Federais permaneceram quatro horas na Governadoria para cumprir mandados da Vostok em setembro de 2018 (Foto: Arquivo/Campo Grande News)

Secretária de Reinaldo Azambuja (PSDB) desde quando ele era deputado federal em Brasília, a chefe de gabinete do tucano, Cristiane Andréia de Carvalho dos Santos Barbosa, 51 anos, foi indiciada por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e por integrar organização criminosa na Operação Vostok. Conforme o inquérito 1.190, da Polícia Federal, há indícios de que ela recebeu propina no esquema da JBS.

Andréia é um dos 22 indiciados pela Dicor (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado) da PF, que concluiu a investigação em junho deste ano. Documentos e quebra de sigilos bancário e telefônico confirmam a delação premiada dos executivos e donos da JBS, de que houve pagamento de R$ 67,791 milhões ao tucano em troca de incentivos fiscais concedidos pelo Estado de Mato Grosso do Sul.

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A lealdade pode ter causado transtornos à chefe de gabinete de Reinaldo, como a de sofrer abalo na imagem e de ser obrigada a comparecer à Justiça. No entanto, também trouxe bônus, como ser um dos poucos servidores públicos privilegiados com aumento de salário na administração estadual.

Conforme o Portal da Transparência, Andréia tinha salário de R$ 15.294,72 no primeiro mandato do tucano. Com a reeleição do tucano com 677 mil em votos em 2018, a assessora teve aumento de 28% no subsídio, que passou a ser de R$ 19.623,39 desde janeiro de 2019. No segundo mandato de Reinaldo, a maior parte dos 75 mil funcionários está com os salários congelados. Pior ainda foi a situação de 9 mil professores temporários, que tiveram redução de 32%.

A chefe de gabinete era a encarregada de marcar os encontros do governador com os executivos da JBS. Secretária de Wesley Batista, Érika Helena entregou relatório de conversas de whatsapp e a agenda para confirmar as conversas com “Cris”, nas quais agendou os encontros para acertar o suposto pagamento de propina. Foram quatro na Governadoria e um na sede da companhia em São Paulo.

De acordo com o relatório do delegado Leandro Alves Ribeiro, há fortes indícios de que a secretária recebeu valores em espécie. O corretor de gado José Guitti Guímaro, o Polaco, era o encarregado de sacar o dinheiro e fazer o repasse, conforme a PF.

Em março de 2015, logo após o pagamento de notas frias pela JBS a Buriti Comércio de Carnes, Polaco fez saque de R$ 200 mil e teria se encontrado com Cristiane Barbosa, conforme o relatório. Em outra ocasião, ele sacou R$ 91,2 mil.

Em todas as ocasiões, os acontecimentos se repetiam. A JBS pagava, havia contatos entre os envolvidos (o corretor, os empresários e o Rodrigo Souza e Silva), ocorria o saque e o suposto encontro de Polaco com Cris.

“Existem robustos elementos de informação indicando que, após José Ricardo fazer os saques, ele se encontrava com Cristiane Barbosa nas proximidades da Governadoria para fazer a entrega desses valores, sob orientação de Rodrigo Souza e Silva”, concluiu o delegado, a respeito da participação da chefe de gabinete no suposto esquema criminoso.

Chefe de gabinete e o governador em matéria do Midiamax

O Midiamax apontou que houve o repasse de R$ 492 mil à secretária do tucano. Em nota ao portal, o Governo do Estado informou que não há nenhum procedimento administrativo contra a chefe de gabinete do governador.

“O indiciamento não é prova da culpabilidade da conduta, cabendo ao Judiciário a manifestação a respeito do caso”, informou a assessoria, conforme o Midiamax. Ela não será afastada, “porque não há condenação e deverá ser respeitado o direito ao contraditório e à ampla defesa, para que o Judiciário possa decidir sobre a questão”. Cristiane não se manifestou. O Jacaré deixa espaço aberto caso queira contestar as conclusões da PF.

O governador também tem reiterado de que não houve pagamento de propina. Ele diz que foi vítima de “chefes de facção criminosa”. Com base nesta acusação, Reinaldo quer anular a delação da JBS. O pedido, feito em junho de 2017, será julgado a partir do dia 2 de outubro deste ano pelo Supremo Tribunal Federal.

Após a conclusão do inquérito, o caso é analisado desde 9 de julho deste ano pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. Ele poderá denunciar o grupo, pedir novas investigações ou determinar o arquivamento por falta de provas.