No artigo “Vacinas e cutucadas contra a nossa irracionalidade”, o ensaísta e economista Albertino Ribeiro fala sobre a necessidade de “empurrãozinho”, como sorteios de prêmios ou punições, para fazer a coisa certa, mesmo que isso signifique salvar a própria vida, como tomar a vacina contra a covid-19.

Ele cita o caso do prefeito Sergei Sobyanin, de Moscou, que decidiu sortear apartamentos e carros para elevar o percentual de cidadãos vacinados pela Sputnik V. “É mais um esforço que a prefeitura da capital russa realiza para despertar interesse na população que não tem aderido à campanha de vacinação”, observa.

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“Diante disso, fica a pergunta: se as pessoas são racionais, por que é necessário dar-lhes um empurrãozinho para fazer algo que protegerá a sua própria vida?”, questiona Riberio.

“Ademais, nossas emoções muitas vezes estão ancoradas em instintos que nos impedem de olhar com lucidez e clareza os problemas que nos afligem. Dentro desse contexto, é perfeitamente compreensível quando o Estado – digo Estado em um sentido amplo, leitor, incluindo os governos federal, estadual e municipal – nos direciona para que possamos tomar decisões corretas, principalmente, se essas decisões afetarão toda a coletividade”, pontua.

Confira o artigo na íntegra:

“Vacinas e cutucadas contra a nossa irracionalidade

Albertino Ribeiro

Diante do aumento do número de casos de Covid-19, no domingo passado (13), o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, anunciou que todos os cidadãos moscovitas que tomarem a vacina Sputnik V terão direito de participar de sorteios de carros e apartamentos. É mais um esforço que a prefeitura da capital russa realiza para despertar interesse na população que não tem aderido à campanha de vacinação.

Diante disso, fica a pergunta: se as pessoas são racionais, por que é necessário dar-lhes um empurrãozinho para fazer algo que protegerá a sua própria vida?

O economista comportamental Dan Ariely, autor do livro Previsivelmente Irracional – editora Campus, responde a essa questão de forma bem direta como  pode ser  constatado no título do livro.

A teoria econômica tradicional defende que nós homo sapiens sempre calculamos corretamente as diversas variáveis envolvidas quando tomamos nossas decisões. Segundo Ariely, não é bem isso que acontece; já está provado que nós somos influenciados pelos diversos contextos do dia a dia e repetimos padrões de comportamentos muitas vezes prejudiciais para nós mesmos e para a coletividade.

Ademais, nossas emoções muitas vezes estão ancoradas em instintos que nos impedem de olhar com lucidez e clareza os problemas que nos afligem. Dentro desse contexto, é perfeitamente compreensível quando o Estado – digo Estado em um sentido amplo, leitor, incluindo os governos federal, estadual e municipal – nos direciona para que possamos tomar decisões corretas, principalmente, se essas decisões afetarão toda a coletividade.

O Estado pode usar seu poder coercitivo e nos obrigar ao uso de máscaras e pode nos obrigar a não fazer aglomerações, como vem acontecendo. Por seu turno, pode através de políticas públicas – baseadas na economia comportamental – direcionar as pessoas para que possam tomar decisões certas sem obrigá-las. É o que está fazendo o prefeito moscovita ao apelar para o poder do desejo que as pessoas têm de ganhar um carro ou um apartamento.

Mas nem sempre é necessário apelar ao desejo; às vezes uma política pública pode lograr êxito quando trabalha aproveitando a nossa própria indolência. É o caso de uma escola nos EUA que, preocupada com o alto índice de obesidade dos alunos, resolveu modificar a forma como os alimentos do restaurante escolar estavam expostos na hora do almoço.

Destarte, os alimentos mais saudáveis ficaram mais ao alcance das crianças e aqueles menos saudáveis, como salgadinhos e pizza, por exemplo, ficaram mais afastados. Depois dessa simples mudança, a maioria das crianças passou a comer os alimentos mais saudáveis. Veja que interessante, a escola encontrou uma forma de incentivar os alunos a fazerem a coisa certa sem obrigá-los.

Os psicólogos econômicos chamam essa metodologia de nudge (cutucada, empurrãozinho), uma espécie de paternalismo libertário; uma alternativa inteligente e sutil que motiva, inclusive, aqueles que não gostam que o Estado ou qualquer outro ente se metam em sua vida (É o seu caso?).

Por aqui, em Mato Grosso do Sul, parece que a população está se comportando de forma próxima ao racional; estado tem liderado o ranking de vacinação sem precisar de “cutucadas”. A nossa Capital, por exemplo, enquanto finalizo este artigo, já vacinou 38,6% com a primeira dose e 15,3% já receberam a segunda dose.

Estamos caminhando de forma consciente a sonhada imunidade de rebanho. E, se for necessário, o Governo do Estado e as 79 prefeituras não devem deixar de promover políticas públicas inteligentes que conduzam  nossos irmãos sul-mato-grossenses a tomarem decisões certas.”

(*) Albertino Ribeiro é economista, ensaísta e analista de informações socioeconômicas do IBGE