Jamil Name, Jamilzinho e Fahd Jamil em coluna social. (Foto: Arquivo)

Fahd Jamil, conhecido como Rei da Fronteira, pede à Justiça que delegados da operação Omertà sejam ouvidos para esclarecerem se há ligação entre o desaparecimento do seu filho Danielito, declarado morto após dez anos de sumiço, e o compadre, Jamil Name, acusado de liderar organização criminosa e que morreu em junho por complicações da covid.

O escritório Badaró, Falk e Maximo – localizado na badalada avenida paulistana Brigadeiro Faria Lima e que atua na defesa de Fahd – solicita o compartilhamento do depoimento de funcionária da família Name que responsabiliza Jamil Name Filho, o Jamilzinho, por uma emboscada para o filho do Rei da Fronteira.

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Famílias de renome, próximas e lideradas por patriarcas, os clãs da fronteira e de Campo Grande foram alvos em junho do ano passado da 3ª fase da operação Omertà, que apontou consórcio entre os grupos para crimes.

Segundo a investigação, a execução de Ilson Martins Figueiredo, 62  anos (policial militar reformado e gerente de segurança da Assembleia Legislativa), ocorrida em avenida da Capital no ano de 2018, foi ecos de uma vingança. Ele teria sido morto em retaliação ao desaparecimento de Daniel Alvarez Georges, o Danielito. Inclusive, Fahd Jamil, 80 anos, é réu no processo do homicídio do policial reformado e cumpre prisão domiciliar

Contudo, em dezembro do ano passado, reportagem da revista Piauí retratou o depoimento de uma funcionária dos Names. A testemunha disse à Polícia Civil que ouviu do pistoleiro José Moreira Freires, o Zezinho, os detalhes do assassinato de Daniel, numa emboscada planejada por Jamil Name Filho. Condenado pela execução de delegado em Campo Grande, José agora também está morto. Ele morreu no ano passado, em troca de tiros com policiais do Rio Grande do Norte.

Reportagem da Revista Piauí foi publicada em dezembro do ano passado.

A reportagem “Tortura, desaparecimento e morte: a guerra de duas famílias pelos negócios do crime na fronteira” narra que em 3 de maio de 2011, ultima vez que foi visto com vida, Danielito recebeu convite de Jamilzinho para orgia, numa chácara de Campo Grande. Lá, teria sido morto a tiros, esquartejado e o corpo colocado em tambor com ácido. O motivo do crime seria a investida de Daniel sobre pontos do jogo do bicho na Capital.

Além do depoimento dessa testemunha, a defesa pede para nova oitiva dos delegados Fábio Peró e João Paulo Sartori, responsáveis pela força-tarefa da operação. A solicitação é para que esclareçam, exclusivamente, sobre a “eventual participação do corréu Jamil Name no desaparecimento de Daniel Alvarez Georges”.

A defesa pinça dois depoimentos do delegado Fábio Peró, titular do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubo a Banco e Assaltos e Sequestros). No primeiro, concedido no processo pela morte de Ilson Figueiredo, Peró afirmou que a investigação apurou que o homicídio do policial reformado foi para vingar a morte de Daniel, mas sem detalhes dos mandantes do assassinato do filho do Rei da Fronteira.

Já no processo em que Fahd Jamil responde por  tráfico de amas, corrupção  ativa e liderança de organização criminosa voltada à prática de homicídio, sugiram mais detalhes sobre pessoas que estariam potencialmente envolvidas no desaparecimento de Danielito.

 O delegado cita o depoimento de um policial aposentado, compadre de Betão. O relato é de que Betão procurou o homem e propôs parceria na execução de Daniel. O compadre recusou e alertou de que matar o filho do Rei da Fronteira resultaria em vingança. Betão, que estaria interessado no pagamento, disse que a ordem de execução partiu de Jamil Name Filho, mas que queria também a autorização de Jamil Name.

“Segundo a testemunha, o Betão teria ido à casa de seu Jamil Name, relatado sobre a empreitada criminosa que o filho dele teria proposto e o gesto que a testemunha fez para a gente no depoimento, que o seu compadre teria relatado e que o seu Jamil Name teria feito assim ‘passou da hora’. Então,  tá mais do que provado que o seu Jamil Name estava envolvido na morte”, disse o delegado Fábio Peró, em 15 de junho deste ano.

Trecho de depoimento do delegado Fábio Peró, titular do Garras.

Servidor estadual, Alberto Aparecido Roberto Nogueira,  o Betão, morreu carbonizado em 21 de abril de 2016. O corpos dele e do policial civil Anderson Celin Gonçalves da Silva estavam numa caminhonete, que foi incinerada no lixão da cidade de Bela Vista.

Para a defesa  de Fahd Jamil, as alegações de que Jamil Name estaria envolvido no desaparecimento de Daniel impactam diretamente tanto na narrativa acusatória quanto nas estratégias defensivas.  “Visto que toda a denúncia é construída em cima da suposição que Fahd Jamil com o objetivo de vingar a morte do seu filho Daniel, teria solicitado auxílio de Jamil Name e Jamil Name Filho para consecução do homicídio de Ilson Martins Figueiredo”.

Ainda não há decisão do juiz da 2ª Vara do Tribunal de Campo Grande, Aluízio Pereira dos Santos, sobre os pedidos da defesa de Fahd Jamil.