Governador do Distrito Federal diz que Mandetta errou ao ser mais político do que técnico no combate à pandemia (Foto: Arquivo)

Aprovado por 76% dos brasileiros, conforme o Datafolha, o trabalho do médico campo-grandense Luiz Henrique Mandetta, 55 anos, não foi unanimidade. O pecuarista Henrique Prata, 67 anos, administrador do Hospital do Amor, mais conhecido como Hospital do Câncer de Barretos, e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), aprovaram a sua demissão do cargo de ministro da Saúde pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e criticaram a postura política do ex-ministro.

“Já foi tarde”. A frase do emedebista, feita ontem em entrevista ao jornal espanhol El País, viralizou nas redes sociais nesta quarta-feira (22). Ele também demitiu o farmacêutico Osnei Okumoto, indicado por Mandetta para o cargo de secretário estadual de Saúde do Distrito Federal.

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“Acho que já foi tarde. O ministro Mandetta fez um excelente trabalho antes do coronavírus. Na nossa secretaria de saúde ele ajudou muito na atenção básica e no reaparelhamento da saúde, na compra de medicamentos, nos equipamentos dos hospitais. Isso tudo até a chegada da covid-19. Depois, parece que ele foi colhido por um vírus político e entrou numa divergência com o presidente e esqueceu da condução e do tratamento do coronavírus no Brasil como um todo”, criticou Ibaneis, que foi o primeiro governador a impor a quarentena, ao fechar tudo em Brasília desde 12 de março.

“Não sou médico, mas com base em nossa equipe concluí que ele não tratou o vírus da forma técnica como deveria. O tempo que ele perdia naquelas entrevistas era um tempo que poderia ser utilizado tratando de estratégias de combate com os governadores e secretarias de saúde dos Estados. Eu, nesse período todo ele não tratou comigo nenhuma vez”, acusou o governador.

Apesar de não ter assinado a carta divulgada por 20 governadores criticando Bolsonaro, Ibaneis não é aliado do presidente. No entanto, ele não aprovou a postura do ex-ministro da Saúde de contrariar o capitão publicamente. “Eu entendo que o ministro Mandetta poderia ter feito um trabalho diferenciado olhando para o Brasil como um todo. Ele se envolveu em uma guerra com o presidente da República e se esqueceu de um exército formado pelas secretarias de saúde dos Estados e municípios”, afirmou.

Esta não foi a única crítica ao sul-mato-grossense. Nesta quinta-feira (23), em entrevista ao Uol, Henrique Prata também fez duras críticas. “Eu gosto e admiro o Mandetta, mas em princípio ele é político. Foi um erro do Bolsonaro pôr mais um político ali. Isso contrariou todos os critérios de esperança de mudança da campanha. O Ministério da Saúde é o último lugar para fazer política. Tem de ser técnico”, avaliou.

“As atitudes do Mandetta foram pautadas 100% na política. Elogiavam ele porque esse coronavírus expôs sua competência de médico. Ele é uma pessoa honesta, competente, pessoa boa, mas a covid-19 é 1% dos problemas do ministério. A única luz que vi no Ministério da Saúde foi o [José] Serra, e agora vem uma pessoa que eu admiro, que será um ministro acima da média”, disse, elogiando o novo ministro, Nelson Teich.

“Ele é o nome ideal, talhado para ocupar o cargo. Eu me encontrei com o doutor Nelson em duas ocasiões. Há uns dois anos, nós fizemos palestras juntos. Eu sou uma pessoa sem cultura, ele tem cultura, mas nosso sentimento é igual: uma política honesta para ninguém ser tratado pela metade. Daí essa admiração que temos um pelo outro. Você vai ver o que ele vai mudar na saúde pública, a começar pelo câncer. Eu era uma voz gritando sozinho. Agora tem um homem lá com os mesmos sentimentos que eu tenho. Eu acho que esse cara é o cara. É competente. Tenho 100 cientistas na minha equipe, não conheço ninguém melhor do que ele. Foi o maior acerto do presidente Bolsonaro”, elogiou Prata.

Ibanheis e o presidente do Hospital do Coração vão na contramão das pesquisas de opinião pública. De acordo com o Datafolha, 76% dos brasileiros consideravam o trabalho de Mandetta como ótimo ou bom. O mesmo instituto apontou que 64% eram contra a sua demissão.

Sondagem do Atlas Político, apontou que 76,2% dos brasileiros eram contra a demissão de Mandetta do cargo. Segundo o levantamento, 64% dos entrevistados tinham visão positiva de Mandetta. Ele superou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, que apareceu em segundo lugar, com 53% de positivo. Até então, o ex-juiz era o mais popular integrante da equipe de Bolsonaro.

Mandetta mira o Governo de MS em 2022 e deve apoiar reeleição de Marquinhos (Foto: Arquivo)

Fora do cargo, o ex-ministro veio para a Capital visitar os pais e prometeu escrever um livro sobre a experiência de enfrentamento ao coronavírus. Ele descartou assumir o comando de secretaria estadual de Saúde em Goiás e São Paulo.

Mandetta não deve disputar as eleições deste ano já que apoia a reeleição do primo, o prefeito Marquinhos Trad (PSD). Ele está de olho na sucessão de Reinaldo Azambuja (PSDB) em 2022.