No artigo “A insígnia do mal na banalidade do crime”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro mostra a indignação e a revolta com o brutal assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista brasileiro Bruno Pereira. Ele culpa os criminosos que agem impunemente no Amazonas, que derrubam a floresta e matam quem tenta preservar o meio ambiente.

“O indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados com requintes de crueldade, tiveram os corpos esquartejados, enterrados como insignificantes no meio da mata, o que condiz com ocultação de cadáver. A frieza é enorme, estúpida e sem nenhum espaço para razão, nem estado de espírito”, inicia.

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“Na Amazônia, o território pertencente aos índios é frequentemente invadido, os resistentes morrem por bala, veneno, emboscada, golpe sujo vindo de madeireiros clandestinos, grileiros, pescadores, traficantes e garimpeiros. Eles atendem o pedido instantâneo dos mais nojentos políticos atrelados ao Centrão”, acusa.

“A barganha é suja, onde quem perde é sempre o silvícola e o povo que assiste a desordem instalada. O rito violento respinga no presidente da República que olha com maus olhos quem defende o meio ambiente”, critica, sem nominar Jair Bolsonaro, que acusou Dom Phillips de ser malvisto na região.

“As ações de combate ao desmatamento no Amazonas são insignificantes justamente porque quem derruba a mata, os madeireiros, financia a campanha de políticos, sobretudo do PL. Existe o gabinete do ódio, uma bancada da bala e a bancada do crime. Francamente, o povo brasileiro elege criminosos que se dizem religiosos até o osso, mas praticam o crime, são bandidos”, lamenta.

Confira o artigo na íntegra:

“A insígnia do mal na banalidade do crime

Mário Pinheiro, de Paris

O indigenista brasileiro Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips foram assassinados com requintes de crueldade, tiveram os corpos esquartejados, enterrados como insignificantes no meio da mata, o que condiz com ocultação de cadáver. A frieza é enorme, estúpida e sem nenhum espaço para razão, nem estado de espírito.

E pura tristeza pela perda. Pereira, depois de ser exonerado de seu posto pelo então ministro da (in) Justiça, Sergio Moro, manteve-se fiel às suas ideias, sua paixão em defender os que são excluídos pelo poder público.

Na Amazônia, o território pertencente aos índios é frequentemente invadido, os resistentes morrem por bala, veneno, emboscada, golpe sujo vindo de madeireiros clandestinos, grileiros, pescadores, traficantes e garimpeiros. Eles atendem o pedido instantâneo dos mais nojentos políticos atrelados ao Centrão.

A barganha é suja, onde quem perde é sempre o silvícola e o povo que assiste a desordem instalada. O rito violento respinga no presidente da República que olha com maus olhos quem defende o meio ambiente.

O jornalista Dom Phillips, correspondente do The Guardian, não era aventureiro, não fazia jet-ski nem motociata na região, estava a trabalho. A madeira sai ilegal da Amazônia pelos rios, o ouro roubado vai para São Paulo, depois segue para o estrangeiro.

Existe um lobby de parlamentares para defender agressores de índios e eleger gente corrupta, entre eles estão os senadores Temário Mota, Zequinha Marinho, Mecia de Jesus, os deputados federais Jorginho Melo, Caroline de Toni e a interferência da Carla Zambeli, conforme entrevista concedida ao jornalista da rádio CBN, Rodrigo Boccardi. 

A Funai, quando não faz seu trabalho com retidão, deixa marcas do conflito que vem dos ex-ministros Ricardo Salles, Sergio Moro, do presidente brasileiro e do grupo político conservador que manda e desmanda na região. Salles, por ter defendido o interesse do latifúndio e do agroveneno.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris. Ele escreve aos sábados.

Desde que alguém denuncie erro, sujeira, invasão e truculência contra índios, a hipocrisia do agro se reúne e intervém. A boiada passa, mas é uma boiada de gente má, bípede, com um só objetivo, arrancar do índio seu poder de plantar, de viver, de nadar nos rios e assassinar seus defensores.

As ações de combate ao desmatamento no Amazonas são insignificantes justamente porque quem derruba a mata, os madeireiros, financia a campanha de políticos, sobretudo do PL. Existe o gabinete do ódio, uma bancada da bala e a bancada do crime. Francamente, o povo brasileiro elege criminosos que se dizem religiosos até o osso, mas praticam o crime, são bandidos.

A PF não tem capacidade para vigiar toda maldade que acontece no Amazonas, mas a crueldade e o rito praticado pelos culpados, a mando de gente de cima, tem que ser rigorosamente investigado.

O crime, de tão banal, já não comove, mas a tristeza pela perda de pessoas do bem, faz mal, contorce o estômago e tranca a garganta, é a insígnia do mal que governa”.