Por Giselle Marques, advogada

Giselle Marques é advogada e professora universitária

Hoje, 8 de março de 2021, Dia Internacional da Mulher, acordei com vontade de celebrar. Não quero aqui falar das estatísticas, da diferença salarial entre homens e mulheres para o mesmo tipo de trabalho, da violência e do feminicídio. Mas, sim, do feminino. Esse que é tão magnífico. Escolhi com cuidado essa palavra. Um adjetivo só que diz tudo.

Quero falar de como é bom sermos donas da nossa sexualidade, do nosso prazer. Se a mulher não é dona do seu próprio corpo, ela não tem nada. Essa é a nossa primeira conquista. Quando entrei na faculdade de Direito, nos anos 80, havia no Código Civil um artigo que dizia que, se o marido na noite de núpcias percebesse que a mulher já fora “deflorada”, ele teria dez dias para pedir a anulação do casamento (§ 1º do artigo 178 da Lei 3.071, de 01 de janeiro de 1916, que vigorou até 10 de janeiro de 2003, embora esse dispositivo tenha caído um pouco antes). Não faz tanto tempo assim.

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No léxico, “defloramento” se traduz como “queda da flores”. “Perda ou cessação do viço; diminuição do vigor, da robustez”. A mulher deflorada é, portanto, aquela que perdeu algo. Algo que daria a ela um valor. A ser vendido, negociado, fosse através de um “bom” casamento, mediante o qual ela alcançaria respeito da sociedade e sustento para a toda a vida, ou mercadoria nas zonas de baixo meretrício (até hoje lucrativas, em pleno século XXI).

Hoje acordei lembrando da primeira vez em que percebi a diferença entre os gêneros. Eu tinha 4 anos de idade. Era um dia de sol, e eu estava com minha avó e tias em torno do telefone preto, esperando chegar informações sobre o parto da tia Vera que estava acontecendo em Cuiabá. Quando finalmente o telefone tocou (e tocou alto), veio a notícia: tudo correu bem, e o bebê nasceu com saúde. Alegria geral, risos, abraços, comemoração.

Pulávamos de alegria. Até que alguém perguntou: “e qual é o sexo?” A tia Julia voltou ao telefone e veio a notícia: é menina. Os olhos da minha avó Heloisa entristeceram na hora. A alegria cessou. Eu perguntei: “vó, porque a senhora ficou triste? É uma menina para o nosso time”. Ela respondeu: “ah, minha filha… menina nasce só pra sofrer”.

O choque daquela manhã durou por toda uma vida. Ali eu descobri que havia uma diferença entre homens e mulheres. Ali me vi, menina, e não me senti frágil: veio uma força enorme no meu peito e eu tomei uma decisão. A de ser mulher, e ser feliz.

Gosto de cabelo comprido, de unha arrumada, de roupa colorida. Gosto de batom e de sombra rosa. Uso tudo o que minha feminilidade e minha vontade me permitem. Inclusive uso a minha vida para lutar pela igualdade de direitos entre homens e mulheres. O nome disso é feminismo.

No Oriente Médio e na África há locais nos quais as meninas não têm direito de estudar. Segundo a ONU, em 70 países, as mulheres ainda sofrem ataques por ir à escola. O sofrimento da mutilação genital feminina (infibulação) é uma realidade para cerca de 200 milhões de meninas e mulheres que vivem hoje, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

No Brasil, há mais de 180 estupros por dia. Foram 66 mil vítimas de estupro no Brasil em 2018. A maioria das vítimas (53,8%) meninas de até 13 anos. Meninas que perderam direito à própria flor. E não estou aqui falando da genitália, mas da flor da vida, aquela que nos traz alegria, e que faz ter algum sentido estarmos aqui.

Nesse 8 de março, eu descobri que a minha cor é o rosa choque. Porque não vão nos dar nosso direito ao nosso próprio corpo, à educação, ao trabalho digno, à igualdade na remuneração, como um presente. Podem até nos dar flores. Em buquês e arranjos festivos. E nós queremos essas flores, sim. Mas queremos mais. Queremos ser iguais em direitos. Queremos proteção contra o machismo estrutural que habita em mim e em você, e nas nossas tias e avós. 

Que parece inofensivo, mas que relega mulheres à categoria de cidadãs de segunda classe. Queremos flores, sim, mas também respeito, dignidade e igualdade. Por isso hoje é o Dia Internacional da Mulher. Para que ao menos uma vez durante o ano inteiro possamos falar sobre isso.