No artigo “A câmara de gás móvel e o AI-5 nosso de cada dia”, o ensaísta e economista Albertino Ribeiro condena a ação cruel dos policiais rodoviários federais em Sergipe, que deveriam proteger o cidadão e acabaram matando um homem asfixiado por gás dentro de uma viatura. O caso teve repercussão mundial e Ribeiro o compara aos tempos da ditadura militar, quando a tortura e a morte tinham aval do Estado.

“Esta semana, o Brasil e o mundo ficaram estarrecidos com a crueldade praticada por dois policiais rodoviários federais contra um brasileiro pobre e portador de esquizofrenia, morador do estado de Sergipe. Genivaldo de Jesus Santos, 38 anos, foi torturado e morto – na frente de várias testemunhas – por aqueles que teriam a missão de proteger a vida dos cidadãos brasileiros independente de sua classe social ou cor da pele”, relembra.

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“Entretanto, seus algozes – indignos de usar uma farda tão respeitada – agiram com requinte de crueldade, pois prenderam-no em um camburão e jogaram, lá dentro, spray de pimenta e gás lacrimogênio”, conta.

“Enquanto Genivaldo agonizava dentro da viatura, um dos policiais foi questionado sobre a possibilidade de a vítima morrer asfixiada. No entanto, ironicamente, ele respondeu: ‘ele aí dentro está melhor que a gente aqui fora’”, detalha.

“Num país onde a presunção de inocência virou artigo de luxo, e o racismo estrutural comanda o imaginário do Estado, muitos policiais indignos se sentem empoderados e utilizam, em primeiro lugar, a violência para depois se certificarem que a pessoa, cujos direitos foram violados, era ou não um cidadão merecedor de respeito”, conclui.

Confira o artigo na íntegra:

“A câmara de gás móvel e o AI-5 nosso de cada dia

Albertino Ribeiro

Era o ano de 1968, o Ato Institucional número 5 (AI-5) estava pronto. Faltavam, apenas, a assinatura das autoridades responsáveis. Quando solicitado a por sua assinatura naquele documento, que iria escancarar de vez a ditadura no Brasil, o vice-presidente, Pedro Aleixo, não quis assinar, e disse ao presidente Costa e Silva que o principal motivo seria o efeito negativo que o decreto surtiria no ‘guarda da esquina’.

Aleixo sabia que a população sofreria na pele os excessos do decreto que cassava os direitos do cidadão e dava praticamente carta branca para que as autoridades policiais agissem de maneira desumana e covarde – e foi realmente o que aconteceu.

Esta semana, o Brasil e o mundo ficaram estarrecidos com a crueldade praticada por dois policiais rodoviários federais contra um brasileiro pobre e portador de esquizofrenia, morador do estado de Sergipe. Genivaldo de Jesus Santos, 38 anos, foi torturado e morto – na frente de várias testemunhas – por aqueles que teriam a missão de proteger a vida dos cidadãos brasileiros independente de sua classe social ou cor da pele.

Entretanto, seus algozes – indignos de usar uma farda tão respeitada – agiram com requinte de crueldade, pois prenderam-no em um camburão e jogaram, lá dentro, spray de pimenta e gás lacrimogênio. Enquanto Genivaldo agonizava dentro da viatura, um dos policiais foi questionado sobre a possibilidade de a vítima morrer asfixiada. No entanto, ironicamente, ele respondeu: ‘ele aí dentro está melhor que a gente aqui fora’.

Esses indignos policiais são reflexos do mau exemplo, que todos os dias é dado por diversas autoridades que, infelizmente, são formadoras de opinião. ‘A polícia tem que chegar metendo bronca mesmo!’, ‘Se está com a arma na cintura é pra usar!’ – Essas palavras proferidas por elevadas autoridades tem um peso muito grande e termina por impactar às ações de agentes públicos, principalmente, aqueles que já trazem dentro de si um preconceito latente.

Num país onde a presunção de inocência virou artigo de luxo, e o racismo estrutural comanda o imaginário do Estado, muitos policiais indignos se sentem empoderados e utilizam, em primeiro lugar, a violência para depois se certificarem que a pessoa, cujos direitos foram violados, era ou não um cidadão merecedor de respeito”.

(*) Albertino Ribeiro é economista e ensaísta. A coluna EcOnOmIA FoRa dA CaiXa é publicada aos domingos em O Jacaré