No artigo “O pensamento oriental e a superação da falsa dicotomia entre Estado e mercado”, o economista e ensaísta Albertino Ribeiro tenta desvendar o sucesso econômico dos tigres asiáticos. China, Coréia do Sul e Japão apostaram no papel do Estado como principal parceiro do mercado, transformando em sucesso mundial marcas de veículos como Hyundai e Toyota.

Em quatro décadas, a economia brasileira, que seguiu o consenso neoliberal de Washington, cresceu apenas seis vezes, de US$ 235 bilhões para US$ 1,4 trilhão. No mesmo período, a China viu a economia se multiplicar por 60 e saltou de US$ 315 bilhões para US$ 15 trilhões.

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“A crise de 1929 foi um aviso inequívoco de que a realidade não se encaixava fielmente nos modelos matemáticos preconizado pelos liberais ortodoxos que avalizavam a mão invisível como fator de estabilização da economia. Contudo, a lição não foi aprendida e a queda de braço continuou até que três elementos disruptivos – China, Crise de 2008 e a Pandemia –  entraram em cena como verdadeiros cavaleiros do apocalipse do capitalismo que insistia em ficar parado no tempo”, recorda Ribeiro.

“Diferentemente, na década de 1990, o Brasil começou a perder seu parque industrial em virtude da abertura apressada e sem critérios. Alertado por empresários e por economistas sobre a necessidade de se desenhar uma política industrial para o país, o então ministro da Fazenda do governo FHC, Pedro Malan, respondeu: ‘a melhor política industrial é não ter política industrial’. Dito de outro modo, deixa o mercado agir sozinho que ele nos levará à prosperidade”, destacou, apontado a causa da desindustrialização acelerada do País.

“Destarte, perdemos uma grande oportunidade de nos inserirmos no comércio mundial com produtos de maior valor agregado e com ganhos de escala. Mesmo com governos de esquerda que possuem tradição desenvolvimentista, entre 2003 e 2014 fomos míopes e apostamos todas as nossas fichas apenas em commodities (soja, minério de ferro e petróleo) e esquecemos a indústria, o que nos obrigou a caminhada lenta e claudicante”, avaliou, destacando que nem os governos progressistas deram a atenção merecida para o setor industrial.

Confira o artigo:

“O pensamento oriental e a superação da falsa dicotomia entre Estado e mercado

Albertino Ribeiro

O mundo passa por grandes mudanças e exige que usemos novas lentes para enxergá-lo com a devida clareza. Muitas questões que, no passado, apresentavam-se como oposições irreconciliáveis – certo ou errado, preto ou branco –  hoje se interagem e criam tonalidades que não podem ser enxergadas com as lentes do fundamentalismo.

Com a ciência econômica acontece a mesma coisa. No passado, a oposição entre Estado e mercado era fulcro de grande debate que colocava economistas em lados diametralmente opostos.

A crise de 1929 foi um aviso inequívoco de que a realidade não se encaixava fielmente nos modelos matemáticos preconizado pelos liberais ortodoxos que avalizavam a mão invisível como fator de estabilização da economia. Contudo, a lição não foi aprendida e a queda de braço continuou até que três elementos disruptivos – China, Crise de 2008 e a Pandemia –  entraram em cena como verdadeiros cavaleiros do apocalipse do capitalismo que insistia em ficar parado no tempo.

O mundo precisou dessa overdose em sequência para perceber que, separadamente, mercado e Estado não conseguem dar conta da complexidade do mundo real. Insistir com a receita dual e excludente para tratar as contradições socioeconômicas será o caminho mais fácil para a ‘falência múltipla das instituições’.

A Ásia, principalmente China e Coreia do Sul, foi o único continente que não ouviu o canto da sereia pautado pelo consenso de Washington no fim da década de 80. Talvez, graças a seus pilares culturais e a tradição filosófica, seguiu caminho próprio e vitorioso.

Não é possível compreender a economia desses países sem conhecer a ideia dos opostos complementares (Yin e Yang). É uma visão de mundo que concebe as contradições como a razão de ser do universo; onde tudo que existe possui o seu oposto. Contudo, cada coisa já carrega dentro de si a semente da sua própria oposição. Destarte, é possível alcançar uma harmonia pela combinação dos opostos que são, ao mesmo tempo, complementares. Lembra do famoso caminho de meio que os orientais tanto falam?

Com esse modo de enxergar o mundo e os fenômenos econômicos, os países asiáticos, desde a década de 80, apresentam crescimento e desenvolvimento invejáveis. Para eles, Estado e mercado não são opostos inconciliáveis, mas são complementares e sinérgicos.

A Coreia do Sul, por exemplo, aproveitando a capacidade do mercado em gerar riqueza e utilizando o Estado como parceiro empreendedor, saiu de uma renda per capita de U$$ 1.715 em 1980 para U$$ 31.762 em 2020 – dados do FMI.  

Antes mesmo da década de 1980, a Coreia do Sul, cuja bandeira faz alusão aos opostos complementares yin e yang. Investiu fortemente em suas empresas com objetivo de elevá-las à condição atual de grandes players do comércio internacional. É o caso, por exemplo, da Hyundai que esteve várias vezes à beira da falência, mas o governo dos criadores do taekwondo não desistiu de fazer da sua montadora campeã mundial.

Até mesmo o Japão que sofrera forte influência americana no pós-guerra, nunca tratou Estado e mercado como elementos diametralmente opostos. A terra da tenista Noemi Osaka – favorita à medalha de ouro olímpica – não prescindiu o papel do estado que teve papel fundamental na criação da Toyota.

Antes do apoio estatal, a montadora japonesa era motivo de piada, pois os seus carros eram chamados de enceradeira pelos americanos. A fábrica esteve várias vezes à beira da falência, mas conseguiu transformar-se no Samurai que hoje conhecemos; tudo isso graças a mão visível do Estado japonês que agiu como um verdadeiro mestre e acreditou no potencial da empresa.

O caso mais emblemático de sucesso da parceria Estado e mercado é, inequivocamente, a China. Muitos especialistas discutem se o gigante asiático é comunista, socialista ou capitalista. Uns dizem que é um capitalismo de estado, outros acreditam que seja um socialismo orientado para o mercado, ou seja, não há um consenso. Talvez a China seja uma revolução em si mesma, algo que está em construção, em um movimento dialético fruto do seu pensamento baseado nos opostos complementares.

A terra de Confúcio – que pratica nas praças a arte marcial do tai chi chuan, superação das polaridades (coincidência?) – viu o seu PIB crescer em média 10% nos últimos 40 anos. Em 1980, o PIB chinês era de apenas U$$ 305 bilhões; em 2020 alcançou os U$$ 15 trilhões e a tendência é superar os EUA até 2028.

Por seu turno, a América Latina, enquanto navegava em águas turbulentas no final do ano de 1989, ouviu o canto da sereia vindo de Washington e optou por não seguir o exemplo do mito de Ulisses (aí, filósofo Mário! Bebendo na sua fonte); não pôs cera no ouvido e nem pediu que fosse amarrada no mastro do navio. O resultado nós sabemos muito bem, pois sentimos na pele os efeitos de uma opção pouco inteligente e maniqueísta.

Em 1980, o PIB brasileiro era de U$$ 235 bilhões; hoje estamos em U$$ 1,4 trilhão, ou seja, crescemos 6 vezes em 40 anos. Nesse mesmo período, a China cresceu 60 vezes. Isso porque o governo chinês abriu a economia com planejamento e política industrial, deixando claro qual seria o papel de cada empresa dentro de suas fronteiras.

Diferentemente, na década de 1990, o Brasil começou a perder seu parque industrial em virtude da abertura apressada e sem critérios. Alertado por empresários e por economistas sobre a necessidade de se desenhar uma política industrial para o país, o então ministro da Fazenda do governo FHC, Pedro Malan, respondeu: “ a melhor política industrial é não ter política industrial”. Dito de outro modo, deixa o mercado agir sozinho que ele nos levará à prosperidade.

Destarte, perdemos uma grande oportunidade de nos inserirmos no comércio mundial com produtos de maior valor agregado e com ganhos de escala. Mesmo com governos de esquerda que possuem tradição desenvolvimentista, entre 2003 e 2014 fomos míopes e apostamos todas as nossas fichas apenas em commodities (soja, minério de ferro e petróleo) e esquecemos a indústria, o que nos obrigou a caminhada lenta e claudicante. Não existe mais espaço para discussões bizantinas; é necessário deixarmos para trás a visão cartesiana e mecanicista que nos aprisiona e seguirmos o exemplo da sabedoria milenar. Tenho convicção que o ponderado caminho do meio seja a solução para uma grande mudança: trocar nossos voos de galinha pelo invejável voo dos dragões do oriente.

(*) Albertino Ribeiro é economista, ensaísta e analista de informações socioeconômicas do IBGE