Policiais federais cumpriram mandados de prisão em Alagoas, onde estariam chefões da organização criminosa (Foto: Divulgação)

Três dos quatro chefões da Máfia do Cigarro, que teria faturado R$ 1,5 bilhão só em 2017, foram presos em resort de Alagoas onde participavam da festa de casamento. Dos 43 mandados de prisão, 12 são contra policiais, sendo seis rodoviários federais, quatro militares e dois civis. A demora da Justiça Federal em julgar facilitou a vida dos supostos líderes da organização criminosa, que aproveitaram a prescrição dos crimes para voltar a transitar sem qualquer embaraço em território brasileiro.

Desencadeada na manhã deste sábado, a Operação Nepsis, da Polícia Federal, cumpriu 35 mandados de prisão preventiva e oito de temporária.Dos seis policiais rodoviários federais acusados de facilitar o contrabando de cigarro, cinco foram presos. Eles atuavam em Bataguassu, uma das rotas utilizadas pelo grupo para enviar 1,2 mil carretas  cigarro em 2017, e foram afastados da função por determinação da Justiça.

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As investigações começaram em 2016 a partir de denúncia feita à corregedoria da PRF. “É uma das organizações mais complexas do País”, explicou o delegado Felipe Menezes, responsável pela investigação.

Ele explicou que a organização criminosa tem quatro líderes, que já foram alvo de outra operação da PF de Naviraí em 2008. Neste período, com a prisão preventiva decretada, eles passaram a residir no Paraguai, de onde comandavam o contrabando de cigarro para as regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste.

Com a prescrição dos crimes em junho deste ano, eles voltaram a circular com cautela no lado brasileiro. Dos quatro líderes, três viajaram para Alagoas para a festa do filho de um dos chefões. A comemoração do enlace seria em resort alagoano, que foi um dos alvos da Operação Nepsis.

Menezes explica que os líderes contavam com gerentes, que eram responsáveis por trechos da rota do contrabando, recrutar batedores e cooptar policiais para acobertar o crime. Os agentes corruptos chegavam a abordar os honestos para facilitar passagem das carretas com cigarros paraguaios.

Para dificultar o trabalho da polícia, os criminosos mudavam constantemente a rota e operavam por ciclos – enviavam o cigarro por alguns dias ou meses, depois suspendiam a operação por determinado período.

A PF identificou aliança entre a Máfia do Cigarro e facções criminosas que atuam na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai. A chegada do grupo a Pedro Juan Caballero também contribuiu para elevar o nível de violência na região.

Operação contou com a participação de 280 policiais neste sábado (Foto: Divulgação)

O delegado Cleo Mazatti contou que foram 75 apreensões de cigarro e 50 prisões em flagrante da quadrilha. Há casos de motorista que foi preso três vezes. Eles acabavam soltos pela Justiça, porque o contrabando de cigarro não é considerado crime inafiançável.

No entanto, conforme a Receita Federal, o cigarro passou a ser o principal problema e já representa 85% das apreensões de produtos contrabandeados do Paraguai para o Brasília. No ano passado, foram apreendidos 60 milhões de maços do produto, o que representa prejuízo de R$ 300 milhões aos criminosos.

Apesar dos tributos representarem 90% do valor do cigarro, o órgão não estima o valor sonegado diante do faturamento de R$ 1,5 bilhão.

Mazotti explicou ainda que há ligação entre as operações Nepsis, realizada hoje, e a Oiketicus, deflagrada em 16 de maio deste ano pelo Gaeco. Na ocasião, 28 policiais militares foram presos por receber propina de até R$ 100 mil da Máfia do Cigarro.

Os nomes dos presos neste sábado não foram revelados pela PF porque houve decretação de sigilo pela Justiça.