Operação Vostok completou dois anos neste mês: investigação confirma delação da JBS (Foto: Arquivo)

Réu na Operação Lama Asfáltica, o empresário Antônio Celso Cortez recebeu R$ 12,1 milhões em espécie em 2015, que seriam parte da suposta propina destinada ao governador Reinaldo Azambuja (PSDB). Conforme o inquérito 1.190, concluído em junho deste ano pela Polícia Federal, o dono das empresas de tecnologia recebia o dinheiro em caixas lacradas no Rio de Janeiro e São Paulo.

Dos R$ 67,791 milhões pagos em propina ao tucano, os policias concluíram que R$ 45,661 milhões foram pagos por meio de notas frias, R$ 10 milhões por doações oficias na campanha ao Governo em 2014 e R$ 12,130 milhões em espécie.

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Os detalhes da entrega do dinheiro foram dados pelos executivos Demilton Antônio de Castro e Florisvaldo Caetano Vargas. Alvos da Operação Vostok, deflagrada em 12 de setembro de 2018, Cortez e João Roberto Baird, o Bill Gates Pantaneiro, confirmaram parte das informações.

Conforme os delatores, Cortez foi indicado pelo advogado Rodrigo Souza e Silva, filho de Reinaldo, para receber o dinheiro. O acerto teria ocorrido em reunião na sede da JBS em São Paulo. A PF rastreou o celular do herdeiro do tucano e confirmou que na data do suposto encontro, ele estava na região onde fica a sede administrativa da multinacional brasileira.

As entregas ocorreram no Supermercado Guanabara, no Rio de Janeiro, e em outra rede de supermercado e casa de carne em São Paulo. Florisvaldo disse que foram entregues R$ 8,630 milhões em quatro viagens feitas ao Rio de Janeiro. Já em São Paulo, ele teria repassado R$ 3,5 milhões em três ocasiões.

Em depoimentos à Dicor (Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado) da Polícia Federal, Cortez confirmou que recebia “encomendas” da JBS a pedido de Baird. Ele contou que “caixas lacradas” eram entregues em um hotel paulistano. Ele recebia a encomenda e a deixava em móvel com chave. Ao sair do escritório de Baird, ele trancava a sala. O tamanho da caixa seria de uma resma de papel sulfite.

Já no Rio, conforme Cortez, ele era orientado a esperar a entrega do pacote no depósito da rede de supermercado. Ele relatou ter feito o favor de cinco a seis vezes. O Bill Gates Pantaneiro confirmou o pediu para o “amigo” lhe fazer o favor de pegar os pacotes.

O empresário contou à PF que pegava o dinheiro a pedido do empresário Wesley Batista, um dos donos da JBS. Ele alegou que a medida passou a ser adotada porque houve dificuldade de conseguir dinheiro no mercado oficial após as operações da Polícia Federal. Além da Lava Jato, que chacoalhava a política nacional, a Operação Lama Asfáltica, que mirou em Baird, começou em julho de 2015.

Apesar de confirmar o recebimento dos pacotes e dinheiro, Cortez e Baird negaram qualquer esquema de pagamento de propina pela JBS ao governador Reinaldo Azambuja.

Preso na Lama e na Vostok, Baird confirmou repasse de dinheiro pela JBS, mas para driblar dificuldade por conta das operações da PF (Foto: Arquivo)

Antônio Celso Cortez e João Roberto Baird são réus na Operação Lama Asfáltica e na ação da propina da JBS ao ex-governador André Puccinelli (MDB). O primeiro é dono das empresas de informática, como Itel, Mil Tec e PSG Tecnologia, que possuem contratos milionários com o Governo do Estado. Elas receberam mais de R$ 200 milhões apenas na gestão tucana.

Cortez alegou problemas mentais para atrasar o julgamento das ações da Lama Asfáltica na 3ª Vara Federal. O juiz Bruno Cezar da Cunha Teixeira determinou a instauração de insanidade mental, que está na fase de avaliação psicológica do empresário.

Reinaldo sempre negou o recebimento de propina da JBS. O tucano alegou que é vítima dos líderes de uma facção criminosa. Ele pediu a anulação da delação premiada da JBS, que foi negada pelo ministro Celso de Mello. No entanto, o governador recorreu e o agravo interno será julgado pelo plenário de 2 a 9 de outubro deste ano.

O inquérito da Vostok foi encaminhado ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que poderá apresentar a denúncia ao Superior Tribunal de Justiça, arquivar ou pedir novas diligências.

Relator do inquérito na corte, o ministro Felix Fischer tem outro pedido do tucano para analisar. Reinaldo quer transferir a investigação para a primeira instância, porque ele está no segundo mandato e o Supremo Tribunal Federal determinou o fim do foro privilegiado para crimes cometidos no mandato anterior.