No artigo “A distinção”, o filósofo e jornalista Mário Pinheiro fala sobre Sócrates e o grupo de políticos atual que opta pela mentira para amenizar graves problemas sociais. “Sócrates enfrentou os cínicos e os que optavam pelo sofisma, uma espécie de mentira imaculada que confundia as pessoas, e no julgamento do grande filósofo ele foi condenado a beber a cicuta”, pontua.

“Morreu pela confusão e armação de duas pessoas que conseguiram enrolar os magistrados e difundir falsas verdades”, relembra sofre o filósofo grego. “A ideia e o pensamento eram temas tão importantes quanto a ética discutida na escola fundada por Platão, mal vistas por outras instituições que abordavam somente a retórica. O papel da filosofia é o questionamento, a busca da verdade, a crítica”, destaca.

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“Quando se aborda temas da filosofia na atualidade brasileira, há leitores que se contentam em atacar, usar palavras chulas e ainda, como se fosse o bezerro de ouro, adorar, sem nenhuma distinção, aquele que atualmente destrói e desgoverna o país, que interrompe o expediente para passear de moto”, analisa.

“Estes estão na incapacidade de fazer a distinção entre filosofia, política, sociologia e sociedade por terem se acostumado com a própria falta de interesse pelos livros”, conclui.

Confira o artigo na íntegra:

“A distinção

Mário Pinheiro, de Paris

Na escola de filosofia grega, Sócrates desenvolveu a maiêutica, que é a arte de questionar até a exaustão, quando não há mais argumentos. Sócrates enfrentou os cínicos e os que optavam pelo sofisma, uma espécie de mentira imaculada que confundia as pessoas, e no julgamento do grande filósofo ele foi condenado a beber a cicuta.

Morreu pela confusão e armação de duas pessoas que conseguiram enrolar os magistrados e difundir falsas verdades. De seus discípulos, Platão se destaca por sua atividade tanto social quanto de mestre herdeiro, responsável por tornar públicas e conhecidas as ideias de seu mestre.

A ideia e o pensamento eram temas tão importantes quanto a ética discutida na escola fundada por Platão, mal vistas por outras instituições que abordavam somente a retórica. O papel da filosofia é o questionamento, a busca da verdade, a crítica. Quando se aborda temas da filosofia na atualidade brasileira, há leitores que se contentam em atacar, usar palavras chulas e ainda, como se fosse o bezerro de ouro, adorar, sem nenhuma distinção, aquele que atualmente destrói e desgoverna o país, que interrompe o expediente para passear de moto.

Estes estão na incapacidade de fazer a distinção entre filosofia, política, sociologia e sociedade por terem se acostumado com a própria falta de interesse pelos livros. O agronegócio, por exemplo, não é solução, não emprega, mas enriquece um pequeno e distinto grupo, a elite.

Entre destruir matas, propriedades indígenas e buscar o ouro que some pela tangente sem deixar rastros de impostos, garimpeiros matam índios, patrões clandestinos ignoram a lei e acabam protegidos pelos que não fazem distinção. Somente no mês de abril, o desmatamento abusivo na Amazônia abriu uma clareira que corresponde ao Estado do Rio de Janeiro.

A distinção entre bem e mal, verdadeiro ou falso, não tem peso na consciência do cidadão matuto. Esta distinção entra pela porta da política, atinge os alimentos e tudo que o brasileiro precisa para sobreviver. A maiêutica sumiu, a sabedoria não está na consciência dos que se esfolam na inflação para comprar arroz e feijão.

Por falta de distinção e também de escola, o matuto prefere tudo que fere e mata no lugar da democracia. Ainda ontem a dita ex-ministra dos Direitos Humanos e das Mulheres, justamente aquela que viu Jesus na goiabeira, disse que o caso da matança e estupro de índios yanomamis é normal. No Brasil, a grande impressão é de que os defensores do atual presidente são incapazes de fazer a mínima distinção, fritaram o cérebro.”

(*) Mário Pinheiro é jornalista pela UFMS, mestre em Sociologia da Comunicação, filósofo e doutor em Ciências Políticas ambos por Dauphine, Paris. Ele escreve aos sábados a coluna No Divã Em Paris.