(*) Giselle Marques

Neste domingo, assassinato de vereadora do Rio de Janeiro completa três anos e ainda falta descobrir mandante (Foto: Arquivo)

Quando Marielle Franco morreu e a notícia se espalhou pelos meios de comunicação, fui tomada por uma imensa tristeza. Poucas mortes de pessoas públicas me abalaram como o assassinato dela. Eu não conhecia Marielle, nunca tinha ouvido falar dela. Mas, durante os dias que se seguiram, levantar da cama ficou difícil.

Eu, que sempre acordo com uma alegria radiante e muita vontade de viver a vida, de repente entristeci. Era como se os meus sonhos de igualdade material entre as pessoas, justiça social, convivência democrática entre as diferenças, tivessem sido para sempre roubados. Não, dias melhores não virão, comecei a pensar.

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Desde que Marielle se foi, uso a mesma tela de fundo no meu celular: a foto dela com o deputado Freixo, ambos com a camisa do Flamengo, sorrindo, lindos. Já não penso tanto nisso, mas a fotografia está ali para me ajudar a lembrar. Hoje, dia 14 de março de 2021, completam-se três anos do dia em que essa mulher negra, favelada, foi assassinada. Mais uma mulher. Segundo o Núcleo de Estudos da Violência da USP, 75% das mulheres vítimas de homicídio no Brasil são negras, sem que isso cause assombro. Então, porque a morte de Marielle causa tanta comoção e ódio?

As pautas que Marielle defendia, incomodam: liberdade sexual, distribuição de renda, uma polícia que proteja a todos e que não mate os pobres. Pretos e Pardos representaram 78% das pessoas mortas pela polícia do Rio de Janeiro em 2019. Das 1.814 pessoas mortas em ações da polícia, 1.423 foram pretas ou pardas. Entre elas, 43% tinham entre 14 e 30 anos de idade.

Jovens aos quais foi negado o direito básico à própria vida. Também foi-lhes negado o direito de acesso ao judiciário, o direito de serem julgados pelos crimes que supostamente cometeram- lembrando-se que muitas das vítimas não estavam envolvidas em qualquer prática delituosa.

A liberdade que Marielle pregava, não queria dizer que você tenha que amar dentro da receita X ou Y. Mas que você precisa respeitar a escolha (e/ou a orientação) de amor do outro. Você não precisa apoiar nenhuma das bandeiras que Marielle defendia, mas você precisa respeitar o direito que qualquer cidadã e cidadão tem de defendê-las, “com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor”, como está lá em Efésios 4:2, na Bíblia. Você pode ser cristão ou não, mas em qualquer credo, lei ou código de convívio social, o “Não matarás” do Sermão da Montanha, que está lá em Êxodo 20:13, é uma regra válida e inafastável.

Quando os quatro tiros atingiram a cabeça de Marielle, eles atingiram também a nossa capacidade de nos suportar uns aos outros, de não matar o outro porque ele pensa diferente de mim. A vida é uma dádiva de Deus, do universo. É o maior tesouro, a maior alegria possível. Sem ela, é o caos, o breu, o nada. O ódio sexista, religioso, político, nacionalista, quando move pessoas ao ponto de assassinarem outras pessoas, dá vazão a episódios como o genocídio nazista de onze milhões de seres humanos, a maioria judeus, mas também comunistas, ciganos, poloneses, que envergonha a história da humanidade.

Na União Europeia desde 2017 vigora uma lei que pune quem nega o holocausto, pois dentre as mazelas deste século XXI está a negativa de fatos incontroversos, dentre os quais o de que a terra é redonda, o de que vacinas protegem e que a ciência nos ajuda a nos compreender e melhorar a vida em sociedade.

Hoje acenderei uma vela por Marielle, para que a luz divina nos ilumine, e não nos relegue às trevas. Quem zela pela vida dessa vereadora que para sempre foi, é como quem está guardando o óleo daquela lamparina da esperança na humanidade, da convivência fraterna, da solidariedade e paz.   Marielle vive!

(*) Giselle Marques é advogada professora universitária