

Em outro trecho, empresário conta o que Ivanildo prometia em troca de “ajuda” (Foto: Reprodução)

O frigorífico de Paranaíba ficou dois anos fechados e foi reativado em setembro de 2017, com a geração de 600 empregos diretos. A outra unidade do Marfrig fica em Bataguassu. Das 15 unidades do grupo no País, quatro ficam no Mato Grosso, três no Rio Grande do Sul, duas em Rondônia, duas Goiás, uma em São Paulo e outra no Pará.

O Marfrig e a JBS não foram os únicos a delatar suposto esquema de cobrança de propina em troca de incentivos fiscais. O dono de uma empresa e o presidente de uma das entidades do setor também fizeram relato semelhante em reportagem do Fantástico, da TV Globo, em 28 de maio do ano passado.

No dia 24 de outubro deste ano, o STJ arquivou a denúncia contra Reinaldo envolvendo o dono de um curtume, José Alberto Miri Berger. Inicialmente, ele acusou o tucano de ter sido beneficiado pelo pagamento de propina de R$ 500 mil, dinheiro supostamente entregue a José Ricardo Guitti Guímaro,  Polaco. No entanto, ele apresentou nova versão e disse que caiu no golpe do corretor de gado.

Zeca será investigado pela Justiça Federal de Campo Grande em decorrência da delação da JBS, mas o petista ter cobrado propina.

Reinaldo é investigado pela denúncia na Operação Vostok, que o acusa de ter recebido R$ 67,7 milhões propinas. O ministro Félix Fischer, do STJ, determinou o bloqueio de R$ 277 milhões da família do governador para garantir o ressarcimento dos cofres estaduais. O governador nega as acusações e vê fins políticos na delação da JBS.

André está preso desde 20 de julho acusado de chefiar organização criminosa e causar prejuízo milionário aos cofres públicos. Réu em duas ações penais, ele sempre negou ter cometido qualquer irregularidade e o recebimento de vantagens indevidas.