Cledimar Camargo, do PSDB, terá salário de R$ 14.080, se for reeleito, apesar da crise causada pela pandemia e de negar reajuste aos professore e demais servidores (Foto: Arquivo)

Apesar da grave crise causada pela pandemia do coronavírus e de apenas 10,8% dos 4.831 moradores estarem empregados, os vereadores de Rio Negro, a 116 quilômetros da Capital, aprovaram aumento de 50% nos próprios salários. Com 33% da população local sobrevivendo com renda per capita inferior a meio salário mínimo (R$ 522,50), o subsídio do parlamentar passará de R$ 2.350 para R$ 3.525.

A polêmica proposta não contemplou apenas os vereadores. Eles incluíram na festa o prefeito Cledimar da Silva Camargo (PSDB), o vice-prefeito João Batista de Souza (SD) e os secretários municipais. Eles foram “abençoados” e não serão atingidos pela crise financeira, que impediu reajuste de salário para os professores e demais servidores municipais.

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Apenas dois vereadores se solidarizaram com a dor da população local, principalmente, com quem precisa apenas de uma cesta básica para garantir o dia de amanhã. A pandemia deverá ter impacto gravíssimo na população de Rio Negro. De acordo como IBGE, 1,5 mil pessoas tem renda per capita inferior a meio salário mínimo.

Dos 4.831 moradores, apenas 522 (10,8%) estão ocupados no município. A renda média dos trabalhadores na cidade é de 1,8 salário mínimo – a 75ª entre os 79 municípios sul-mato-grossense.

A realidade do município, que perdeu 26% dos habitantes em duas décadas, de 6,5 mil para 4,8 mil, conforme o IBGE, foi ignorada pelos vereadores. Devido à pandemia, a sessão ocorreu sem a presença da população local. Ou seja, a Câmara aproveitou a ausência dos eleitores e aprovou o reajuste de 10% a 50% nos salários.

“Não estamos devendo nada a ninguém” e “a votação está sendo feita às claras”. Esta foi a orientação da mesa diretora para votar o projeto. O salário do prefeito Cledimar Camargo passará de R$ 12.800 para R$ 14.080 em 2021, caso seja candidato e reeleito. Ele vai ganhar mais que a prefeita Délia Razuk (PTB), que administra Dourados, cidade com 222,9 mil habitantes.

Vereadores aproveitam ausência de eleitores para votar projeto polêmico (Foto: Reprodução)

Batista, como vice-prefeito, terá aumento de 17,33%, de R$ 6 mil para R$ 7.040. Os secretários foram agraciados com reajuste de 25,71%, de R$ 4.480 para R$ 5.632. Já os vereadores tiveram direito a cereja do bolo, acréscimo de 50%, de R$ 2.350 para R$ 3.525 a partir de 2021.

“Eu sou contra. Não é por pressão de ninguém. R$ 2300 estava de ótimo tamanho. Até o salário mínimo estava de ótimo tamanho. Não aumenta para os professores, não aumenta para os funcionários públicos, porque vai aumentar para os vereadores?”, questionou Guido Schimitz (MDB), que votou contra o projeto.

O outro voto contra foi do sargento Vanderlei de Amorim (PP). “Na hora de votar uma emenda para beneficiar 12 reais para a população mais carente é uma pandemia. Agora quando é pra votar seu projeto ninguém tem coragem de vir na tibuna e discutir”, criticou o Vanderlei de Amorim (PP), autor do segundo voto contrário.

A favor do reajuste de 50% no próprio Salário

Valdir Fischer (PSD)
Antônio Marques Ferreira, Marquinhos (PSD)
Núbia Vitória (PSDB)
Eronildes Sabino Nery (PSDB)
Dr. Mario (PSDB)
Antônio Holsbach (MDB)
Evaldo Paes (PSD)

Contra o reajuste inoportuno

Guido Schimitz (MDB)
Vanderlei De Amorim (PP)

Os parlamentares de Rio Negro seguiram o exemplo dos vereadores de Campo Grande, que mantiveram o reajuste de 26% nos próprios salários para 2021. Na Capital, o valor passará de R$ 15.031 para R$ 19 mil a partir de 2021. Além disso, ignoraram o gesto do prefeito Marquinhos Trad (PSD) e não reduziram os salários em 30%.

Outros municípios também tentaram elevar os vencimentos, como Jardim, São Gabriel do Oeste e Amambai. No entanto, após a repercussão, os vereadores desistiram do reajuste.