Com salário de R$ 5,3 mil, Tiago foi demitido pelo Governo, enquanto condenados continuam recebendo de R$ 6,2 mil a R$ 23,9 mil (Foto: Arquivo)

A administração tucana demitiu o investigador da Polícia Civil, Tiago Henrique Vargas, 31 anos, crítico contundente do governador Reinaldo Azambuja (PSDB), por coação, desacato e ameaça a servidor – crimes que será julgado em maio de 2021. No entanto, o ex-motorista do tucano, o sargento Ricardo Campos Figueiredo, 43, que está preso e foi condenado a 20 anos por dar apoio à Máfia do Cigarro e corrupção, ganhou aposentadoria vitalícia de R$ 6.227.

Condenado a nove anos, dez meses e três dias pelo desvio dos cofres públicos e ocultar R$ 4,385 milhões na compra de uma fazenda, o fiscal de obras e ex-deputado Wilson Roberto Mariano de Oliveira, o Beto Mariano, já foi demitido duas vezes, mas permanece recebendo salário de R$ 23.146,66 graças à liminar obtida no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Investigado na Operação Lama Asfáltica, ele é acusado de integrar organização criminosa que desviou mais de R$ 432 milhões dos cofres públicos.

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Já o tenente-coronel Admilson Cristaldo Barbosa, condenado a 20 anos por corrupção e obstrução de investigação de organização criminosa na Operação Oiketicus, continua recebendo salário integral de R$ 23.966,01. Ele nem foi demitido ainda pela administração de Reinaldo e luta na Justiça para obter aposentadoria proporcional.

Os casos ilustrem bem os valores em alta na sociedade sul-mato-grossense. As suspeitas pairam até sobre o governador, que tem salário mensal de R$ 35,4 mil e foi indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Ele é acusado de receber R$ 67,791 milhões em propinas da JBS e ter causado prejuízo de R$ 209 milhões aos cofres estaduais, conforme a PF.

No entanto, o único punido com demissão foi o investigador Tiago Vargas. Ele ingressou na Polícia Civil há seis anos, no dia 1º de agosto de 2014, e despertou a fúria de Reinaldo ao fazer críticas aos seus aliados. A primeira punição ocorreu por cobrar coerência do então deputado federal Elizeu Dionízio (PSB), famoso por integrar a ala evangélica na Câmara dos Deputados.

Tiago foi demitido na sexta-feira por recomendação da sindicância da Corregedoria da Polícia Civil. De acordo com a assessoria, a punição é decorrente do surto que Vargas teve ao ser submetido a junta médica da Ageprev em abril do ano passado. Conduzida pelo médico oftalmologista e vereador, Lívio Viana, o Dr. Lívio (PSDB), a junta analisaria a insanidade do investigador.

De acordo com a ação penal do Ministério Público Estadual, Tiago gritou com os médicos, proferiu ameaças e quebrou a mesa, assustando Dr. Lívio. Ele acabou denunciado pelos crimes de coação, ameaça e desacato. A juíza May Melke Amaral Penteado Siravegna, da 4ª Vara Criminal, marcou o julgamento para o dia 21 de maio de 2021.

O policial ingressou com pedido de liminar para impedir a demissão, mas o pedido foi negado pelo juiz Zidiel Infantino Coutinho, da 3ª Vara de Fazenda Pública. A decisão foi mantida pela 1ª Câmara Cível do TJMS por unanimidade, conforme os votos dos desembargadores Marcelo Câmara Rasslan, Geraldo de Almeida Santiago e Divoncir Schreiner Maran, proferidos no dia 25 deste mês.

Ricardo Campos recebeu provento de R$ 6,2 mil da Ageprev (Foto: Reprodução)

Por outro lado, condenados por corrupção tiveram mais sorte no Governo do Estado e na Justiça sul-mato-grossense. Condenado duas vezes por corrupção passiva e obstrução de Justiça, o sargento Ricardo Campos Figueiredo era assessor especial da Secretaria de Governo e atuava como integrante da equipe de segurança de Reinaldo quando foi preso pelo Gaeco em 16 de maio de 2018.

Ele acabou condenado em primeira e segunda instância a 16 anos e seis meses por dar apoio à Máfia do Cigarro. Também foi condenado por obstruir investigação – ao destruir dois telefones celulares – a três anos de reclusão.

Preso desde outubro do ano passado, Figueiredo obteve aposentadoria proporcional e com direito a paridade. Conforme o Portal da Transparência, ele recebeu R$ 6.227 em junho ano, pouco abaixo do salário de R$ 7.556,69 pago em fevereiro deste ano. Condenado, ele recebe mais que Tiago Vargas ganhava como investigador da Polícia Civil – R$ 5.350,55.

Ricardo Campos (de camisa azul clara) conseguiu aposentadoria de R$ 6,2 mil apesar de ter sido condenado a 20 anos (Foto: Arquivo)

Mais sorte tem o tenente-coronel Admilson Cristaldo, condenado duas vezes por corrupção e obstrução de Justiça a 20 anos. De acordo com o Portal da Transparência, apesar de ter sido condenado a perda do cargo, ele recebe salário de R$ 23.966,01 por mês.

Condenado a nove anos e dez meses na Operação Lama Asfática, Beto Mariano tem salário de R$ 23.146,66 como funcionário da Agesul. Ele já foi demitido em agosto do ano passado, mas obteve liminar no TJMS para retornar ao cargo. A tutela de urgência foi concedida pelo desembargador Sideni Soncini Pimentel, do TJMS.

Portal da Transparência revela pagamento de R$ 25 mil a Beto Mariano em junho deste ano (Foto: Reprodução)

Ele foi demitido novamente e ingressou com novo pedido de liminar, que ainda será julgado pelo Tribunal de Justiça. Beto Mariano e Admilson lutam para ter o mesmo direito de Ricardo Figueiredo, a aposentadoria.

Tiago Henrique Vargas ingressou com pedido de liminar contra a demissão no sábado (18), mas o pedido foi negado pelo juiz de plantão, Alexandre Tsuyohi Ito. Ele alegou que a defesa poderia ter ingressado com o pedido na sexta-feira, dia da demissão, e o caso deve ser analisado pelo juiz  Zidiel Infantino Coutinho, da 3ª Vara, que analisa a denúncia de perseguição política desde julho do ano passado.

Beto Mariano obteve liminar na Justiça para continuar recebendo R$ 23,1 mil por mês. Em junho, Governo lhe pagou R$ 25.075,56 – cinco vezes o salário de Tiago (Foto: Arquivo)