No artigo “Comunismo às avessas”, o jornalista e filósofo Mário Pinheiro fala sobre as maldades praticadas pelos “cidadãos de bem” que vivem de alertar a sociedade para o risco do regime comunista. “Um povo que não se rebela contra as opressões, ou a dose alienante foi grande demais ou está convicto de que matando pobre de fome a situação muda. Muda sim, com certeza, para o cemitério”, alerta.

A análise considera o desaparecimento do indigenista Bruno Araújo e do jornalista britânico Dom Phillips na Amazônia, uma das áreas em foco no mundo devido à invasão de grileiros e garimpeiros.

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“Há tempos, desde a época da ditadura, os imbecis afirmam que comunista invade casa, come criança, desrespeita, etc, etc, etc. Esta ladainha foi repetida por católicos tradicionalistas, pela Opus Dei, a UDR (União Democrática Ruralista) e a liga das senhoras católicas durante décadas”, pontua.

“Mas quem queima plantação de índio, derruba suas casas, viola meninas aborígenes, mata, paga a polícia para fazer o jogo sujo, corrompe o juiz, contrata jagunços, encoraja os latifundiários invasores de terras, faz emboscada para matar padres e religiosos, jornalista e indigenista, estes são os justos dos últimos tempos. É o comunismo às avessas”, conclui Pinheiro.

“A falta de escola para certos cidadãos dá carteira de idiotice. Comunista é quem aprova um Projeto de Lei para os bancos penhorarem e tirarem a casa do pobre para pagar dívida; comunista é aquele que adere às maracutaias de rachadinhas, compra mansão de R$ 6 milhões com a cara mais lavada; é quem deixa a inflação galopar, tira a comida do prato dos trabalhadores e faz de tudo para aprovar a posse de armas”, afirma o filósofo.

Confira o artigo na íntegra:

“Comunismo às avessas

Mário Pinheiro, de Paris

Na introdução da filosofia da história, Hegel concebe a evolução da inteligência enquanto razão consciente, como se fosse uma progressiva apropriação pelo homem e a sabedoria. Ele afirma que a filosofia deve ultrapassar a fé porque é a razão que governa o mundo e não a fé na Providência.

Se fosse a fé, e se assim fosse, bastaria fechar as assembleias legislativas, os tribunais e transformá-los em templos, monastérios, conventos e pocilgas que não enxergam a diferença entre o bem e o mal. O espírito conduz à verdade, mas ao hipócrita resta rir como hiena desvairada e afirmar aos quatro ventos que a terra é plana e que comunista é mal.

O bem, segundo Kant, significa a virtude e tudo que promove a felicidade do homem. Sócrates, segundo Platão, interroga Caliclés, se é melhor sofrer uma injustiça, ser vítima ou ser o autor.

Há tempos, desde a época da ditadura, os imbecis afirmam que comunista invade casa, come criança, desrespeita, etc, etc, etc. Esta ladainha foi repetida por católicos tradicionalistas, pela Opus Dei, a UDR (União Democrática Ruralista) e a liga das senhoras católicas durante décadas.

Mas quem queima plantação de índio, derruba suas casas, viola meninas aborígenes, mata, paga a polícia para fazer o jogo sujo, corrompe o juiz, contrata jagunços, encoraja os latifundiários invasores de terras, faz emboscada para matar padres e religiosos, jornalista e indigenista, estes são os justos dos últimos tempos. É o comunismo às avessas.

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris. Ele escreve aos sábados.

No Brasil, lutar por direitos humanos, exigir justiça, igualdade de direitos entre homem e mulher, defender prostituta, homossexual, ser sindicalista é sinônimo de comunista. Garimpeiros, invasores e criminosos invadem áreas indígenas e o presidente, já tão sujo internacionalmente, não move uma palha, mas sabe abusar do cartão corporativo.

Quem cala consente. Um povo que não se rebela contra as opressões, ou a dose alienante foi grande demais ou está convicto de que matando pobre de fome a situação muda. Muda sim, com certeza, para o cemitério. 

A falta de escola para certos cidadãos dá carteira de idiotice. Comunista é quem aprova um Projeto de Lei para os bancos penhorarem e tirarem a casa do pobre para pagar dívida; comunista é aquele que adere às maracutaias de rachadinhas, compra mansão de R$ 6 milhões com a cara mais lavada; é quem deixa a inflação galopar, tira a comida do prato dos trabalhadores e faz de tudo para aprovar a posse de armas.

A inversão de valores ainda não chegou no cérebro dos agroboys que enchem galões de combustível para atear fogo em mendigos. E os comunistas são os que distribuem pão aos miseráveis, cobertores para quem vive em situação de rua, como o Padre Júlio Lancelotte, mas para o povo recalcado e conservador, isso é comunismo e não Evangelho”.